domingo, 30 de abril de 2017

Síria 2.1 - Em Sentido Contrário


Tudo começa naquele local repleto de magia, o aeroporto... Sinto o romper do cordão umbilical ao passar o controle de segurança... Respiro fundo e estou sozinho... Eu contra o mundo! Gosto dessa sensação de que já não posso olhar para trás... é só para a frente que estão concentrados todos os meus pensamentos, nesta missão que me marcará para todo o sempre... Olho à minha volta e sou apenas mais um, mas dentro de mim sinto uma força, uma energia, uma vontade de vencer inabalável... A cada contacto com desconhecidos, há uma voz dentro de mim que me domina: “Se soubesses para onde eu vou?” .... para onde todos querem sair...

E em 3 voos de seguida me ponho em Hatay (ou Antakya) na Turquia, já bem na fronteira com a Síria... e aí pelas caras, pelas roupas dos MSF me apercebo que neste último voo já vinha parte da minha nova família... Aqui já estamos 5 elementos desta futura equipa do hospital do norte da Síria... Não nos conhecemos, mas identificamo-nos de imediato, com expressões e linguagem comportamental semelhantes... um misto de excitação, cansaço, medo, entusiasmo e muita vontade de trabalhar...

O hospital onde eu trabalhei tinha sido encerrado semanas antes pela crescente presença de grupos radicais... que nós hoje chamamos hoje de Estado Islâmico... O Verão de 2013 foi um período de transição/modificação daquela que era a conjectura dos territórios controlados pela oposição ao regime... Esta crescente presença e repressão de grupos radicais, rapidamente criou enormes condicionalismos na população síria, e claro no trabalho dos Médicos Sem Fronteiras.... Mullahs e Imãs na sua maioria vindos do Iraque povoavam as mesquitas da região, alterando as “regras do jogo”, e assim impondo uma versão do Islão altamente repressora e punitiva... algo completamente diferente da práctica da esmagadora população síria, bastante moderada e equilibrada na sua forma de estar na vida... Esta mudança de paradigma, criou tensões e conflictos que obrigaram a evacuar o projecto e encerrar o hospital por falta de condições de segurança... E cabia-nos a nós reabrir o hospital e assim dar de novo alguma esperança aquele enorme pedaço de terra no norte da Síria, totalmente desprovido de estruturas de saúde, não fora os Médicos Sem Fronteiras...

Do aeroporto, vamos directos para o hotel.... e aí nos esperava a nossa chefe. Ela já estava em Hatay, há várias semanas a planear e orquestrar o regresso à Síria, e a reabertura do hospital... Fomos directos para uma reunião no quarto dela.... ainda estava meio desorientado da viagem, e já estava a ser bombardeado com informação... A minha chefe, enfermeira de profissão base e já com uma experiência de MSF absolutamente incrível... De imediato a minha chefe, entre cigarros, começou a abrir mapas por cima das camas dos seu quarto, daquilo que seriam os nossos próximos dias.... Até há pouco tempo atrás a Turquia facilitava a passagem de elementos dos MSF, por uma fronteira improvisada que não era mais que um arame farpado (que eu viria a conhecer mais tarde) e que encurtava bastante o trajecto... Mas com esta opção posta de parte, teríamos que dar uma enorme volta passando pela fronteira oficial na cidade turca de Killis... E o grande problema começa a partir daí quando a minha chefe nos mostra no mapa as inúmeras áreas em que ao fazer os cerca de 300kms por dentro de território sírio até chegar ao destino final, estaremos bastante expostos aos bombardeamentos frequentes.... As estradas são escolhidas minuciosamente na tentativa de serem protegidas pelas montanhas, mas algumas partes sombreadas a lápis cor-de-rosa no mapa, colocam-nos à mercê dos bombardeamentos frequentes do regime sírio.... É difícil, não engolir em seco com a antevisão destes perigos... mas paralelamente a importância da nossa missão parece crescer ao minuto e a vontade de fazer o que me propus assim acompanha....

A cidade de Antakya embora a escassos kilómetros da fronteira com a Síria, parecia ter todo um funcionamento normal.... A sul uma parede de montanhas, separava aquela cidade turca do maior inferno na terra do momento.... a guerra da Síria. Depois da dita reunião fomos beber um copo para descontrair e nos conhecermos... A conversa é boa, mas não consigo parar de pensar no que está a acontecer mesmo a sul, embora pareça tudo tão calmo e normal.... Fui dormir cheio de vontade do dia a seguir.... mas durante toda a noite ouvi bombardeamentos.... ou achei que ouvi, porque pelos visto tinha sido o único.... era tudo da minha imaginação....

A viagem de Antakya até Killis, não me deixou grandes memorias... mas a aproximação da cidade Killis que era mesmo na fronteira com a Síria, começou a abalar a minha estrutura..... Campos e campos e campos de refugiados até perder de vista a nascer por todos os lados... A fuga da guerra, mas a esperança de voltar mal esta acabe estacionou-os logo ali no primeiro ponto possível de quem saíra do norte da Síria em linha recta com Allepo e tantas outras cidades importantes.... É sufocante, asfixiante, desconcertante ver tanta a gente viver em tendas de plástico mais ou menos improvisadas, com condições limítrofes de sobrevivência.... é assustador e revoltante...

Em Killis, o assistente sírio da minha chefe, dá notícia pelo telefone a elementos do hospital na região de Idlib para onde íamos, que já estávamos na fronteira e em breve iríamos reabrir o hospital... Do lado de lá do telemóvel, ouvem-se gritos de alegria que nos aquecem a todos o coração.... Nessa noite dormíamos em Killis, antes de passar a fronteira bem de manhãzinha.... Escusado será dizer que há um “nervoso miudinho” que nos domina antecipando toda uma aventura que ainda nem começou... Vamos beber um copo e fumar shisha ao único bar de Killis que vende álcool, seria o último durante muito, muito tempo, pois na Síria tolerância zero por questões de segurança.... Nesse bar o avançar da conversa, a troca de diferentes sabores de shisha, e a construção de espírito de família de quem ia viver e trabalhar junto dia após dia sem folgas num ambiente de grande stress... é contagiado por um grupo de sírios todos do sexo masculino e com roupas de quem estava bem na vida, que começa a dançar com um ânimo e uma festividade como se celebrassem um casamento... Trocavam sorrisos na nossa direcção e já bem bebidos dançavam como se não houvesse amanhã... Até ai tudo normal, o detalhe que me marcou até hoje foi que começaram a lançar notas para o chão... quanto mais dançavam mais notas atiravam para o mesmo chão onde dançavam... seriam 7 ou 8 de várias idades, e entre abraços, risos, gritos e muita dança aos ritmos hipnotizantes árabes e/ou turcos... Observava-os disfarçadamente, mas dominavam completamente os meus pensamentos. A energia que transmitiam era uma mistura de alegria dum casamento com a tristeza de um funeral... Imagino uma salada de emoções de quem sente alívio por passar a fronteira e fugir a esta guerra estupidamente mortífera com a tristeza de quem deixa para trás a sua amada pátria, sabe-se lá com quantos entes queridos ainda à disposição das atrocidades desta guerra...

Imagino que deixar/desistir da sua pátria e tudo que ela representa será como abandonar para uma morte certa a nossa própria mãe....


-->
(continua)


terça-feira, 25 de abril de 2017

Mensagens para Mosul



Dentro de 1 mês, irei para o Iraque, Mosul trabalhar com os Médicos Sem Fronteiras. Eu tentarei fazer o que sei, salvar vidas num dos locais mais necessitados dos dias de hoje. Mas para além disso gostava de levar comigo mensagens de quem acreditar que não podemos ficar indiferentes a alguns acontecimentos trágicos da actualidade, como tem sido esta guerra por Mosul.
Em Junho de 2014, a maior cidade do norte do Iraque foi ocupada pelo Estado Islâmico, e desde Outubro de 2016 o exército Iraquiano tenta reconquistar esta importante cidade, numa guerra com consequências humanitárias dramáticas, que neste momento tem a cidade partida ao meio por uma linha de combate permanente. Nisto, há cerca de 400.000 pessoas encurraladas entre a espada e a parede com o propósito de escudos humanos. À mercê das bombas, de maldades e atrocidades, esfomeadas e desprovidas de tudo, inclusive de esperança.
Eu gostava de lhes dizer, que nós acreditamos que eles são seres humanos, que nós nos preocupamos e que tudo gostaríamos de fazer para que possam ter uma vida digna.
Irei recolher e compilar num livro, todas as mensagens/cartas que forem bem intencionadas e farei com que chegue às pessoas certas um reforço de esperança, um aquecer da alma que vos saia do coração, fazendo o difícil exercício de nos projectarmos naquilo que eles estão a passar.
Vou vos poupar das imagens de horror... das mortes, dos queimados, das decapitações, dos hospitais a transbordar de feridos... Mas quem vai estando atento terá uma ideia do sofrimento atroz que este povo tem estado sujeito!
Acredito mesmo que é na aproximação dos povos a solução para os grandes problemas, quero apenas ser o vector de todos aqueles que acreditam que vale a pena lutar por um mundo melhor.
1) Enviem por favor as vossas mensagens para o email : mensagensparamosul@gmail.com . Podem também fazê-lo através de comentário/mensagem no facebook, mas email seria preferível para melhor me organizar.
2) Escrevam o que vos apetecer, o que vos vai na alma. Português ou Inglês ( de preferência em Inglês), e tratarei de arranjar alguém que traduza para árabe.
3) Não mencionem o meu nome. Isto não é sobre mim. É de cada um de vocês para todas as pessoas que sejam dignas do vosso grito de esperança.
4) Tentarei trazer resposta, e responder a todos que me enviarem mensagens por email. Não prometo.
5) Vou precisar de ajuda. E agradeço imenso a todos que o possam fazer.
5.1) Que partilhem esta mensagem, ou copiem, ou enviem por email, tudo o que vos parecer que possa fazer com que eu leve um livro bem recheado de esperança!
5.2) Edição do livro. Tradução Português - Inglês e Português - Árabe e Inglês - Árabe.
6) Podem escrever mensagens curtas, ou cartas longas. Podem assinar ou não. Podem enviar ilustrações. Tudo o que eu possa pôr num livro.
7) Não passem a vida a pensar no que poderiam ter feito e não fizeram ou no que poderiam ter dito e não disseram.
8) Eu sei que é pouco, mas é melhor que nada!
9) Estou aberto a sugestões!
Na parte que me toca, profundamente agradecido por me fazerem acreditar, e por reforçarem o meu orgulho em ser Português.
Muito Obrigado!
Um exemplo de mensagem linda que acabei de receber: " Tenho 18 anos e pouco conheço do Mundo fora do meu pequeno e tranquilo país, Portugal. Posso não saber muito sobre outras realidades pois penso que até as vivermos nunca as conhecemos realmente. Mas de uma coisa eu tenho a certeza todos deveríamos ter os mesmos direitos, todos deveríamos viver em paz, todos deveríamos viver em igualdade, pois mesmo longe daqui a vossa vida tem tanto valor com qualquer uma.
Imagino que quem quer que esteja a ler esta pequena mensagem já tenha passado por muitos momentos difíceis, já tenha vivenciado momentos de crueldade e de medo. Por tudo isso gostaria muito que soubessem que mesmo longe do vosso país, num sítio que talvez nem conheçam à alguém que se preocupa com a vossa situação, que se preocupa com vocês e mesmo não vos conhecendo tem um enorme carinho por vos.
Um abraço muito apertado de Portugal. "

sábado, 22 de abril de 2017

Síria - Chegou a Hora

Síria 1.0,  Chegou a hora

A carga emotiva é tão grande que parece que as ditas vivencias da Síria nunca foram suficientemente processadas… Mas chegou a hora de enfrentar o touro pelos cornos, e começar a deitar cá para fora, como sempre sem saber muito o que dai virá…

Foram muitas noites sem dormir, cesarianas a meio das noites gélidas, várias situações de grandes influxos de vítimas dos bombardeamentos, noites passadas com o coração nas mãos a sentir a casa tremer com as bombas a cair…. Ainda assim terá sido nos momentos da entrada e da saída que tive os momentos de maior intensidade neste minha missão no norte da Síria, na província de Idlib, não muito longe de Allepo, bem nas linhas da frente de combate, em finais de 2013 já a guerra caminhava para o 3ºano, e num momento duma viragem catastrófica que nos enche de calafrios até ao dia de hoje…. O aparecimento do Estado Islâmico.

A viagem começa no processo de decisão, e até esse foi doloroso… O ano de 2013, foi o pior ano da minha vida… Por problemas pessoais cuja responsabilidade só posso imputar em mim, sofri horrores…bati muito tempo com a cabeça nas paredes em desespero e tive que ir buscar forças que não sabia que tinha… E como quase sempre, na face de grandes problemas a vontade instinctiva era de fugir… e eu tinha uma fuga muito fácil e que adoro que se chama: Médicos Sem Fronteiras… A tentação de ir, de fugir estava sempre ali tão perto, mas eu fiz-me homem, segurei-me e fiquei, e consolidei a passagem pelo cabo das tormentas, o melhor que soube. Nada disto passa, mas vai passando… E passado um ano, para ter a certeza que nenhuma decisão era tomada a quente, decido mudar de vida… Sair do hospital que me formou e viu crescer como pessoa e como médico durante 15 anos, e oferecer-me para pela 4a vez trabalhar com os MSF… mal podia esperar voltar a sentir o coração a bater na esperança de dar vida, e alimentar a minha…. Tinha chegado a hora, e que alívio que era, sair um pouco da prisão que tinha criado dentro de mim…

Lembro-me com memorias de transparência cristalizada, de ler, e reler, e reler, e reler, e reler outra vez, e quase como um robot automata reli para aí 100 vezes o email que me propunha a próxima missão na Síria – Idlib… Sinto o corpo todo a tremer… e não sei diferenciar ou dosear o enxurrilho de emoções que atravessam o corpo como choques eléctricos, enquanto releio o email já sem o ler… Medo de morrer, vontade de viver… Medo de magoar quem mais gosto, vontade de voltar a voar… Medo de me voltar a perder, vontade de fazer a diferença… Medo que seja cedo, vontade que seja agora… Penso no mal que tenho feito aos que mais gosto, mas tenho que ser honesto com o meu coração… Vejo a minha vida toda em minutos e depois em horas…. Mas a decisão estava tomada à partida… chegou a hora de voltar a ser feliz: eu vou!

Tento sempre estar atento ao que se passa no mundo e acompanhei bem de perto os momentos principais de toda a primavera Àrabe… A história de vida simbólica do vendedor ambulante tunisino que se imolou pelas injustiças de uma sociedade opressora, criou em todos que acreditam na democracia e liberdade, uma força que ficará na história como catalisadora de uma mudança... Ou pelo menos uma tentativa... Vários regimes ditatoriais do mundo árabe abanaram e caíram perante um povo que exigia uma vida mais digna e um mundo melhor... Túnisia, Líbia, Egipto, expulsaram os respectivos líderes e ditadores.... E na Síria um grupo de adolescentes em Março de 2011, escreveu um graffiti na parede da escola : “o próximo és tu, doutor!” (referindo-se a Bashar Al Assad que é médico) .... Estes jovens foram presos, torturados, electrocutados durante semanas.... O povo saiu à rua exigindo que os libertassem.... e a resposta foi à lei da bala por parte do exército Sírio.... estava instalada a revolução, a guerra civil.... das mais mortíferas e maquiavélicas que há memória...

A minha vontade ir vinha na mesma proporção dos apertos no coração, que as imagens e relatos de sofrimento deste povo me faziam sentir... Já tinha estado em 3 guerras, mas esta adivinhava-se como muito mais impactante na minha história de vida e despertava em mim, um medo que me congelava os pensamentos.... mas que teimei em resistir...

Marcou em mim, um antes e um depois.... a importância desta missão enche-me de orgulho... pois mais do que nunca o propósito dos MSF fazia sentido... Muito mais do que os feridos de guerra, que são muitos, é toda uma população que ficou despida de cuidados de saúde básicos e diferenciados, tornando a mortalidade exponencialmente superior à causada pelas bombas...

Às vezes perguntam-me: “Porque é que vais?” .... eu não digo nada, sorriu em silêncio e respondo para mim: “Como é possível não ir?”


-->
Chegou a hora de começar a escrever sobre a Síria....


domingo, 2 de abril de 2017

Até Sempre Afeganistão

Até sempre Afeganistão

Fechando a página sobre o Afeganistão. Às vezes tenho que me perguntar e puxar bem atrás as minhas memórias para que me recorde porque é que eu comecei a escrever... E talvez misturando e baralhando uma série de sensações eu diria que o ponto em comum em todo a minha escrita e que acho que me vou mantendo fiel e honesto é tentar fazer com que possamos ver que todas as vidas deveriam ter o mesmo valor... Mas passamos todas as nossas vidas numa deturpação emocional, que nos leva a crer que algumas vidas valem mais do que as outras... e eu gostava de lutar contra isso! No fundo, no fundo, escrevo para que se tenha mais honestidade e justiça na forma como olhamos para o mundo... Sabendo que crescemos por defeito, com medo do desconhecido, e encontramos conforto ao afastarmo-nos de realidades que desconhecemos, e por isso as desprezamos.... Conseguimos condenar os terríveis cobardes responsáveis pelo ataque às torres gémeas que mataram cerca de 3.000 pessoas, mas esquecemo-nos de condenar, moral e politicamente os que sem saber o que faziam nos levaram para  a guerra do Afeganistão, com já mais de 15 anos e cerca de 500.000 mortos... O maior esforço que tenho feito nos últimos anos, é conter a minha revolta, perante esta falta de honestidade e justiça.... E tudo isto porque do lado de lá, está um povo que não conhecemos, que diabolizamos, que nos convém descrever como um monstro, para que consigamos dormir descansados.... Mas não é verdade... do lado de lá está um povo com tantas ou mais boas pessoas do que do lado de cá.... E se neste caso a cor até nem é grande diferenciador.... as vestes, a língua, a cultura e claro, a religião que professam acoplada a uma enorme dose de sub-desenvolvimento, resulta num distanciamento emocional enormíssimo.... E por isso escrevo, por que tive a sorte e o privilégio de lá estar... e não conheço ninguém que lá tenha estado, com coração aberto e algum sentido de humanidade que não tenha chegado a conclusões semelhantes às que eu fui construindo na minha cabeça... Está na altura de antes de fazermos julgamentos ouvirmos a história dos dois lados... Porque todos sofremos a morte dos nossos entes queridos com a mesma intensidade....



E num belo dia uma “bomba” caiu na praça pública! Mas esta é daquelas que explode aos poucos mas com muita intensidade: Diz-que-disse, que em Bagram, na maior base militar dos americanos a norte de Kabul, foram vistos vários exemplares do Corão a ser queimados. Se me perguntarem a mim se queimar um livro é motivo para deixar alguém furioso, eu diria que não! Mas este livro é sagrado para muitos e penso que devemos respeitar isso. A explicação por parte dos americanos parecia fazer sentido.... que os livros queimados estavam a ser usados pelos prisioneiros para comunicar entre eles, no entanto a fúria do povo afegão fez-se sentir por todo o país, com manifestações em todas as grandes cidades contra a presença das forças aliadas no país.  Triste é que quando o povo está assim a fervilhar pela volatilidade e clima de hostilidade que pairava no ar, nós não podemos sair de casa por questões de segurança, e é uma dor de alma saber que com esta restrição de movimentos, várias vidas podem se perder por nós não estarmos no hospital... Foram vários os telefonemas que os enfermeiros que trabalhavam comigo me iam fazendo para gerir casos mais difíceis... mas não é a mesma coisa... perdemos algumas vidas, assim como morreu gente por todo o país nas ditas manifestações que muitas vezes descambavam em violência, pela imprudência de se terem queimado os Coroes...


E foi isto, e acima de tudo isto que aprendi ou reaprendi, com a minha vida no Afeganistão... Algo enojado pela dificuldade que as pessoas têm em empatizar com quem é diferente... A facilidade com que se deixam manipular por alguns líderes, conspurcados numa imoral e ignorância que leva grandes e pequenos exércitos a guerras que deixam rastos de dor na história dos nossos dias... Faço um esforço por não transparecer nenhuma análise politica... mas às vezes torna-se difícil para quem acredita que uma vida é uma vida, por vezes torna-se demasiado gritante... e quando “lá” estamos tudo isto se torna ainda mais evidente.... Porque nós somos a mesma pessoa, mas por vezes vemos o “teatro” atrás do palco... quando sentimos o pulso ao povo bem de perto, e ouvimos os ecos das suas emoções...


Quase todos os dias éramos sobrevoados por máquinas de guerra dos Aliados, e nesses dias depois do queima dos Corões, foi dia e noite... aprendemos até a distinguir, os diferentes tipos de aviões e helicópteros, pelo barulho que nos contemplam... Nunca pensei aprender estas coisas, pois odeio guerra e tudo o que tenha a ver com guerra... Mas como consigo reconhecer a espectacularidade de qualquer grande desastre natural... foi no regresso a Kabul no final da minha missão, que fiz um “pitstop” no aeroporto de Kandahar onde vi dos maiores espectáculos da minha vida... O aeroporto de Kandahar, era em conjunto civil e militar o que em boa verdade quer dizer nesta fase do campeonato que é 99% militar. O nosso pequeno avião, teve que aqui parar e fazer troca de mercadoria, e os cerca de 15 passageiros tiveram que sair do avião e ficar na borda da pista à espera de seguir viagem... Foi cerca de uma hora, em que eu estive embasbacado a ver aquele festival de aviação militar, jactos, caças, grandes, pequenos, helicópteros de todos os tamanhos e feitios, drones em bandos.... levantavam e aterravam de seguida sem parar, em grupos ou isolados.... absolutamente incrível... De olhos bem arregalados, pois as regras de segurança são rigorosíssimas proibindo qualquer captação de imagem, e assim tive que guardar tudo na minha memoria.... Mas na minha memória ficaram também os sentimentos que aquela maravilha da tecnologia militar me fez sentir... Enquanto os drones aterravam aos bandos alinhados em V, eu perguntava-lhes(me): Quantos mataram hoje? Correu vos bem o dia? Quantos Taliban mataram? E quantos inocentes? Quantos ficaram para a estatística dos “danos colaterais”? Dos “Ooooppsss enganamo-nos no alvo”? E mulheres e crianças quantas mataram? Será que mataram algum amigo meu que trabalhava no hospital? Será que mataram algum dos meus doentes que me custou tanto a salvar? Mas não tive respostas....
(Kabul)
Em Kabul ainda estive uns dias, a tratar da burocracia do visto de saída.... Deu ainda para me fazer de útil num pequeno hospital dos MSF, e para umas pitadas de “sightseeing” que confirmou o meu primeiro “feeling” inicial: Kabul é das cidades mais bonitas, magníficas e histórica e culturalmente interessantes que já vi... Imponente arquitectura milenar, com um dos Bazars mais antigos do mundo, conta bem aquele que foi o cruzamento de tantas culturas, e tudo isto rodeado por uma cadeia de montanhas a 360º, ladeando e circundando aquela que será das capitais mais imponentes que conheci até hoje...

Tinha saudades de todo o meu mundo, da minha família, amigos e da minha ex, que neste momento me esperava na Índia para umas merecidas férias.... e o meu voo era já no dia seguinte... mas alguém não me queria facilitar a vida....


(imagens reais do Massacre de Kandahar)
Na véspera da minha partida, somos abalados pela transtornante notícia: Um soldado americano em Kandahar (a 200 Km de onde eu estava), num acto inesperado enquanto caminhava pela cidade, sem qualquer contexto bélico entra em várias casas, arrastou pessoas pelos cabelos, disparou a arma à queima roupa, alguns dos disparos na boca das vítimas.... ateou fogo aos corpos e por ai fora.... Matou cerca de 20 civis e outros tantos gravemente feridos, na sua maioria mulheres e crianças, que se encontravam dentro das suas casas, e que foram atingidos por balas que ninguém esperava... Há quem diga que foi mais que um. Há quem diga que houve actos de violência sexual antes da matança... De qualquer das formas a versão que ficou escrita, foi que o Robert Bales de 38 anos chegou ao seu quartel general e disse: “I did it!”. Como podem imaginar, o povo afegão ficou revoltado e saiu à rua em várias cidades a manifestar a sua indignação. E pediam que fosse julgado no Afeganistão... mas como sempre cobardemente foi levado para os EUA, para ser julgado e assim ficou com prisão perpétua....
(imagens reais do Massacre de Kandahar)
Mas o que mais me entristece neste acto bárbaro, é a facilidade com que se relativiza pelos media, e por todo o mundo ocidental a vida de quem vive do “lado de lá”... Talvez porque não existam filmes de Hollywood a mostrar a vida destas pessoas... E como tal para nós são estatística!

(A casa dos MSF no dia do Adeus)
Sendo Kabul o foco de todas as tensões politicas anteviam-se demonstrações populares com um enorme potencial explosivo.... E quando assim é pelo elevado risco de incidentes de violência os MSF decretam que ninguém mexe! Ninguém sai de casa! Zero movimentos! E então e eu que tinha que ir para o aeroporto? Se eu só dependesse de mim, estava tranquilo... Mas tinha a minha namorada à espera na Índia, com voos marcados, etc e tal..... Seria dramático ficar preso em Kabul uns dias.... ainda para mais com a cidade “explosiva”, graças ao Robert Bales... Primeiro os MSF disseram-me que nem pensar... até me vieram as lágrimas aos olhos... rebentar com os meus planos e dela explicar à minha família que não podia sair do Afeganistão durante uns dias, porque o povo está na rua furioso com o mundo inteiro! Mas depois de reflectirem os MSF deixaram-me sair para o aeroporto às 5.00am bem antes da cidade acordar para não correr qualquer risco... Se sair da guerra e reencontrar a pessoa que eu adoro passados 3 meses, já eram motivos para uma libertação excessiva de adrenalina.... todo o contexto do momento, nem me deixaram dormir! Sai de casa de noite, regelado com -20 e tal graus, e com um nevão soberbo...  Como sempre colado à janela do carro, para levar comigo tudo o que conseguir reter.... Nas paredes dos edifícios os desenhos são artísticos, mas não são grafitis.... são rajadas de balas que contam muitas histórias... Impressionante também a quantidade de gente que passa a noite na rua com aquele frio, juntinhos e à volta de uma fogueira... E à medida que a luz do sol vai entrando, Kabul exibe-se esplendorosa como nunca... que cidade tão bonita bem na cordilheira do Hindu Kush!
(estádio de Kabul, onde outrora se faziam as execuções públicas)
Sem incidentes cheguei ao aeroporto, que não deixa dúvidas que estamos em guerra e já preparados para os dias de confrontos que se avizinhavam.... Homens armados, tanques de guerra, são a face do aeroporto de Kabul. Perdi a conta aos “checkpoints” de segurança, cães, detectores de metais, Rx.... tudo, várias vezes! Esperei uma hora a mais para entrar no avião por causa do nevão... e dentro do avião esperamos ainda mais... Dúvidas quanto à possibilidade do avião levantar... e cada vez nevava mais... Passou-me a vida toda pela cabeça. Se eu não levantasse ficava retido no aeroporto, talvez uns dias, sabe-se lá.... Parecia que a guerra que estava a sugar-me para dentro dela e de lá não me queria deixar sair..... ufffff.... que tensão! Amei aquele país e quero muito lá voltar, mas naquele momento só queria sair dali... E quando passado 2 ou 3 horas de espera dentro do avião este se começou a dirigir para a pista de descolagem, ouviram-se gritos de alegria de muitos como eu... Ao descolar, a despedida que faço para comigo desde país que despertou em mim tantas emoções, misturadas com uma vontade louca de ir ter com quem eu gosto, e com o alivio de ver a guerra pelas costas.... chorei como se tivesse perdido a minha família toda... é muito intenso! Fica muita coisa acumulada no peito, e aquele era o momento de o libertar...


(quando dei uma "ajudinha" num hospital em Kabul)

Já nas maravilhas da Índia assisti atento, às consequências do caso do Massacre de Kandahar... embora apenas como um comum espectador que lê as notícias, sentia que ainda tinha deixado para trás um pedaço de mim, que sofria em aperto as dores daquele povo de quem tanto gosto... e morreu muita gente que se manifestava contra a presença dos Aliados no seu país...

E 5 anos passados ainda lá tenho esse pedaço de mim, com a promessa que um dia vou lá voltar.... deixar outro pedaço...



E agora é tempo de respirar bem fundo e começar a escrever sobre a Síria...


Ocorreu um erro neste dispositivo