quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Quando há Sol, não é para todos!

Quando há Sol, não é para todos.


Estava com medo. Não sou diferente dos demais, uma guerra assusta. E os contornos que esta guerra civil atingiu, com uma enorme exposição mediática, faziam-me crer que seria diferente das outras... Esta foi a minha 4a guerra, enquanto médico a trabalhar para os Médicos Sem Fronteiras, depois de Congo, Paquistão e Afeganistão. A experiência ajuda a lidar com as emoções, pois esta missão não seria claramente para principiantes. No entanto, é doloroso entrar no avião, deixar a sofrer as pessoas de quem mais gosto, e ao olhar para baixo pela janela do avião, despeço-me da minha querida cidade do Porto, com uma lágrima no canto do olho, não sabendo se não será a última vez que vejo este meu grande amor, e tudo o que ele representa para mim... Tenho medo, mas nem hesitei, quando me foi proposto ir para a Síria. As minhas motivações superam largamente os meus medos...talvez ao ler este texto compreenderão porquê.

Por vezes perguntam-me: “ Como é possível arriscares a tua vida?” Normalmente sorrio, enquanto respondo para dentro em silêncio: “Como é possível não o fazer?”

Fui sozinho, directo para a Turquia, com o meu cachecol do FCPorto, que tem super poderes, porque representa os que levo comigo, enche-me o coração, e faz-me sentir mais forte. Aterrei na cidade de Hatay, já bem perto da fronteira com a Síria, onde se reunia esta equipa, que iria reabrir o hospital no norte da Síria, que fui evacuado pela crescente ameaça do Estado Islâmico. Não há tempo a perder, fui directo para uma reunião, onde nos explicavam o plano, de como iríamos entrar na Síria, esmiuçando todos os cuidados a ter, assim como, todas as regras de segurança... O coração aperta, e sinto um nó na garganta, quanto vemos no mapa os cerca de 250 Kms, que teremos que fazer de estradas na Síria, com diversas zonas, onde os bombardeamentos são frequentes....e começo aqui a sentir a guerra.

Nessa noite, achei ouvir bombardeamentos, pois já estava muito perto da Síria, mas provavelmente era o meu imaginário.

No dia seguinte viajamos até à cidade Killis, pois embora longe seria o único ponto de fronteira em que a Turquia nos permitia entrar. Killis, fica já colado à fronteira com a Síria, e nas imediações o nosso campo de visão, é invadido por campos de refugiados sírios, e vemos nas suas caras a dor de um povo, órfão de um pais, com uma alma sofrida e massacrada. Nessa noite, a última antes de passar a fronteira, vamos beber a última cerveja, porque na Síria estamos proibidos, e nesse que era o único bar de Killis, um grupo de homens Sírios, bebem e dançam uns com os outros como se não houvesse amanhã....leio no seu desprendimento uma mistura explosiva de alegria por terem fugido à guerra, com a tristeza profunda de quem abandonou a sua amada pátria...muito intenso. Fez-me pensar...

Bem de manhãzinha, atravessamos a fronteira....a pé! Pois não são permitidos veículos. A policia turca carimba o nosso passaporte, e depois fazemos uns Kms a pé bem carregados, em sentido contrario ao dos refugiados... e do lado de lá, na Síria, não há ninguém para nos carimbar o passaporte, mas sim, uma série de homens armados, de aspecto duvidoso, mas são do Free Syrian Army (moderados), a oposição ao regime que luta pela democracia, contra o ditador Bashar Al Assad. Aqui temos 2 carrinhas à espera, e partimos em direcção ao nosso destino, perto de Idlib, bem próximo das linhas da frente do conflicto... As nossas 2 carrinhas, têm o logo dos MSF, assim como escrito em árabe “Médicos Sem Fronteiras”, e é apenas isto que nos protege... Atravessamos uma boa parte do norte da Síria, e eu vinha colado à janela a absorver esta paisagem, absolutamente lunática, com vilas e aldeias abandonadas, onde as marcas de guerra, com casas bombardeadas, não deixam dúvidas dos porquês de quem largou tudo... Em alguns momentos passamos por 4x4s de caixa aberta com metralhadoras enormes, que nos dão um friozinho na barriga, bastante desconfortável, mas vamos nos habituando....torna-se normal a presença da máquina de guerra....

Talvez o momento que guardo com mais carinho até hoje, terá sido a nossa chegada à vila que seria a minha casa e onde se encontrava o pequeno hospital... Os locais sabiam da nossa chegada, e celebraram este momento...de uma forma que até dói na alma tentar descrever...não consigo segurar as lágrimas ao transmitir-vos isto... Gritos de alegria, olhos húmidos de emoção, palavras e abraços quentes a pessoas (nós) que não conheciam....o excitamento daquele povo transbordava em cada respiro: Os Médicos Sem Fronteiras voltaram! Isto significa que a ausência total de cuidados de saúde num raio de dezenas ou centenas de Kms, acabou...mas muito mais do que isso...sentem que nem todos os abandonaram...a nossa presença personifica a esperança, de quem já não sabe a que se agarrar...e só ai sem ter salvo (ainda) nenhuma vida, já clarifiquei na minha cabeça, que valeu a pena, ter deixado os meus queridos a sofrer em Portugal. Percebem agora?

Os MSF, tinham evacuado este hospital, pela transformação do contexto cultural, devido à pressão da radicalização de grupos extremistas, que cada dia mais condicionavam todos em seu redor... As pessoas viviam com medo duplo: do sanguinário ditador, que não hesita em matar quantos pode, e este oportunismo de grupos radicais islâmicos, que moldavam e aterrorizavam, todo um povo bastante moderado e humanamente fantástico...

Numa gelada manhã de inverno, na minha inocência apreciava um bonito nascer do sol, num céu azul até perder de vista, e comentei com os locais que trabalhavam comigo: “Que lindo dia de sol!” ...mas a resposta foi pronta e muito clara....”Está um dia horrível....o céu está limpo...eles vão voar!” Engoli em seco, e congelei em silêncio, e não tardou muito a avistar um MIG, da força aérea Síria, a sobrevoar a zona, a escolher os alvos a bombardear.... É no mínimo estranho sentirmo-nos um alvo, só porque sim.... E ai, dei por mim a desconstruir, uma verdade universal, da minha visão mágica e holística da vida e da sua verdadeira essência: “Quando há Sol é para todos!” .... Não! Para alguns, um dia lindo, significa temer pela vida, e olhar os céus, à mercê de maldades atrozes, e impotentes perante a força da ganância pelo poder....

“Quando há Sol, NÃO é para todos!”

Várias vezes nos refugiávamos num bunker do hospital quando éramos sobrevoados, por aviões ou pior ainda pelos helicópteros... Assim como passei noites no bunker da casa, quando os rockets aleatórios, faziam tremer o chão estrondosamente....mas senti-me bem, pela magnitude do significado que dava à presença dos MSF, num cenário tão complicado.

Sou médico, fico feliz quando sinto que fiz a diferença, quando salvo vidas....e salvamos muitas, crianças, mulheres, velhos e novos, inclusive homens de grupos extremistas, que se calhar noutra circunstância nos poderiam querer fazer mal, mas nós não julgamos....nós salvamos vidas! E guardo com um prazer indescritível, momentos de horas e horas de trabalho, para cumprir a missão a que me propus, e que define todos aqueles que acreditam nos mesmos ideais que eu! E será essa a minha grande conquista pessoal...as vidas que eu salvei, e que no imediato me fazem sentir especial, e me motivam para continuar....mas esta é apenas uma das razões que faz tanto querer ir.... A outra é bem maior! A outra é por ti que me estás a ler... É por todos que sei que os MSF representam, por este mundo fora... É pelos milhares que não se conseguem fazer ouvir, que não querem mais guerras...que preferem mandar ajuda ou invés do ridiculamente estúpido contra-senso de mandar mais bombas.

Eu, Tu, Nós, os Médicos Sem Fronteiras, e muitos mais, levam à letra a premissa que sustenta a humanidade: Todos os Seres Humanos são Iguais!

E o meu convívio de grande proximidade com o povo Sírio, em que nas suas histórias de vida, me imaginava, vezes sem conta, no exercício, que embora doloroso é onde eu encontro a minha alma mais bonita e acima de tudo mais honesta! E se fosse a minha família? E se fosse a minha casa? E se fosse o meu pais? Que pensaria eu de uma inteira humanidade que (n)os abandonou?

“Quando há Sol, não é para todos!”

Lá passei o meu Natal. Tive saudades, mas não me custou muito. Custou-me sim, o dia, em que me fui embora, e um dos nossos tradutores, agora amigo Faut, me foi levar à fronteira por questões de segurança. Odeio despedidas... são demasiadas emoções. Mas esta foi claramente a pior! Eu vinha embora, a caminho da minha segurança e conforto, e assim virava costas a pessoas que sei porque o provaram, que davam a vida por mim, e foi neste turbilhão de emoções, que o Faut de sorriso na cara à medida que me afasto de mochila às costas me diz: “ Dont forget about us, Gustavo!”, e de rajada respondi: “Never, my dear friend, Never!” bati no coração com muita força e sorri... rapidamente virando as costas, para que ele não visse, que me ia desfazer em lágrimas...

E com isto, podia contar-vos mais mil e uma histórias, para que exercitassem, algo que tem tanto de difícil como de importante... a capacidade de empatizarmos com vidas que nos parecem longínquas, e depois apenas e só agir, como gostaríamos que agissem connosco.

Honestidade e Justiça....porque,

“Quando há Sol, Não é para todos!”



domingo, 27 de novembro de 2016

A Ignorância

(Afeganistão – Helmand – Lashar Gah -- 2012)

Nesta história que me marcou de sobre maneira, simbolizo também o reforçar de uma das primeiras conclusões humanitárias se assim lhe posso chamar... A intensidade de viver não só o problema, mas viver no problema, para alem do meu trabalho clínico e de formação, leva-me obviamente a uma reflexão diária dos “porquês”, destas catástrofes humanitárias que tenho vivido de bem perto...

Se nos países ditos desenvolvidos, a esperança média de vida anda à volta dos 80 anos, numa série de países em África principalmente mas também outros ou outras zonas, dos quais o Afeganistão é também a cara desse paradigma, em que este numero anda perto dos 40 anos... Dá que pensar...é uma vida pela metade das nossas! E como podemos de uma forma muito simples dissecar este número trágico? Se a guerra que aqui dura desde início dos anos 70s, de uma forma quase ininterrupta, tem morto muita gente... é em mortes ainda mais estúpidas e evitáveis, que teremos que concentrar o nosso foco... A falta de cuidados de saúde é que explica na quase totalidade esta discrepância catastrófica nesta e noutras zonas do planeta.. que entenda-se é sem dúvida de uma forma indirecta imputável ao perpetuar da guerra... E não é por não se fazer cirurgias muito diferenciadas, ou por falta daquele último medicamento ultra caro, que este número cai para metade... É pelas crianças que morrem por tudo e por nada, pelas infinitas mortes durante o parto... basicamente pela ausência, ou falta de qualidade total dos cuidados de saúde mais básicos.... e por isso o orgulho de trabalhar para os Médicos Sem Fronteiras, não cabe sequer dentro de mim...

Salvamos vidas, que mais ninguém salvaria, de uma forma totalmente gratuita, indiscriminada, e imparcial... A canalização das nossas forças é apenas e só proporcional às necessidades...e isso é lindo! Deixamos um legado de boas intenções, de paz e sementes de esperança do ocidente.... assim, como boas doses de conhecimento a profissionais de saúde, e não só. E talvez nesta perspectiva formativa, não imediata, que revejo as minhas maiores motivações principalmente a longo prazo... porque as milhares e milhares de vidas que nós salvamos, não chegam, temos que deixar um legado de continuidade...

Porque a dita conclusão “brilhante”, a que cheguei no fim da minha 1a missão e que reforcei em todas as outras, é que a Ignorância é a “doença”, que mais mata nos países subdesenvolvidos... O que me leva a concluir também que embora eu ache que ser médico é a profissão mais bonita do mundo... não seja talvez a mais importante... daí que bem mais difícil, mas mais relevante seria ter uma rede fortíssima de Professores Sem Fronteiras... difícil, eu sei... mas deixem me sonhar! Embora, os Médicos Sem Fronteiras, façam também um trabalho incrível, fora dos hospitais com “Promotores de Saúde”, que andam de porta em porta de comunidade em comunidade, a explicar coisas básicas e essenciais, sobre cuidados de saúde primários, e a importância de recorrer aos nossos hospitais antes que seja tarde, isto muitas vezes em povos cuja a ignorância é de tal ordem, que negam ou desconhecem a medicina como nós a vemos...

E já vi um sem número de vezes, doentes ou as suas famílias a recusarem tratamentos “life-saving”, por ignorância, descrença, desconfiança... E quando eu estive no Noroeste do Paquistão, havia para mim um “bicho-papão”, chamado Peshawar! Cidade linda e maravilhosa (onde eu adorava ir e nunca fui), capital de província do Noroeste do Paquistão, de uma importância estratégica brutal, pela ligação “directa” a Kabul, e uma das cidades mais intensas e “bombástica”, da resistência Taliban e da Alqaeda... E eu estava a cerca de 5 horas a norte de Peshawar, num hospital pequeno mas de enorme qualidade dos Médicos Sem Fronteiras... E este “bicho-papão” chamado Pesahwar, engoliu-me logo no primeiro dia em que cheguei, numa história que já escrevi e chamei, “Benvindo ao Paquistão!”...

E aqui no sul do Afeganistão, o “bicho-papão”, chamava-se Paquistão! Na cabeça daquela população que vivia em cenário de guerra desde “sempre”, onde os cuidados de saúde eram paupérrimos, o Paquistão parecia ser o El Dorado, a cura para todos os males, mais concretamente a cidade de Quetta, capital de província, e que ficava a cerca de 6 horas de viagem, por esta terra de Pashtuns, cuja fronteira politica pouca interessava... Nos casos clínicos mais complicados, para a população era a tentativa de procurar “algo mais”, e talvez para os médicos locais fosse um alivio, que estes doentes fossem pelos seus meios, para fora da sua vista... para mim era uma dor de alma, saber que este Paquistão pouco mais poderia oferecer aos doentes, e em muitas situações certamente com muito menos qualidade que o standart fantástico dos MSF... E tudo isto por ignorância e pela dificuldade de quebrar este mito que me assombrava... este pais que eu adoro, agora ao ser mencionado “Paquistão”, fazia com que eu ficasse irritado, enervado e revoltado...por alguns casos que me passaram nas mãos...
Os nossos Cuidados Intensivos

Lembro-me bem numa manhã como as outras, chegou ao hospital um rapaz novo, previamente saudável forte e robusto, nos seus 20 anos, chegou à urgência e depois ao que se chamava de Cuidados Intensivos (que de intensivo tinha muito pouco!) em coma... Ou seja, inconsciente, rijo como uma barra de ferro, numa respiração de stress e a espumar-se pela boca... Família em pânico, e não era para menos, e os médicos afegãos, num rodopio de pensamentos médicos que pareciam fazer pouco sentido... Tentei saber o que se passou, que era sempre o mais difícil para mim, não ficar “lost in translation” de Inglês-Pashtun... E então o rapaz estava a trabalhar, a rachar lenha e subitamente sentiu uma dor de cabeça muito forte e depois caiu para o lado, ficando neste estado de coma... Isto obviamente acendeu várias luzes na minha cabeça... e o facto de ter já uma boa experiência em doentes neuro-críticos em cuidados intensivos.... fez me pensar que provavelmente teve uma hemorragia cerebral espontânea, mais concretamente uma rotura de aneurisma cerebral, ou malformação arterio-venosa... E claro, com toda a humildade o digo, que a partir deste momento nenhum dos locais está capaz de seguir o meu raciocínio...e olham para mim, com um mistura de descrença e admiração... Na ausência de TAC cerebral, só me restava uma alternativa para lhe fazer o diagnóstico, fazer uma punção lombar na procura de sangue no liquido cefalo-raquidiano... E assim foi, com alguma dificuldade em posiciona-lo lateralmente, pico-lhe as costas, e supresa não tive, quando com o liquido cefalo-raquidiano sai também sangue numa quantidade impressionante... até repeti o procedimento na dúvida se não lhe tinha picado uma veia.... mas não, era mesmo liquido cefalo-raquidiano cheio de sangue... E na minha mente está feito o diagnóstico e resignadamente também o prognóstico... Não há nada a fazer... pela história clínica, pela profundidade do coma, pela quantidade de sangue que tem no cérebro.... este rapaz vai morrer... e mesmo no 1º mundo com acesso a Cuidados Intensivos, Neurocirurgia, Neuroradiologia de intervenção, provavelmente morreria ou ficava um vegetal... É triste, é frio, é terrivelmente doloroso para a família deste rapaz, mas enfrentei-os e com a tradução de um médico afegão, expliquei-lhes o sucedido detalhadamente e oferecendo a possibilidade de fazer cuidados paliativos a este rapaz oferecendo-lhe uma morte digna e em paz... dando-lhes a hipótese, de me interrogarem para qualquer esclarecimento, a única pergunta que me fizeram foi “Podemos levá-lo para o Paquistão?” É difícil de travar o ímpeto de quem quer fazer tudo pelos seus.... mas esta família pobre, iria ter que vender tudo, endividar-se, passar por zonas de conflicto aberto, atravessar a perigosa cidade de Kandahar, pagar a fronteira, e ainda pagar rios de dinheiro por sabe-se lá o quê no hospital em Quetta, no Paquistão... transportando num carro banal, este rapaz em coma, com uma hemorragia cerebral, estando eu absolutamente seguro que seria em vão... Não consegui dissuadi-los... dei o meu melhor por este rapaz, que neste caso tristemente era apenas deixá-lo morrer em paz... Nem quis olhar ou imaginar o transporte e o trajecto, todo este cenário mórbido de um triste fim de vida... A Ignorância ganhou mais uma vez... e eu acumulei, mais uma pesada derrota...

Mas dos casos clínicos que mais me marcou, mais intrigou.... foi o de uma rapariga nova, com 20 e poucos anos, que num certo dia nos apareceu no hospital... O que ela tinha até hoje não sei ao certo.... e a sua história clínica já arrastada há meses/anos não tornava a leitura nada fácil... Esta doente tinha uma espécie de infecção crónica que envolvia a pele e os tecidos moles de todo o abdómen/pelve, raiz das coxas e zona perineal.... O aspecto era assustador, com um misto de carne viva e crostas... e as consequências ainda mais dramáticas... Estava totalmente acamada há muito tempo, completamente desnutrida, sem massa muscular nenhuma, com escaras de pressão e anérgica... Sem expressão, sem sentimentos.... até aparentemente demasiado fraca para ter sofrimento... ou seja, se o tinha, não o expressava... Dramático! Admirei muito o Dr. Nasrullah director da cirurgia que teve a coragem de a tentar tratar... e assumi com um misto de perplexidade e entusiasmo o desafio de a tentar manter viva, durante as cirurgias que aí viriam, e o internamento prolongado, que foi um dos maiores desafios médicos que já tive... O plano era complexo, e as perspectivas muito realistas... Lavagens cirúrgicas, antibióticos, transfusões sanguíneas pela anemia, e uma nutrição adequada, e com objectivos de fisioterapia.... A família, estava super preocupada, e já tinha tentado vários tipos de tratamentos... sabe-se lá onde ou em que condições e com que medicamentos....num pais, onde existia uma enorme força de uma pseudo-medicina e mercado negro de medicamentos de qualidade muito duvidosa ou mesmos falsos...por todo lado. E assim foi, levá-la ao bloco sem saber se ela aguentava a intensidade da anestesia/cirurgia.... fazendo lavagens do que parecia infectado... hidratá-la, alimentá-la... quase dia sim dia não, uma transfusão sanguínea, antibióticos sem fazer ideia que tipo de microorganismo poderia ser responsável por esta infecção, ou que antibióticos já teria feito antes... Foi uma duríssima batalha, mas parecia muito lentamente estarmos a dar alguns passos positivos, nomeadamente na reabilitação e no seu estado geral... Agarrei-me aos livros à noite, a tentar estudar várias coisas e nem sei bem o quê... tudo o que me pudesse orientar a contribuir para a evolução deste caso dramático....numa rapariga tão nova... Passava por ela, 2 ou 3 vezes ao dia, para me certificar da sua evolução e na tentativa de orientar os enfermeiros motivando-os para a sua reabilitação/recuperação... Perdi a conta às vezes que ela foi ao bloco operatório nas 2-3 semanas que esteve connosco... E estava a melhorar...mas claro ainda num espectro de gravidade e complexidade muito elevados.... Sabendo que depois de lhe tratar a infecção, iria precisar de meses ou anos para recuperar da caquexia e da sua limitação funcional.... Até que numa manhã, em que chego ao hospital me deparo com a cama dela vazia! “Onde está a doente?” ....e um enfermeiro responde-me prontamente: “Foi para o Paquistão!”

Foddaaassssssseeeeeeee!! Que merda! Dediquei juntamente com o Cirurgião, horas e horas, fomos exaustivos nos cuidados e até nas explicações à família e levam a doente sem sequer nos dizer nada?!?! O Dr. Nasrullah, apesar de todo o seu esforço... mostra-se mais resignado por certamente já ter vivido tantas e tantas vezes isto.... Mas eu revolto-me! Na ingenuidade utópica de quem não quer aceitar que mais uma vez a Ignorância me tenha derrotado outra vez... Estávamos no caminho certo... longo e penoso, mas o certo... mas a família não compreendeu... queria uma cirurgia ou um medicamento mágico que lhe salvasse a vida... e assim renunciou os nossos cuidados de qualidade e grátis... para transportá-la em condições inimagináveis e perigosas, gastando todo o seu dinheiro... para um hospital onde lhes iriam cobrar a peso de ouro, sem nada mais que nós para lhe oferecer...

E a rapariga até estava a melhorar... mas mais uma vez perdi para a Ignorância...


Para alem de profissionais de saúde, a solução para estas catástrofes humanitárias, passa pela formação... pela educação, pela luta contra esta terrível doença que mata mais que todas as outras... a Ignorância!

sábado, 5 de novembro de 2016

Tenho Tantas Saudades Tuas, Porto

(escrito na República Centro-Africana, em Abril 2016)

Tenho tantas saudades tuas, Porto

Estou longe, e por isso só te vejo quando fecho os olhos, e me transporto, para ti. Fui eu que pus longe, foi por minha culpa que nos afastamos, mas nem por isso deixo de morrer de saudades tuas... Saudades que asfixiam, saudades que quase me matam... Não fosse o meu orgulho e correria para ti, sem demora, e saltava todas as barreiras para te abraçar, agora mesmo e bem forte...

Tenho tantas saudades tuas, Porto

Se ao menos houvesse um dia, em que não acordasse a pensar em ti.... Se ao menos houvesse um dia em que não me deitasse em cima dos teus pensamentos... Se ao menos houvesse apenas, e apenas só um dia em que eu não te amasse...

Tenho tantas saudades tuas, Porto

Deixei-te para que te orgulhasses de mim, deixei para ficar mais forte, por ti e para ti... Deixei-te, porque faço parte de ti, e tudo faço para que essa pequenina parte se torne mais bonita e mais nobre... Deixei-te porque sei, que mesmo sem estar o teu lado, cada dia que passa te amo mais... Deixei-te, mas sou e serei sempre teu...

Tenho tantas saudades tuas, Porto

O que dava para te ver mais uma vez... O que dava para que me olhasses, só mais uma vez... O que eu dava, para te sentir agora só por uns minutos... O que eu dava para caminhar ao teu lado... O que eu dava para que soubesses que te amo... O que eu dava para que me amasses... O que eu dava para que perdoasses pelo mal que te fiz... Dava tudo! Dava a minha própria vida! Dava tudo o que tenho, menos a memorias que tenho de ti, porque é o meu único pertence...

Tenho tantas saudades tuas, Porto

Quero tanto ver-te de todos os ângulos, quero tanto passar-te a mão, sentir-te nos dias bons e nos dias maus... Quero tanto saber como estás? No que tens pensado? De onde vens e para onde vais, Porto?... Será que ainda conheço o teu cheiro? Será que ainda tens o mesmo sorriso?.... Ai se soubesses a falta que me faz o teu humor?! Se soubesses, o quanto me ensinaste... Mesmo sem te ter, mesmo sem te ver o quanto me ensinas... Nunca desistas de mim...

Tenho tantas saudades tuas, Porto

Perdoa-me pelo que fiz. Perdoa-me pelo que não fiz. Perdoas? Será que chega se te disser que tudo o que fiz, foi por ti? Será que chega, se tudo o que fizer for para ti? Perdoas-me se souberes, que tudo faço para que seja melhor pessoa, é por ti e para ti... Mais não quero, que o teu orgulho! Que te honres, que eu seja teu!

Tenho tantas saudades tuas, Porto
Sofro por não te ter, sofro por não te ver, mas gosto deste sofrer, gosto de tanto gostar de ti... És o melhor que tenho, mesmo quando não te tenho... Orgulho-me de te amar, orgulho-me de tanto gostar... Gosto mais de ti, do que da minha própria vida! Tu és a minha, vida, mesmo sem te viver...

Tenho tantas saudades tuas, Porto

A tua beleza...ai se eu tivesse a arte de descrever a tua beleza. Mas talvez seja essa a arte, de só quem te conhece como eu conheço, sabe aprofundar a tua beleza... É uma descoberta... o maior tesouro que conheço... Uma história, uma personalidade, um carácter, incomparáveis e inquebráveis... Sabes bem, que tudo o que o quero é ser como tu.

Tenho tantas saudades tuas, Porto

Eu volto, se ainda me quiseres... Eu volto se me deixares amar-te... Eu volto, se me olhares nos olhos, eu volto se me deixares entregar toda a minha vida para te fazer feliz... Eu volto só para estar ao teu lado... Eu volto, só para te dizer mais uma vez, que és tudo o que tenho... Eu volto porque quero te dizer, que TE AMO.


Se eu te voltar a ver, abraça-me com muita força e não digas nada...

sábado, 10 de setembro de 2016

Será que eu podia ter feito melhor?

Continuo no Sul do Afeganistão… ponto mágico deste planeta… com a sensação que estou longe…. muito longe de todo o mundo, principalmente do meu mundo… Gosto de o sentir, mas é impossível não ser invadido por um certo calafrio quando paramos para reflectir no quão longe e isolados estamos do mundo… Rodeado de guerra a toda a volta a única forma de sair da cidade de LashKar Gah, é num pequeno avião da Cruz Vermelha, que ali passa 2xs por semana… Se algo acontecer…o destino passa a ser muito incerto…

Aqui vos conto uma história de um dos dias mais marcantes de toda a minha vida…

Passado todo o dia a trabalhar no hospital…. o baixar das temperaturas até estalar os ossos, vai nos avisando que o dia de trabalho está a chegar ao fim… Bloco operatório como sempre muito movimentado, ou não fosse este o hospital da capital da província de Helmand. Operamos de tudo um pouco… e não há tempo para ninguém cair no tédio… Quando me preparo para me despedir da equipa de enfermeiros anestesistas que trabalhava para mim, somos chamados para avaliar uma criança… Eu e o Andres (cirurgião e amigo argentino) juntamo-nos ao Dr. Nasrullah, chefe de Serviço da Cirurgia que estava manifestamente preocupado com esta criança e com razão… o Ahmed tinha 2-3 anos, e não lhe restava qualquer da vitalidade de uma criança desta idade… trazido ao hospital pela mãe, vinda de muito longe, bem das profundezas do território dominado pelos Taliban, o longo tempo que demorou a chegar ao hospital não jogava nada a favor do prognóstico imediato…
A clínica abdominal era evidente, com um abdómen muito distendido, que á palpação causava ao Ahmed gemidos tímidos de dor de quem já não tinha forças nem para chorar… Fosse o que fosse era grave … e era para operar já! Uma criança criticamente doente é um desafio enormíssimo, para um anestesista… mais ainda a trabalhar com condições muito básicas…

Eu pedi autorização excepcional para ficar no hospital depois das 17.00, hora em que toda a equipa dos Médicos Sem Fronteiras recolhia a casa… mas o ficar para além da hora significava passar lá a noite…. pois durante a noite não assumíamos o risco de cruzar as ruas da cidade… mas eu sabia que a vida desta criança dependia de mim…. tinha que ficar… e fiquei!

Fomos directos para o Bloco Operatório…. não temos possibilidade de fazer análises… e uma boa parte do meu raciocínio clínico é feito “às cegas”… Tive que anestesiar e entubar o Ahmed, enquanto fazia um esforço para imaginar a dimensão dos desequilíbrios hidro-electrlíticos, a desidratação… e tentava agir em conformidade… O diagnóstico saltou à vista depois do Dr. Nasrullah e o Andres lhe terem aberto a barriga… tinha uma obstrução intestinal causada por uma Intussuscepção (quando o intestino invagina para dentro do próprio intestino) e devido a isto, um porção importante do intestino já isquemiada (morta) , foi necessário remover parte do intestino…. e ficando ainda uma boa parte cuja viabilidade parecia existir, mas era duvidosa… Enquanto decorre a cirurgia, a minha preocupação é imensa no equilíbrio e restabelecer das funções dos órgãos nobres do nosso organismo…. vigiando de perto a frequência cardíaca, a ventilação, a diurese, etc… O Ahmed, estava extremamente doente, e a cirurgia sendo incontornável para lhe salvar a vida, é também uma agressão acrescida, a uma criança já muito frágil…chegando ao final da cirurgia, sei que não vai ser fácil a minha missão de lhe salvar a vida… o Ahmed, está inflamado, desidratado, com vários sinais de uma criança gravemente doente… o recobro da anestesia é muito lento, e retirá-lo do apoio do ventilador tem de ser feito com muita calma e de uma forma progressiva… No nosso mundo esta criança teria que ir para os cuidados intensivos, com uma vigilância muito apertada por vários profissionais de saúde… mas ali só estou eu… e alguns enfermeiros inexperientes, que poderão ou não compreender as minhas orientações…

O Ahmed foi acordando aos poucos, mas num registo semelhante para pior do prévio à cirurgia…. expectável…. como todos os doentes muito graves…. antes de melhorarem, pioram sempre consideravelmente… e eu fiquei ao seu lado, a olhar fixamente para ele, para os seus sinais vitais, e a fazer exercícios hipotéticos do que poderia estar a passar no seu corpo, numa série de parâmetros, cujos dados deveria ter para o tratar e não tinha…. Estava com a frequência respiratória e cardíaca muito aumentadas, mas dentro de um nível de gravidade extrema estava estável, e aparentava alguns sinais de melhoria…. agora o tempo tinha que fazer o seu papel… e o seu corpo humano tinha que se restabelecer deste grave estado de doença…. Eu sonhava voltar a entregar o Ahmed aos braços da sua mãe… e começava aos poucos a saborear a maravilhosa sensação de dever cumprido… no meio de uma noite gélida, perdido no meio da guerra no sul do Afeganistão… Corpo gelado… mas coração quente…. tinha sido um dia em cheio… e ficar no hospital à noite, enchia-me a alma de sentimentos profundos…. de medo pelos perigos que me rodeiam… mas de proximidade com o povo que tanto precisa de nós… e da nossa equipa de médicos e enfermeiros que ainda tem tanto para aprender…  sensações mágicas que me invadiam…. Salvei mais uma vida pensava… e quando é de uma criança… é pura magia…

Mas há dias e dias…. E este era um daqueles dias…. como eu gosto, pode-se dizer…. intenso e vivido intensamente… Os sinais de alerta voltaram a inundar os corredores do hospital, com zum-zuns de urgência… Era uma hemorragia pós-parto…. mais uma … é sempre a maior causa de morte, por todas as missões em países sub-desenvolvidos por onde andei… Uma mulher nova, com vinte e poucos anos, a esvair-se em sangue após o parto…. é transportada muita à pressa para o bloco operatório… Atonia Uterina (o Útero que não contrai adequadamente após o parto) e a rapariga em choque hemorrágico… no limite entre a vida e a morte… já vi tantas doentes assim nas minhas missões, que acho que já posso falar de uma experiência adquirida relevante neste tipo de casos…. já salvei dezenas de vidas nestas circunstâncias, mas muitas também já me morreram nas mãos… E no imediato, quer para o anestesista quer para o Ginecologista que terá que a operar, esta doente absorve-nos por completo… Tenho que compensar as perdas sanguíneas, numa corrida contra o tempo, enquanto o ginecologista lhe pára a hemorragia o mais rápido possível, muitos vezes com recurso a histerectomia (retirada do útero)… como foi o caso… decisão dramática numa mulher nova… mas imperativa na tentativa de lhe salvar a vida… A cirurgia foi rápida como tinha que ser e eu fiz, o que tinha a fazer também muito rapidamente…. hidratá-la, transfundi-la, aquecê-la… tentar equilibra-la em termos hidro-electroliticos…. missão complicada, numa doente ultra aguda, literalmente no limbo… Chegando ao fim da cirurgia, mais uma vez, a necessidade de cuidados intensivos com ventilação e monitorização contínua é imprescindível… mas ali não há! E tenho de adaptar todo o meu pensamento médico às circunstâncias, ao material que tenho e aos recursos humanos que me rodeiam… esta doente precisava que estivesse ao lado dela 2 ou 3 dias, se tudo corresse bem…. mas eu não posso… não consigo… sinto-me frustrado por causa disso… e sei que ela pode morrer… porque eu mais cedo ou mais tarde preciso de dormir…. escolhas difíceis, super dolorosas… com as quais eu tenho que viver… e sobreviver a elas, sem me auto-destruir… E por isso eu tenho que tirar o tudo traqueal à doente, e retirar-lhe o apoio do ventilador… E todo este intenso diálogo que eu vou tendo comigo mesmo… decorre numa altura em que um enfermeiro do bloco me traz a informação de que não há mais sangue compatível com o dela…. Tragédia!!…. as hipóteses que ela tinha já eram pequenas e agora diminuíram brutalmente… mas eu não me resignei…. mau o era… tenho a vida de uma rapariga nova, que agora é mãe, nas minhas mãos… ela pode até morrer, mas não será sem eu dar tudo por tudo…

Dou-lhe todo o tempo do mundo para que os efeitos da anestesia se vão dissipando… vou auxiliando aos poucos a ventilação, progressivamente, para que ela se autonomize na ventilação… Ela está fraquíssima, pálida como nunca com uma hemoglobina de 3-4 ( um quarto do normal)…. mas eu não tenho outra hipótese se não tirar-lhe o tubo que a ajuda a respirar…. Inicialmente penso estar a ter algum sucesso…mas rapidamente ela ficou exausta…. e a grande quantidade de fluidos de ressuscitação que eu tive que lhe dar na falta de mais sangue, traduziam-se agora nuns pulmões “encharcados” de água e uma dificuldade em respirar que rapidamente a ia levar á morte… E nesse momento, já em atitude de desespero, pego no Ambu (saco de ventilação) e na mascara de ventilação, e agarro-me a ela com toda a força para a fazer respirar/ventilar…. E vou vendo aos poucos a sua saturação de oxigénio que já descia para valores muito baixos a subir novamente…. aos poucos… mas à custa de um esforço muito grande da minha parte, para fazer a selagem adequada desta mascara facial… para permitir uma ventilação eficaz…. se eu largar ela morre… não tenho dúvidas… mas sei também que não aguentarei ali muito mais tempo…. tenho a mão e o braço esquerdo em tetania… e a vida dela literalmente nas minhas mãos...
 
Às vezes pergunto-me: quanto vale uma vida? Num país que está em guerra há mais de 40 anos… e principalmente desde 2001, esta guerra inclusive apoiada pelo meu país que eu amo, já matou cerca de 500.000 pessoas…. de quanto vale esta vida que eu tenho nas mãos…. para que estatística contará ela? Quem é que se importa? Tudo aquilo que eu sei, é que o meu trabalho nos Médicos Sem Fronteiras é do coração… não só do meu ou da minha equipa que arrisca a vida para salvar vidas… mas de todas as pessoas no planeta que acreditam, que é nestas sementes de esperança que nós deixamos, e na respectiva aproximação dos povos, que reside a esperança da humanidade… É nisso que eu acredito…. porque me rodeio de pessoas mágicas que me fazem acreditar…

E eu vou ventilando… uma rapariga em coma, cuja esperança de educar o filho que acabou de nascer reside na minha capacidade de a manter viva… mas eu não sei como… e a exaustão começa a mandar abaixo a minha moral… Os enfermeiros que trabalham comigo são inexcedíveis nas tarefas que lhes peço para fazer… eu não posso fazer nada com as minhas mãos, estou grudado à doente e não há ninguém que saiba fazer aquilo… A minha única esperança é transfundi-la, peço ao laboratório para tentarem tudo para arranjarem sangue compatível…. ela é B- , não é fácil de arranjar sangue, muito menos a meio da noite… Como sei que se for eu a falar pessoalmente as situações podem se resolver de outra forma…. peço ao técnico de laboratório que venha falar comigo ao bloco de onde eu não podia sair… Ele confirma-me que já tentou tudo, todos os contactos da sua lista de pessoas que poderiam vir dar sangue B-, e nada…. E eu pergunto-lhe se ele tem B+, e ele diz-me que sim… Bem… Que dilema!! Já li muito sobre transfusões sanguíneas nestes cenários e sei que posso transfundi-la com sangue não compatível (+/-) e ela sobreviver… mas também a posso matar num ápice… e não há forma de o prever… Apetece-me chorar…. ter que tomar esta decisão sozinho é duro demais…. sinto-me sozinho como nunca estive… Primeira Regra da deontologia Médica: Não Fazer Mal! E eu posso matá-la com esta decisão…. mas se não o fizer tenho poucas dúvidas que ela irá morrer… Estou literalmente agarrado a ela… e a vida dela agarrada a mim… numa conexão entre dois seres humanos como poucas existirão… e uma decisão a tomar… São segundos que parecem vidas… valem vidas… Eu decido transfundi-la… Respiro fundo, encho-me de coragem e assumo o risco…. e se a matar aprenderei a viver com isso…
 
Parece que vejo a minha vida toda, em cada de gota de sangue que lhe vou transfundindo… mas estou convicto na minha decisão… a transfusão decorre sem intercorrências… e eu fico mais leve dezenas de quilos… os seus sinais vitais vão melhorando… a tensão arterial a subir, a frequência cardíaca a descer, e aos poucos os rins confirmam as melhorias, deste jogo mágico da medicina… A água dos pulmões vai diminuindo e aos poucos vai respirando mais autonomamente… O milagre da vida !! A probabilidade de a matar era grande…. mas assumi o risco… e ganhei J… enquanto recuperava eu também a minha frequência cardíaca…sentia-me um super-herói… não cabia em mim de tanta felicidade…

A guerra não acabou, mas eu salvei uma criança e uma rapariga (que tem um recém-nascdo)… alguém que ficará para contar a história que um grupo de médicos e não só, que veio de muitos países, para que ninguém tenha dúvida que: Nós preocupamo-nos! Nós e todos os que nós representamos, enviamos esperança e não bombas… E neste mundo mágico viajam os meus pensamentos enquanto se consolida a melhoria fantástica do estado crítico desta rapariga….

Relaxo, um pouco, e sinto os níveis alucinantes de adrenalina a descer do meu corpo…. E o Ahmed? Como estará o Ahmed? Entretanto o Ahmed estava nos “Cuidados Intensivos”… que de Cuidados Intensivos, não tinha nada, a não ser enfermeiros com um pouco mais de atenção… Quase que me esquecia do Ahmed… estava mortinho por saber como ele estava…. E quando entro nos Cuidados Intensivos, vejo o Ahmed, com uma compressa a evitar que o queixo caísse!! O que lhe aconteceu??? “MORREU” …. foi a resposta curta e seca, quase desprovida de emoções do enfermeiro que no seu parco inglês me deu… Mas !?! Como !?!?! O que aconteceu!?!? Porque não me chamaram?!?! “ MORREU”…

Dei meia volta e desfiz-me em lágrimas…. estava tão cansado, estava exausto…. e levei um murro no estômago, como poucas vezes na vida… fui para fora do hospital, chorar e pensar na vida… estava gelado e já quase não sentia as mãos… mas não queria que me vissem chorar…. Chorei, chorei, chorei…. limpei a alma até à última gota… Salvei uma vida, perdi outra… ganhei e perdi… E se a rapariga tivesse morrido, talvez eu tivesse salvado a vida ao Ahmed? Será que eu fiz alguma coisa de errado? De que é que ele morreu? Das toxinas da reperfusão do intestino? Não sei!

SERÀ QUE EU PODIA TER FEITO MELHOR?





segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Desistir ou Lutar com Mais Força - De mãe para mãe: Parte 2)

Desistir ou Lutar com Mais Força - De mãe para mãe: Parte 2)

(continuando)

Felizmente, toda a raiva, energia hiper-negativa, e o fumo que me saia por todos os poros do corpo, foram postos de parte, mal senti o tom de voz de urgência do enfermeiro que me veio chamar...

Houve um tom de voz que o chamou por rádio, que o levou a chamar-me com um tom de voz que transbordava preocupação... fosse o que fosse levou ao pânico de várias pessoas...

A Anja era uma médica alemã, especialista em Medicina Interna, que era a responsável pelo serviço de Urgência, excelente profissional, conhecedora, trabalhadora e competente, bem ao estilo alemão... E se me estava a chamar com aquele grau de urgência, o meu coração tinha motivos para estar a bater mais rápido.... Ainda era bem cedo, e estava um dia frio de morrer, com um sol radiante.... senti os pulmões a arder de frio, enquanto corria para o outro edifício onde se encontrava o Serviço de Urgência...

Entro de rompante na sala de reanimação do serviço de Urgência, e vejo pânico! Pânico na cara dos enfermeiros, pânico na cara da Anja, e uma criança deitada na maca, com a mãe coberta numa burqa azul aos gritos de desespero, aninhada de cócaras no canto da sala, com muitas, mas muitas referencias a Allah...

Era um menino de 2 ou 3 anos, e estava a morrer, estava azul e já mal respirava... não tenho dúvidas que a morte estava iminente... fosse o que fosse.

“Anja, o que se passa?” pergunto.
“Acho que tem um feijão a obstruir a traqueia!” responde-me nervosa.

A Anja estava com um laringoscopio (aparelho para ver a laringe e a traqueia) e com uma pinça de Magil (pinça com formato angulado para aceder à laringe e à traqueia)... e sem sucesso tentava retirar/puxar o feijão que obstruía por completo a traqueia e assim a passagem de ar para os pulmões...

Acho que tenho a sorte de ser muito calmo sob pressão, e transpareço uma calma de ferro, em situações de emergência médicas... Assumo o comando da situação... Incomoda-me, claro, a mãe de baixo de uma burqa, aos berros, e gritos por Allah, que com alguma dificuldade embalam o meu raciocínio... Nunca tinha vivido uma obstrução da via aérea numa criança... Agarro no Ambu (balão insuflável) e na máscara facial, e adapto-a com toda força à boca e nariz do rapazito.... forçando a ventilação... enquanto peço o material que preciso.... e numa voz firme peço 3 coisas: Ketamina (anestésico geral) Succinilcolina (relaxante muscular) e um tudo endotraqueal de tamanho adequado... O pânico e os gritos, levam a que os enfermeiros não percebam nada que eu pedi... e aqui talvez, a enorme sorte do enfermeiro do bloco estar comigo, que foi em segundos buscar o medicamento que só havia no bloco operatório, a succinilcolina... O menino, já não está azul, está preto... está a morrer nas minhas mãos... e eu ainda tento uma vez introduzir o tubo endotraqueal, só com a Ketamina, mas a rigidez muscular do rapazinho, não me permite fazê-lo... A frequência cardíaca passou de um valor assustadoramente rápido, para frequências cada vez mais lentas... é um sinal claro que a criança está a morrer... são segundos... talvez 2 ou 3 minutos que parecem horas... e eu já não posso ouvir a mãe aos gritos por Allah...

Chega a Succinilcolina, digo aos enfermeiros como a diluir e rapidamente a administram na dose indicada... A minha estratégia é simples.... nunca fiz, mas sei que é o que se deve fazer.... não tentar tirar o feijão, mas empurrá-lo para dentro.... A traqueia divide-se em dois brônquios principais, e se eu conseguir empurrar o feijão para um dos brônquios, ai já consigo oxigenar um dos pulmões o que chega perfeitamente para lhe salvar a vida...

Ninguém percebe o que se está a passar na minha cabeça, mas confiam e seguem as minhas ordens... Mal o rapaz ficou com os músculos completamente relaxados consigo introduzir o tudo endotraqueal e empurrar o dito feijão para um dos brônquios, e começo a ventilar eficazmente a criança... É daqueles momentos na medicina que parece um milagre... em poucos segundos o menino fica rosadinho, na sua coloração normal, e a frequência cardíaca aos poucos sobe para valores aceitáveis...

A Anja, que está com o véu islâmico que as regras culturais obrigam, a cobrir-lhe o cabelo, com os olhos ensopados em lágrimas, põe-me a mão no ombro e diz-me: “You saved the baby!”....e os enfermeiros logo após a limparem o pânico das suas caras....”Dr. Gustavo....you saved the baby!”.... e eu sorrio...sinto o corpo todo a tremer, passa por mim uma corrente eléctrica que quase que domina os meus movimentos.... mas tento refriar.... solto um sorriso, mas ainda não deixo saírem as emoções.... meto-as para dentro, pois ainda tenho que pensar como médico... o meu trabalho ainda não acabou....

Assisto a respiração da criança com o Ambu, enquanto o efeito da Ketamina e da Succinilcolina, não passam por completo.... e quando a criança começa a recuperar a sua autonomia ventilatória, começo a respirar fundo de alivio, até que mais uns minutos e retiro o tudo endotraqueal da traqueia do rapazinho.... e depois de uma ou duas tossidelas, ouço-o a chorar vigorosamente.... e ai senti que me tinha saído o Euromilhões!!.... uma felicidade e uma alegria, que só me apetecia que o mundo congelasse mesmo ali.... sorrimos em conjunto, e não contenho as lágrimas de alegria de nervosismo (tardias), e mais sei lá o quê.... Claro que peço aos enfermeiros para explicarem em Pashtun à mãe que a criança está viva.... está a chorar e está bem... Mas esta mãe, não sei se paralisada ainda pelo pânico, parecia, não entender que a criança estava fora de perigo.... continuava aos gritos por Allah... só passados uns minutos de insistência por parte dos enfermeiros é que ela se levanta da sua posição de cócaras e ainda a medo levanta a sua burqa azul, para ver que o seu querido filhinho está mesmo bem... Não consigo sequer imaginar a dor e sofrimento que esta rapariga, que perdida no meio da guerra, traz o seu filho a correr ao hospital, depois de se ter engasgado num feijão... e depois vê-se com 2 médicos estrangeiros, a falar uma língua esquisita, num aparato de pânico generalizado.... e que agora a morte que parecia certa, já era passado! Ver a cara desta mãe a pegar no seu filho ao colo, foi ganhar o 2º Euromilhões!

Foram momentos mágicos... a criança ainda esteve 3-4 dias no hospital, para vigilância, mas felizmente tudo correu super bem, e recuperou como se nada tivesse acontecido...

Um dia feliz, na vida de um médico... Penso que a minha missão principal, consiste na formação dos locais, nas sementes de esperança que os MSF, deixam nos povos mais esquecidos e injustiçados do planeta e com isto representando todas as vozes e opiniões de paz... Mas nestas vidas salvas, egoistamente recolho “medalhas” de honra que me enchem de orgulho e me fazem muito querer continuar...

Que importância tem uma vida salva, quando já morreram meio milhão? Estatisticamente nada! Mas para aquela mãe, TUDO! E para mim, ajudou-me a encontrar uma parte da minha personalidade que muito aprecio e tento alimentar... a resposta às adversidades... Num momento, estava decidido que ia desistir... poucos minutos depois, só pensava em lutar com mais força!

Desistir ou Lutar com mais força??? Há um mundo à nossa volta!

Foi esta a história que escrevi por email, há 4 anos a trás e ofereci/dediquei como presente de anos à minha querida mãe, por saber as maldades que lhe faço ao deixar-me levar por estes sonhos... É muito duro, e injusto, o que eu lhe faço... Deixar-me ir para dentro deste bicho-papão que se chama Afeganistão, que (erradamente) representa apenas bombas, morte e sofrimento... Mas não consigo deixar de querer ir.... porque aqui encontro o melhor de mim... a pessoa de quem mais gosto... E por isso dediquei e dedico tudo o que já fiz de bem, simbolizado na vida deste menino.... como atenuantes às maldades que um filho faz a uma mãe...

De mãe, para mãe! Esta mãe afegã não sabe, que para o seu filho estar vivo, a minha mãe teve que ficar com o coração destroçado, com medo de ligar a televisão no notíciario, e nervosa quando o telefone toca...

Mas eu acho Mãe, que esta mãe afegã lhe gostava de dizer, exactamente a mesma coisa que lhe quero dizer a si: OBRIGADO!

Gosto de pensar como se houvesse uma taxa de felicidade mundial... deixo algumas pessoas tristes, mas por um bem maior...

Tenho muito a perder, mas que de nada me vale se perder a Humanidade!

Porque as homenagens são para ser feitas, todos os dias que temos oportunidade:

PARABÉNS à mãe mais bonita do MUNDO.... e eu por si, vou tentar Lutar com Mais Força!


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