domingo, 2 de agosto de 2015

No meio da Guerra

(Janeiro de 2012)

Em Kabul, tenho muito pouco tempo para me preparar para ir para o meu destino final: província de Helmand, no sul do Afeganistão, cidade: Lashkar Gah, capital da pronvíncia mais sangrenta e problemática de toda a guerra do Afeganistão. No cerne da resistência Taliban, e rodeada da maior produção de ópio do pais e do planeta....região pobrérrima, com carências a nível de cuidados de saúde ao nível do pior que o nosso mundo conhece.

Em Kabul, tenho de tratar de papeladas e mais papeladas, e também tenho de fazer os briefings sobre tudo o que me espera no meu próximo local de trabalho. Do ponto de vista médico, não terei nenhum médico Anestesista antes de mim, o que implica que terei muito trabalho pela frente, para além de salvar vidas terei que organizar muita coisa em várias áreas do hospital. Adoro os briefings culturais, de segurança, e sobre o ponto da situação da guerra, em particular da zona para onde vou. Absorvo o mais que posso toda a informação, e fico encantado à medida que vou sabendo mais e mais sobre o que me espera.... apesar de nesta fase já ter lido muito sobre este país que durante uns meses vou chamar “casa”... Perceber a dimensão, e a complexidade de um conflito de um país que está em guerra há mais de 40 anos, leva-nos de imediato a concluir, que seguir a história na televisão é muito redutor e dá-nos uma ideia insignificante do que realmente se passa no terreno... A realidade é esmagadora, a dimensão do problema engole-nos.... e apesar de ter bem presente que sou apenas um médico, grande parte da minha motivação humanitária, passa pela espectacular compreensão destes mundos dentro do mundo, que contemporâneos às nossas calmas vidas, fazem o meu sangue ficar mais quente... e gosto de acreditar que daqui levo lições de vida, para a vida, impagáveis... Sinto-me um privilegiado,  no entanto apenas por me ter voluntariado, a arriscar a minha vida para cumprir a missão de fazer o que sei, onde é mais preciso...

Quanto mais absorvo o Afeganistão, mais quero ir.... já não posso esperar por começar a trabalhar.... mais ainda quando penso que a ausência de alguém como eu é traduzida em mortes evitáveis diariamente.... Quero muito conhecer a minha nova equipa, fazer a única coisa que sei e tanto gosto, ser médico!

O meu voo para Lashkar Gah é no dia a seguir, e ainda tenho tempo para beber umas cervejinhas e conhecer boa gente dos MSF antes de ir. Será o último copo dos próximos meses, pois onde estarei o conservadorismo islâmico e a consequente repressão cultural, levam a uma tolerância absolutamente ZERO ao álcool, e muito mais. É zona de guerra aberta..... não se brinca...


Depois de novamente me deliciar com mais uns pedacinhos de Kabul, ao cruzar a cidade e no descolar do avião, continua o meu encanto imensurável pelas montanhas e a beleza natural do Afeganistão. Agora num avião muito pequeno, que pertence à Cruz Vermelha, com quem os Médicos Sem Fronteiras, dividem os lugares para as entradas e saídas do staff para os inúmeros projectos por este pais fora.... viajamos a uma altitude bem menor, bem mais perto do cume das montanhas e delicio-me com a robustez dos contornos agressivos desta paisagem montanhosa, completamente coberta de neve.... É um voo directo para Lashkar Gah, o que me causa um desgosto enorme.... pois muitas vezes este avião faz a viagem passando por Kunduz, ou Herat, ou Mazar-e-Sharif (ou Kandahar que tive a sorte de ver no meu regresso a Kabul), cidades lindas, mágicas que eu dava tudo para ver nem que fosse por uns segundos, e que me dariam um enquadramento ainda maior, deste país que apesar de recém-chegado já me tinha conquistado o coração... Então o voo foi directo ao Sul, e das incríveis montanhas nevadas e geladas onde por vezes se viam pequenas aldeias perdidas, em alguns vales, passei a ver montanhas mais baixas, com menos neve, era o fim da “cauda” da cordilheira do Hindu Kush, para dar origem a uma zona completamente plana imensa do sul do Afeganistão.... à medida que o avião se aproximava da cidade, comecei a ver campos e campos de papoilas (para a produção de ópio) até perder de vista, com algumas casas típicas em tijolos de lama..... Por mim dava voltas e voltas no avião, mas quando me apercebo que a viagem está a chegar ao fim, sinto um friozinho na barriga... estou a chegar! A chegar a uma cidade rodeada pela resistência Taliban, com conflictos frequentes e ataques com bombistas suicidas extremamente frequentes. Kabul é uma cidade com alguns ataques, mas com uma presença internacional a diversos níveis imensa... Agora estou numa cidade e numa província que viu os confrontos mais sangrentos da história desta guerra, zona santa dos Taliban, no meio do quase deserto, onde a presença de um não-Afegão é uma raridade, pouco mais do que os 10-15 elementos dos Médicos Sem Fronteiras...

Saio do avião, e respiro fundo!

Agora estou literalmente no meio da guerra!





Mas feliz e motivado ;)


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