sábado, 5 de dezembro de 2015

Refugiados Sírios


Muita gente não quererá a minha opinião…pois então não leiam!

Mas sei que a nossa opinião será sempre reflectida, de alguma forma, com menor ou maior expressão em quem, em algum momento seja portador de importantes decisões … E na ausência da possibilidade de opinar de uma forma consequente sobre as atitudes do meu querido país para com aquilo q se passa no exterior das nossas fronteiras, resta-nos a conversa!! E se calhar no meio do bla, bla, bla, se possa esclarecer , e informar os mais desatentos!

Gostava que pudéssemos partir do principio que para o correcto julgamento do que quer que seja, é absolutamente indispensável, absorvermos a genuína visão das diferentes partes envolvidas… Pois, eu continuo recheado de dúvidas sobre as grandes questões que dominam a actualidade e dominam os (des)equilíbrios da humanidade… Quantos é que podemos receber? Quanto é que estamos dispostos a empobrecer para que “outros” deixem de correr risco de vida ou passar fome? Mas há algo que gostaria…ou mais até sinto que tenho a OBRIGAÇÃO, de escrever para quem quiser ler….Sentir o pulso a este povo Sírio, não deixaria nem o mais desumano dos críticos dos refugiados, indiferente…

Eu ouvi as suas histórias, tentei perceber o que seria ter a minha família dividida pelas linhas da guerra civil…. Vi nas lágrimas de quem perdia os seus queridos, o reflexo duma alma de quem perdeu o seu país…. De quem sente que a sua terra, o seu porto seguro é agora um mar de dor e sofrimento… Muitos ostracizados por se recusarem a alinhar com o governo e matar os seus compatriotas…. mas nessa convicção tiveram de deixar para trás mulher e filhos… Que escolha é esta? Talvez a última que gostaríamos de fazer! Identifiquei-me com as pessoas! Fiz amigos! Sabia que muitos eram capazes de dar a vida por mim… Acreditam, numa causa, na democracia! Mais não querem do que todos nós! Liberdade!

(Camião que por simpatia ao passar sem carga ajudava os refugiados,
a atravessar a fronteira da Síria para a Turquia, de cerca de 10kms)
Antes de Março de 2011, a Síria tinha 21-22 milhões de habitantes…mas o seu “querido” ditador respondeu aos apelos por democracia e liberdade com a maior violência imaginável, como expressão de uma raiva, inspirada na outrora eficaz estratégia do seu pai, em controlar as vozes de discórdia… Diz Bashar Al Asad, que no final ficarão apenas 6 milhões de Sírios vivos (apenas os Xiitas), e destroi, sem apelo nem agrado, os sonhos (legítimos digo eu) do seu povo, dizimou cidades, com recurso a qualquer tipo de estratégia que cause o maior número de mortos…. Ninguém me contou….vi e ouvi, esta máquina de guerra assustadora… Assim como vi e ouvi, os sonhos de um povo, amantes da sua pátria, unidos pela vontade de um mundo melhor….

Mas para a confusão de muitos, os terrores não acabam nesta guerra civil, mas na terrível e arrepiante ameaça a que agora chamamos Estado Islâmico… A opressão de proximidade desta força unida pelo ódio disfarçado de religião, fazia tremer de medo homens e mulheres…..que mais do que nunca….encurralaram um povo entre a espada e a parede! O ódio cego de um ditador sem misericórdia, capaz de destruir todo o seu país e os 70% do seu povo para ficar no poder, E talvez a ideologia mais sanguinolenta do planeta, que nem é Estado, nem muito menos Islâmico… E assim, são 8 milhões de deslocados e 4 milhões de refugiados… Dispostos a correr todos os perigos pelo sonho de uma vida digna… 

(Eu nesse camião a passar a fronteira Síria-Turquia, e feliz
por ver a guerra pelas costas)
Acho pouco importante o ratio de muçulmanos que o meu país ou a europa ficará…..é a taxa de humanidade e consequente felicidade, a uma escala global que deve orientar as nossas reflexões e posteriores atitudes…



Atravessei a fronteira para dentro da Síria, claramente em sentido contrário à maioria do povo….e por lá ter estado gostava de aqui deixar o meu testemunho de povo fantástico que me acolheu e tanto ensinou…. Quando meses depois, atravessei novamente a fronteira para a Turquia, antes de respirar fundo e sentir a liberdade, olhei para trás, e prometi a mim mesmo que nunca, mas NUNCA me iria esquecer daquele povo! Pois podia ser o meu!


Façam-se ouvir……é de pessoas que falamos….e não de números!

sábado, 21 de novembro de 2015

Indios e Cowboys

Indios e Cowboys.

Foi assim que eu cresci a ver filmes de Indios e Cowboys...E demorei algum tempo a perceber quem eram realmente os "bons" e os "maus"! 

Acompanhei desde muito cedo, a formação deste Estado Islâmico, ISIS, ISIL, Daesh, ou Dawla (Estado em árabe), curiosamente o nome que os Sírios mais frequentemente lhe atribuiam, no local onde eu estive. Poucos ou ninguém ao meu redor, sentiram o terror, que os elementos do EI, são capazes de causar. Fui dos poucos, que não fiquei surpreendido pelos decapitações publicitadas no youtube, no início de 2014, pois já sabia do que eram capazes, e sabia também do seu grande negócio de raptos e resgates, q até então os ocidentais, fingiam e bem, que nada sabiam sobre o terror que alguns dos seus conterrâneos, quase todos jornalistas e humanitários, estavam a passar. Ao entrar na Síria, num dia que jamais me esquecerei, a presença das bandeiras pretas, barbas islâmicas, metralhadoras montadas em 4x4, e um ar profundamente ameaçador, fez-me sentir medo como nunca antes... Mas como quase tudo que absorvi na Síria, foi em discurso directo com o povo, que me apercebi da terrível fase que a já horrenda guerra cívil, estava a passar... O povo tremia de medo, quase com medo de pronunciar a palavra.... Dawla... que eu no início nem sabia do que se tratava, pois o seu merchandising ainda estava a ser criado nos media do ocidente... A pressão do radicalismo, foi de uma intensidade e velocidade gritante.... As pessoas tinham medo de falar, medo de rir, proibidos de beber, e até de fumar....mulheres obrigadas a taparem-se na totalidade, e tudo sustentado numa formatação ideológica imposta à força sustentada na ameaça e coação....interpretação essa do Islão que em nada coincidia com os pilares basilares daquele povo... A minha enorme antipatia por este grupo, crescia em paralelo com a enorme admiração pelo povo Sírio, pelo seu amor à pátria, pela sua resiliência, e firmeza nas convicções....contra os actos tenebrosos do seu sanguinário ditador Bashar Al-Assad e a agora (ainda) maior ameaça do EI... Tive o desprazer de várias vezes me cruzar com elementos do EI, e testemunhei a destruição psicológica que causavam naquele povo, e como se não fosse suficiente sofri imensamente aquando do rapto dos meus 5 companheiros e amigos.... Sofri mais com as bombas do Assad, mas logo percebi q o EI, seria uma muito maior ameaça!


Penso que a cabeça da maioria dividir-se-á, entre dois extremos:
1) Tratamento cirúrgico: Vamos matá-los a todos.
2) Tratamento médico: Compreender a doença e tentar antagonizar os mecanismos que lhes dão força.


1) Certamente o mais rápido e tentadoramente mais fácil, exequível no decorrer das nossas vidas. Mas só os mais desatentos nas aulas não percebem que é impossível. Que o ódio e a violência só metastiza em mais ódio e mais violência. Inviável!

2) Requer mais estudo, mais trabalho e mais tempo....mas é a única solução e que teremos que ter a força para compreender que mesmo no rumo certo, já não seremos nós e tb talvez não os nossos filhos a ver o sucesso da diplomacia.

Dissecando o ponto 2). Vejo com mais clareza o que não fazer, do que o que fazer. Certamente, relembrando os mais desatentos, não queremos mais Afeganistão e Iraque. A guerra do Afegnistão "celebra" agora 14 anos, e cada vez está pior.... A guerra do Iraque, motivou de uma forma directa e óbvia o aparecimento do EI.

Que ideologia sustenta o EI, e de onde vem o seu dinheiro? Islão Sunita, fundamentalmente Arabia Saudita e os demais da península arábica... E o dinheiro vem da hipocrisia de todos nós, que somos Charlie e Paris....mas continuamos a ser coniventes com os interesses de quem os patrocina...e como se não chegasse, a tentação do negócio das armas é mais forte, mesmo para vender a quem nos quer matar.... Moral Ideológica? Dos USA?: só se for para rir! Da Rússia?: que com a desculpa q ataca o EI, nem disfarça ao atacar o Free Syrian Army, ou qq outro inimigo do seu aliado Assad. Da França?: que decidiu isoladamente bombardear a Líbia....porquê?? porque lhes apeteceu, no seu jogo geo-estratégico de dinheiro e poder.....e agora também a Líbia grande vítima do crescente poder do EI.... HIPÓCRITAS!


Onde é que estás a moral ideológica dos ocidentais? Não existe! Terroristas, mas num uniforme mais bonito!

Quem são os Indios e quem são os Cowboys? Quem são os bons e os maus?

Nem por um segundo ponderei em ser Charlie, ou em acrescentar a bandeira da França à minha foto ( com todo o respeito e até compreensão por quem o fez), mas doeu-me a alma profundamente por ver mais estas 130 vítimas, que acrescem às quase 300.000 na Síria, aos 4 milhões de refugiados, e ainda 8 milhões de deslocados internos Sírios, poupando tantas histórias de tantos países....e por isso, não há dia que passe que não pense:

O QUE É QUE EU POSSO FAZER?

1) Não ser manipulado por quem me conta a história
2) Tolerar as diferenças
3) Mandar ajuda e não bombas
4) Escolher sempre o Amor em vez do Ódio
5) Centrar-me que a minha casa é o Mundo.
6) A minha família é a Humanidade
7) E nunca, mas nunca me deixar levar pela indiferença.
8) Aprender a perdoar...

Reflexões após a triste noite de Paris

O Ódio, alimenta-se de si próprio,
Apenas um conjunto de opiniões.... Opinar é importante, assim como não opinar! Ter a humildade para dizer que não temos opinião, é de uma sabedoria extrema, e sinal de enorme inteligência...que poucos conseguem fazer, mas que eu faço questão de usar um sem número de vezes, nas questões onde eu estou pouco ou mal informado...mas este não é o caso. Aqui tenho uma opinião, aliás, várias....e acho que as pessoas subestimam o poder da opinião....assim, como da não opinião! (repito!) . Ouço, com frequência...." Há muitas crianças a morrer em África, mas eu não posso fazer nada....." e com isto desculpamos a nossa inacção pela dimensão do problema e distância do mesmo....claro que TODOS podemos fazer alguma coisa...nem que seja ter uma opinião...nem que seja Votar, nos que tem a capacidade de fazer alguma coisa....neste caso pela fome em África....que me preocupa mais do que se o IVA ou o IRS vai oscilar 1 ou 2%...
Eu tenho opiniões e convicções fortíssimas, dando sempre espaço para estar errado....pois as certezas absolutas, são sinónimos de estupidez! Ora ai está uma coisa, que no nosso dia-a-dia podemos mudar em prol da paz no mundo.....Não ter certezas absolutas!
Certamente que as opiniões, mais constructivas e completas, virão à medida que nos afastamos dos triste eventos de 6afeira 13 Novembro. O que me leva logo à primeira opinião: Bombardear a já totalmente devastada cidade de Raqqa na Síria, no dia a seguir, é uma atitude inteligente? Não é! Revela uma vingança mesquinha, não ponderada, e provavelmente mais lenha para nos queimarmos! Dizem que mataram 130 elementos do Estado Islâmico (EI)....estranho q seja o mesmo número de mortos...não parece? E como sabem q são elementos do EI? E como sabem que não mataram cívis? ....muito estranho! E logo 130?? Que coincidência!
O Terrorismo: como quase tudo na vida depende do ponto de vista! O que aconteceu em Paris, é Terrorismo, penso que é consensual.....mataram pessoas que nada fizeram, civis que não tiveram qualquer acto de violência prévio...e morreram apenas porque estavam lá, e alguém na sua plena consciência assim o decidiu! Este rótulo de "Terrorismo", serve para nós ocidentais podermos fazer o que quisermos, e quando quisermos....e podemos pôr e tirar o rótulo conforme a nossa conveniência... O Hamas é terrorista, o exército de Israel, não tem culpa de nada pois é um exército legítimo! O Sadam Hussein é terrorista, e por isso não tem mal, matar centenas de milhares de pessoas inocentes, sem qualquer propósito...mas os USA, não são terroristas, nem os Ingleses, Espanhóis e Portugueses que os apoiaram em primeira instância.... Ou seja às 130 muito tristes histórias que nos comovem a todos de Paris.....multipliquem por 10!....e depois outra vez por 10!!! e mais uma vez por 10!!!...e porque não outra por 10!!! e transportem as vossas lágrimas para todos estes Iraquianos que morreram sem ter feito mal a ninguém....e digam-me: Quem é que são os Terroristas? O que me leva outra vez, à questão da gigante importância da nossa pequenez! Talvez se não tivéssemos eleito um senhor disposto em ir destruir um país fomentando sofrimento e ódios, e com um bocadinho de sorte os outros países também não o tivessem feito....e pelo menos o Estado Islâmico não existia! A nossa opinião conta!
O extremismo Islâmico: na práctica pode-se dizer que nasce da ocupação dos Soviéticos no Afeganistão...e fortalece sustentado, ideologicamente falando, de uma atitude bélica contra comportamentos Imperialistas em países Islâmicos....no final desta guerra, 1992, apontam as suas já muitas forças.....para aqueles ainda mais imperialistas, com propósitos de dominar e controlar o mundo.....os USA....não os perdoando pela sua ambição desmedida de controlar tudo e todos (neste caso preocupados com os estados muçulmanos, claro)....com os aliados do costume! Terrível, este fenómeno extremista, impenetrável na crença divina, de interpretações do Islão, que nascem no início de há não muito mais de 100 anos no Egípto, mas que nos últimos tempos são centrados nos pensadores Wahabis da Arábia Saudita e países vizinhos....Como derrotar uma ideologia? Matando as pessoas??! E ai os USA saíram à rua para festejar como nem no 4 de Julho, a morte de Osama Bin Laden, em Maio de 2011.... mas nem vendo a Paixão de Cristo de Mel Gibson, se aperceberam que matar uma pessoa só torna a ideologia, mais forte! E então o que fazer? Nada, talvez fosse o mais inteligente!
O Islão tem culpa? Eu acho q não! É a religião mais populosa da mundo, tem 1,8 biliões de pessoas ( e a brutal esmagadora maioria é pacífica)....é verdade q a sua história é recheada de acontecimentos que envolvem a espada, ao contrário da vida de Jesus que é bem mais pacífica....o que não impediu os Cristãos das maiores alarvidades da história, quer em nome de Deus, quer em nome de nada... O Islão é feito de pessoas (grande novidade!!), e a maioria são boas....na minha leitura, só tenho pena que não exista uma hierarquia mais bem organizada, que permita saber....quem fala em nome do Islão! Um Papa do Islão?! E assim perguntar-lhe-iamos: O que acha de quem mata em nome de Allah? O que acha dos que apregoam em muitas mesquitas pelo mundo actos de violência numa religião definidora da paz? Acho que deveria haver mais vozes "dominantes", por parte dos Mullahs e dos Imans a condenar estes criminosos...mas repito. A maioria dos muçulmanos, são pessoas maravilhosas que não fazem mal a ninguém....como todos nós!
Quem alimenta o EI? : Para se fazer guerra é preciso muito dinheiro!!! Não basta acreditar muito em Allah! E de onde vem esse dinheiro? Certamente não sei nem metade da história...mas eu salientaria 3 pontos! 1) Islão Sunita...ou seja, em primeira análise, aquilo que a maioria se esquece, não por mal, mas porque não sabe...o maior inimigo do Islão....é o Islão! Assim como acontece na Irlanda entre católicos e protestantes, mas a uma escala bem maior. O Islão que nós vemos como radical é Sunita...e odeiam os Xiitas ( que também sabem ser radicais...mas como são muito menos (apenas 20%) não nos dão aqui chatices. O EI, nasce para combater o poder dos Xiitas no Iraque imposto por nós ocidentais, pós 2003....e como o Bashar Al-Assad, o terrível ditador da Síria também é Xiita, os Sunitas motivam-se para o derrubar, neste xadrez do Médio_oriente....e quem é que os motiva: Os Sauditas e também, Dubai, Abu Dabi, Qatar! E quem é que dá maior negócio aos sauditas? Nós! Nós ocidentais! Money talks! O petróleo alimenta o extremismo Islâmico, e somos nós ocidentais os maiores compradores! 2) O petróleo que o próprio Estado Islâmico vende no mercado negro.... e quem o compra? Muita gente! 3) Resgates: Tem sido práctica corrente, o rapto de ocidentais, para comércio..... Eu, como não nada contra os USA, aqui lhes faço a minha vénia....não negoceiam com estes grupos, e muito bem...mas todos os outros Europeus, já pagaram milhões por algumas vidas ao EI, curiosamente muitos franceses....e por isso deixo aqui já o meu desejo em vida. Se eu for raptado pelo EI, ou qq outra pessoa de má indole, deixem-me morrer....pois a minha vida, não vale mais que as vossas!
Onde é que entra a Guerra da Síria? Há vários países ainda de rastos e sem resolução à vista pós primavera árabe (legitima e bonita luta pela democracia.....digo eu!) Mas há 2 países que estão feitos em MERDA: Síria e o Iemen.... O que é que têm em comum? Uma questão Sunita-Xiita fracturante.... O Iemen, seria importante para explicar o NOJO que é a politica externa da Arabia Saudita, entre outras coisas....mas interessa menos porque estratégicamente, não tem tanto interesse como a Síria. A Síria, vivia em paz, mas uma paz podre....liderada por um ditador sem coração, que nem hesitou a matar o seu povo....pois quem se opôs a ele foram os 70% da população Síria que são Sunitas.... Os Xiitas, prontamente apoiaram este sanguinário, diga-se Irão, Hezbollah (do Libano), e outros grupos xiitas do Iraque.....mas também covinha à Russia, declaradamente que as coisas continuassem como estão, e menos, mas também à China....são poucos mas bons! A resistência Sunita na Síria ( O Free Syrian Army), teve o apoio do resto do mundo "indirectamente e às escondidas"...e como disse atrás, os radicais Sunitas do Iraque, também foram de braços abertos lutar contra os inimigos mais odiados...os Xiitas....E assim, a destruição de um país por uma muito triste guerra civil, tornou-se terreno muito fértil, para a proliferação do extremismo Islâmico, numa questão absolutamente oportunista, e parasitária!
E os Refugiados? Eu aqui talvez responda de uma outra forma...a ver se não me perco no meu raciocínio! Quem me conhece, sabe que eu estive na Síria....o que não me dá razão em nada, simplesmente me dá algo que é insubstituível, a vivência, a opinião bilateral (necessária para qq julgamento).....e o incontornável exercício de nos pormos na pele dos outros, antes de opinar! Ver pessoas, na televisão, é incomparável a viver com elas....e dai a magia de viajar, seja qual for o motivo ou o destino... Para mim, o solução para este que é o maior problema do Séc.XXI, passa pela proximidade, passa pelo cruzamento de vidas, pela compreensão mutua, e assim o respeito pela diferença! Tenho a forte convicção, que qualquer dos que me lê, que tenha a sorte como eu tive, de viver no Afeganistão, Paquistão e Síria, países chave, nesta problemática, perceberão, que as pessoas são igualmente maravilhosas, como todos nós, e jamais terão grandes dúvidas sobre o que são estes povos.... O Médico que fez o meu parto, era Preto....como poderei eu ser racista?? No dia, em que as vossas vidas forem tocadas por alguém que reza, de joelhos 5 vezes por dia....nunca mais irão tolerar um discurso anti-Islâmico!
O Ódio, é exponencial, e alimenta-se de si próprio....e lembrem-se, que o vosso dia-a-dia, é a solução para a paz no mundo!
A vossa opinião, conta! É mais forte do que parece!
É tão óbvio, que precisa de ser dito:
AMEM e AMEM-SE.....FODASSEEEEE!!

domingo, 2 de agosto de 2015

No meio da Guerra

(Janeiro de 2012)

Em Kabul, tenho muito pouco tempo para me preparar para ir para o meu destino final: província de Helmand, no sul do Afeganistão, cidade: Lashkar Gah, capital da pronvíncia mais sangrenta e problemática de toda a guerra do Afeganistão. No cerne da resistência Taliban, e rodeada da maior produção de ópio do pais e do planeta....região pobrérrima, com carências a nível de cuidados de saúde ao nível do pior que o nosso mundo conhece.

Em Kabul, tenho de tratar de papeladas e mais papeladas, e também tenho de fazer os briefings sobre tudo o que me espera no meu próximo local de trabalho. Do ponto de vista médico, não terei nenhum médico Anestesista antes de mim, o que implica que terei muito trabalho pela frente, para além de salvar vidas terei que organizar muita coisa em várias áreas do hospital. Adoro os briefings culturais, de segurança, e sobre o ponto da situação da guerra, em particular da zona para onde vou. Absorvo o mais que posso toda a informação, e fico encantado à medida que vou sabendo mais e mais sobre o que me espera.... apesar de nesta fase já ter lido muito sobre este país que durante uns meses vou chamar “casa”... Perceber a dimensão, e a complexidade de um conflito de um país que está em guerra há mais de 40 anos, leva-nos de imediato a concluir, que seguir a história na televisão é muito redutor e dá-nos uma ideia insignificante do que realmente se passa no terreno... A realidade é esmagadora, a dimensão do problema engole-nos.... e apesar de ter bem presente que sou apenas um médico, grande parte da minha motivação humanitária, passa pela espectacular compreensão destes mundos dentro do mundo, que contemporâneos às nossas calmas vidas, fazem o meu sangue ficar mais quente... e gosto de acreditar que daqui levo lições de vida, para a vida, impagáveis... Sinto-me um privilegiado,  no entanto apenas por me ter voluntariado, a arriscar a minha vida para cumprir a missão de fazer o que sei, onde é mais preciso...

Quanto mais absorvo o Afeganistão, mais quero ir.... já não posso esperar por começar a trabalhar.... mais ainda quando penso que a ausência de alguém como eu é traduzida em mortes evitáveis diariamente.... Quero muito conhecer a minha nova equipa, fazer a única coisa que sei e tanto gosto, ser médico!

O meu voo para Lashkar Gah é no dia a seguir, e ainda tenho tempo para beber umas cervejinhas e conhecer boa gente dos MSF antes de ir. Será o último copo dos próximos meses, pois onde estarei o conservadorismo islâmico e a consequente repressão cultural, levam a uma tolerância absolutamente ZERO ao álcool, e muito mais. É zona de guerra aberta..... não se brinca...


Depois de novamente me deliciar com mais uns pedacinhos de Kabul, ao cruzar a cidade e no descolar do avião, continua o meu encanto imensurável pelas montanhas e a beleza natural do Afeganistão. Agora num avião muito pequeno, que pertence à Cruz Vermelha, com quem os Médicos Sem Fronteiras, dividem os lugares para as entradas e saídas do staff para os inúmeros projectos por este pais fora.... viajamos a uma altitude bem menor, bem mais perto do cume das montanhas e delicio-me com a robustez dos contornos agressivos desta paisagem montanhosa, completamente coberta de neve.... É um voo directo para Lashkar Gah, o que me causa um desgosto enorme.... pois muitas vezes este avião faz a viagem passando por Kunduz, ou Herat, ou Mazar-e-Sharif (ou Kandahar que tive a sorte de ver no meu regresso a Kabul), cidades lindas, mágicas que eu dava tudo para ver nem que fosse por uns segundos, e que me dariam um enquadramento ainda maior, deste país que apesar de recém-chegado já me tinha conquistado o coração... Então o voo foi directo ao Sul, e das incríveis montanhas nevadas e geladas onde por vezes se viam pequenas aldeias perdidas, em alguns vales, passei a ver montanhas mais baixas, com menos neve, era o fim da “cauda” da cordilheira do Hindu Kush, para dar origem a uma zona completamente plana imensa do sul do Afeganistão.... à medida que o avião se aproximava da cidade, comecei a ver campos e campos de papoilas (para a produção de ópio) até perder de vista, com algumas casas típicas em tijolos de lama..... Por mim dava voltas e voltas no avião, mas quando me apercebo que a viagem está a chegar ao fim, sinto um friozinho na barriga... estou a chegar! A chegar a uma cidade rodeada pela resistência Taliban, com conflictos frequentes e ataques com bombistas suicidas extremamente frequentes. Kabul é uma cidade com alguns ataques, mas com uma presença internacional a diversos níveis imensa... Agora estou numa cidade e numa província que viu os confrontos mais sangrentos da história desta guerra, zona santa dos Taliban, no meio do quase deserto, onde a presença de um não-Afegão é uma raridade, pouco mais do que os 10-15 elementos dos Médicos Sem Fronteiras...

Saio do avião, e respiro fundo!

Agora estou literalmente no meio da guerra!





Mas feliz e motivado ;)


sábado, 25 de julho de 2015

Chegar a Kabul

(em Janeiro de 2012)

Aterrar em Kabul, é no mínimo lindo de morrer. Após sobrevoar uma enorme parte do Afeganistão a contemplar a incrível beleza da cordilheira do Hindu Kush, com montanhas lindas cheias de neve, enquanto tentava imaginar àquela enorme distancia o terrível sofrimento que aquele pais tem estado sujeito... Uma guerra é algo horrível..... a sensação de, a existência desta guerra estar assumida nas nossas mentes, por um processo de habituação, após 11 anos de guerra bem dura (agora a caminho dos 14 anos), ultrapassa tudo! Estar em guerra não pode ser normal!!

De dentro do avião, contemplo a beleza das montanhas e de olhos colados à janela imagino a quantidade de sangue e sofrimento que aquela terra já viu... O coração aperta e bate mais forte, viajo dentro da viagem....começo a sentir aquilo que não se explica.... vive-se quando a realidade nos bate de frente.... e ainda nem tinha chegado.... só a aproximação arrepia, e a antecipação invade-me o corpo já muito cansado da viagem.... Kabul, cidade de importância histórica intocável, é rodeada de altas montanhas a 360º, quase como de uma cratera se tratasse.... A aproximação à cidade de avião é espectacular, com as montanhas totalmente cobertas de neve, prova de um inverno rigorosíssimo, onde os -20ºC são a temperatura  mínima espectável.... Vivo um misto de admiração e agradecimento, pelos incríveis momentos, com um friozinho na barriga por estar prestes a entrar num dos países mais perigosos do mundo....

O que esperar de uma cidade tão fustigada pela guerra?! Tão mediatizada pelo terror?! Ao sair do avião as pessoas transformam-se, para uma versão mais conservadora, mais fechada, comparativamente ao que transpareciam no aeroporto do Dubai.... Os véus fecham mais as caras, caem algumas burqas pelo corpo abaixo, e os vestígios de algum toque de ocidentalização parecem desaparecer nos homens e mulheres..... Sinto-me logo, mais e mais em destaque ao destoar de todos que me rodeiam ainda no avião! Sinto-me diferente, exposto, e isso claro, causa algum desconforto....

(estádio de Kabul onde se faziam execuções públicas)
À saída do avião, estigmas de um país subdesenvolvido, apresentam-me o que me esperava..... confusão e desorganização brutais! Olho com espanto para o carimbo do meu passaporte que agora diz Afeganistão! O ritual de espera das malas, marca bem a diferença civilizacional..... tudo em cima uns dos outros, anarquia total, e a probabilidade de ser roubado parece altíssima.... e não me parece que os perdidos e achados sejam de confiança ;). Mas acho piada a este caos que funciona.... ou vai funcionando. Respiro de alivio quando pego na minha mochila.... e fico encantado por ver uma prancha de snowboard a chegar no tapete!! Depois li algures que alguns jornalistas mais aventureiros, fazem snowboard algures nessas montanhas.... infelizmente não será por aí a minha ventura ;). 

Ao passar as malas no Raio-X, com a presença de muita segurança/militares, perguntam-me se me podem abrir a mochila pequena e que garrafas trazia lá dentro.... Eram 6 cervejas, pois é legal entrar com uma quantidade de álcool até aos 2 Litros, e todos os estrangeiros trazem do duty free do Dubai, porque em Kabul é muito difícil beber uma cerveja, e quem aqui fica algum tempo, sofre de desejos de um copinho para descontrair... Então um militar, abre-me a mochila, contempla as cervejas, tira uma, e diz-me com a maior das latas a rir-se para mim “taxa de aeroporto”, e mete a cerveja debaixo da mesa! Ou seja, fui roubado, “in your face”, mesmo.... mas restam-me poucas alternativas do que rir de volta fechar a mochila e seguir caminho! Cabrão! Engulo a minha pequena revolta, pois não me pareceu sensato estar a discutir ali, cheio de gente com armas.... apenas pelo meu orgulho.... o cansaço ajudou-me também a aceitar o acontecimento com mais passividade...

Tenho ainda fresca, a memória de quando fiquei “esquecido” no aeroporto de Islamabad, sozinho de madrugada.... o que não foi nada agradável.... E não me apetecia nada que me voltasse a acontecer o mesmo em Kabul! Passo vários checkpoints de segurança, de controlo de passaportes e detectores de metais, até sair do aeroporto, e só no parque de estacionamento, é que nos podem esperar.... E lá está o clássico 4x4 Toyota dos MSF, cá fora! E quando vejo aquele logótipo sinto-me logo seguro e mais tranquilo! É família! Estão ali à minha espera.... Um motorista Afegão que nunca vi, mas apetece-me logo abraçá-lo! Bem tudo isto é acima de tudo medo do desconhecido, mas Kabul impõe respeito!

Depois de um Asalam Aleikum, que fica sempre bem, entro para o carro.... e ainda há aquela tentativa infrutífera de falar.... mas inglês que é bom, Nada! Mas confio, ele deve saber onde me levar.... e encosto-me para trás a curtir a cidade.... Uma mistura enorme de emoções, com um cansaço tremendo da longa viagem, mas uma vontade enorme de gravar todas as imagens que os meus olhos vêem.... As famosas crianças de Kabul que vivem na rua com temperaturas negativas e agora que o sol vai levantando ganham uma vida mágica.... Sinais de guerra por todo lado.... tanques enormes em cima das rotundas, foi a 1a coisa que eu vi quando saí do aeroporto, a presença de militares e armas é constante, e são muitos os edifícios que estão parcialmente destruídos por bombas, e outros com “desenhos” de rajadas de metralhadora nas fachadas.... Mas ao mesmo tempo, à medida que o coração vai abrandando é a sensação de uma cidade com uma vida “banal” que cresce em mim.....e com isso o medo vai-se dissipando, e vou mergulhando nesta cidade de uma forma mais tranquila...

Chego a casa dos MSF, após breves apresentações, caio inanimado de cansaço, e durmo para me preparar para o que aí vem.... a missão que abracei, numa das zonas mais perigosas do mundo, onde o conflicto está bem activo, no sul do Afeganistão....

Ainda falta um bocado, e só descanso quando estiver a fazer o que gosto e sei.... salvar vidas!




Mal posso esperar!


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