segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Desistir ou Lutar com Mais Força - De mãe para mãe: Parte 2)

Desistir ou Lutar com Mais Força - De mãe para mãe: Parte 2)

(continuando)

Felizmente, toda a raiva, energia hiper-negativa, e o fumo que me saia por todos os poros do corpo, foram postos de parte, mal senti o tom de voz de urgência do enfermeiro que me veio chamar...

Houve um tom de voz que o chamou por rádio, que o levou a chamar-me com um tom de voz que transbordava preocupação... fosse o que fosse levou ao pânico de várias pessoas...

A Anja era uma médica alemã, especialista em Medicina Interna, que era a responsável pelo serviço de Urgência, excelente profissional, conhecedora, trabalhadora e competente, bem ao estilo alemão... E se me estava a chamar com aquele grau de urgência, o meu coração tinha motivos para estar a bater mais rápido.... Ainda era bem cedo, e estava um dia frio de morrer, com um sol radiante.... senti os pulmões a arder de frio, enquanto corria para o outro edifício onde se encontrava o Serviço de Urgência...

Entro de rompante na sala de reanimação do serviço de Urgência, e vejo pânico! Pânico na cara dos enfermeiros, pânico na cara da Anja, e uma criança deitada na maca, com a mãe coberta numa burqa azul aos gritos de desespero, aninhada de cócaras no canto da sala, com muitas, mas muitas referencias a Allah...

Era um menino de 2 ou 3 anos, e estava a morrer, estava azul e já mal respirava... não tenho dúvidas que a morte estava iminente... fosse o que fosse.

“Anja, o que se passa?” pergunto.
“Acho que tem um feijão a obstruir a traqueia!” responde-me nervosa.

A Anja estava com um laringoscopio (aparelho para ver a laringe e a traqueia) e com uma pinça de Magil (pinça com formato angulado para aceder à laringe e à traqueia)... e sem sucesso tentava retirar/puxar o feijão que obstruía por completo a traqueia e assim a passagem de ar para os pulmões...

Acho que tenho a sorte de ser muito calmo sob pressão, e transpareço uma calma de ferro, em situações de emergência médicas... Assumo o comando da situação... Incomoda-me, claro, a mãe de baixo de uma burqa, aos berros, e gritos por Allah, que com alguma dificuldade embalam o meu raciocínio... Nunca tinha vivido uma obstrução da via aérea numa criança... Agarro no Ambu (balão insuflável) e na máscara facial, e adapto-a com toda força à boca e nariz do rapazito.... forçando a ventilação... enquanto peço o material que preciso.... e numa voz firme peço 3 coisas: Ketamina (anestésico geral) Succinilcolina (relaxante muscular) e um tudo endotraqueal de tamanho adequado... O pânico e os gritos, levam a que os enfermeiros não percebam nada que eu pedi... e aqui talvez, a enorme sorte do enfermeiro do bloco estar comigo, que foi em segundos buscar o medicamento que só havia no bloco operatório, a succinilcolina... O menino, já não está azul, está preto... está a morrer nas minhas mãos... e eu ainda tento uma vez introduzir o tubo endotraqueal, só com a Ketamina, mas a rigidez muscular do rapazinho, não me permite fazê-lo... A frequência cardíaca passou de um valor assustadoramente rápido, para frequências cada vez mais lentas... é um sinal claro que a criança está a morrer... são segundos... talvez 2 ou 3 minutos que parecem horas... e eu já não posso ouvir a mãe aos gritos por Allah...

Chega a Succinilcolina, digo aos enfermeiros como a diluir e rapidamente a administram na dose indicada... A minha estratégia é simples.... nunca fiz, mas sei que é o que se deve fazer.... não tentar tirar o feijão, mas empurrá-lo para dentro.... A traqueia divide-se em dois brônquios principais, e se eu conseguir empurrar o feijão para um dos brônquios, ai já consigo oxigenar um dos pulmões o que chega perfeitamente para lhe salvar a vida...

Ninguém percebe o que se está a passar na minha cabeça, mas confiam e seguem as minhas ordens... Mal o rapaz ficou com os músculos completamente relaxados consigo introduzir o tudo endotraqueal e empurrar o dito feijão para um dos brônquios, e começo a ventilar eficazmente a criança... É daqueles momentos na medicina que parece um milagre... em poucos segundos o menino fica rosadinho, na sua coloração normal, e a frequência cardíaca aos poucos sobe para valores aceitáveis...

A Anja, que está com o véu islâmico que as regras culturais obrigam, a cobrir-lhe o cabelo, com os olhos ensopados em lágrimas, põe-me a mão no ombro e diz-me: “You saved the baby!”....e os enfermeiros logo após a limparem o pânico das suas caras....”Dr. Gustavo....you saved the baby!”.... e eu sorrio...sinto o corpo todo a tremer, passa por mim uma corrente eléctrica que quase que domina os meus movimentos.... mas tento refriar.... solto um sorriso, mas ainda não deixo saírem as emoções.... meto-as para dentro, pois ainda tenho que pensar como médico... o meu trabalho ainda não acabou....

Assisto a respiração da criança com o Ambu, enquanto o efeito da Ketamina e da Succinilcolina, não passam por completo.... e quando a criança começa a recuperar a sua autonomia ventilatória, começo a respirar fundo de alivio, até que mais uns minutos e retiro o tudo endotraqueal da traqueia do rapazinho.... e depois de uma ou duas tossidelas, ouço-o a chorar vigorosamente.... e ai senti que me tinha saído o Euromilhões!!.... uma felicidade e uma alegria, que só me apetecia que o mundo congelasse mesmo ali.... sorrimos em conjunto, e não contenho as lágrimas de alegria de nervosismo (tardias), e mais sei lá o quê.... Claro que peço aos enfermeiros para explicarem em Pashtun à mãe que a criança está viva.... está a chorar e está bem... Mas esta mãe, não sei se paralisada ainda pelo pânico, parecia, não entender que a criança estava fora de perigo.... continuava aos gritos por Allah... só passados uns minutos de insistência por parte dos enfermeiros é que ela se levanta da sua posição de cócaras e ainda a medo levanta a sua burqa azul, para ver que o seu querido filhinho está mesmo bem... Não consigo sequer imaginar a dor e sofrimento que esta rapariga, que perdida no meio da guerra, traz o seu filho a correr ao hospital, depois de se ter engasgado num feijão... e depois vê-se com 2 médicos estrangeiros, a falar uma língua esquisita, num aparato de pânico generalizado.... e que agora a morte que parecia certa, já era passado! Ver a cara desta mãe a pegar no seu filho ao colo, foi ganhar o 2º Euromilhões!

Foram momentos mágicos... a criança ainda esteve 3-4 dias no hospital, para vigilância, mas felizmente tudo correu super bem, e recuperou como se nada tivesse acontecido...

Um dia feliz, na vida de um médico... Penso que a minha missão principal, consiste na formação dos locais, nas sementes de esperança que os MSF, deixam nos povos mais esquecidos e injustiçados do planeta e com isto representando todas as vozes e opiniões de paz... Mas nestas vidas salvas, egoistamente recolho “medalhas” de honra que me enchem de orgulho e me fazem muito querer continuar...

Que importância tem uma vida salva, quando já morreram meio milhão? Estatisticamente nada! Mas para aquela mãe, TUDO! E para mim, ajudou-me a encontrar uma parte da minha personalidade que muito aprecio e tento alimentar... a resposta às adversidades... Num momento, estava decidido que ia desistir... poucos minutos depois, só pensava em lutar com mais força!

Desistir ou Lutar com mais força??? Há um mundo à nossa volta!

Foi esta a história que escrevi por email, há 4 anos a trás e ofereci/dediquei como presente de anos à minha querida mãe, por saber as maldades que lhe faço ao deixar-me levar por estes sonhos... É muito duro, e injusto, o que eu lhe faço... Deixar-me ir para dentro deste bicho-papão que se chama Afeganistão, que (erradamente) representa apenas bombas, morte e sofrimento... Mas não consigo deixar de querer ir.... porque aqui encontro o melhor de mim... a pessoa de quem mais gosto... E por isso dediquei e dedico tudo o que já fiz de bem, simbolizado na vida deste menino.... como atenuantes às maldades que um filho faz a uma mãe...

De mãe, para mãe! Esta mãe afegã não sabe, que para o seu filho estar vivo, a minha mãe teve que ficar com o coração destroçado, com medo de ligar a televisão no notíciario, e nervosa quando o telefone toca...

Mas eu acho Mãe, que esta mãe afegã lhe gostava de dizer, exactamente a mesma coisa que lhe quero dizer a si: OBRIGADO!

Gosto de pensar como se houvesse uma taxa de felicidade mundial... deixo algumas pessoas tristes, mas por um bem maior...

Tenho muito a perder, mas que de nada me vale se perder a Humanidade!

Porque as homenagens são para ser feitas, todos os dias que temos oportunidade:

PARABÉNS à mãe mais bonita do MUNDO.... e eu por si, vou tentar Lutar com Mais Força!


1 comentário:

  1. Caro Gustavo,
    Muito obrigado pelo testemunho que dás, no desempenho da tua missão humanitária, enquanto médico. É importante saber que, tal como tu, existem, de facto, homens e mulheres que estão dispostos a dedicar a vida em favor do bem comum, indo em direcção às periferias existentes no Mundo.
    Um abraço,
    fr. José Alberto

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