domingo, 21 de dezembro de 2014

A Partida...para a Guerra.

De volta ao Afeganistão….. fecho os olhos e regresso ao Afeganistão... ou talvez um bocado antes.... à Partida, à preparação, literalmente para a Guerra.

Neste momento tenho imensa vontade de escrever, fico na dúvida se tenho vontade de ser lido (que é sempre um ânimo), ou se simplesmente preciso de escrever e reviver vivências que são tão importantes para mim....

É difícil de explicar, sendo muito honesto comigo e com a minha escrita, encontro verdades diferentes, ou se calhar uma verdade que se complementa..... na tentativa de (me) explicar o porquê de ir para um cenário de guerra.... outra vez.... a 3a vez!

É tão egoísta! É tão egoísta esta vontade de ir.... vontade de viajar, vontade de conhecer, vontade de compreender o mundo, vontade de ver a história com os meus próprios olhos, vontade de salvar vidas, vontade de incandescer a minha vida, vontade de sentir o coração a bater mais forte, vontade de sentir o medo outra vez, vontade de me desafiar, vontade de orgulhar os que gostam de mim, vontade de gostar de mim, vontade de dar um sentido mais nobre à minha vida, vontade de sentir que sou parte da solução..... vontade de ir! Vontade de voltar a morrer de saudades para voltar....

E foi há 3 anos, que o meu Natal, ficou marcado, pela viagem iminente para o sul do Afeganistão. A consciência de que magoo muita gente ao satisfazer este egoísmo, faz me também a mim sofrer.... mas a minha motivação egoistamente ultrapassa tudo. Sei que nenhuma mãe merece aquilo que eu fiz passar a minha, sei que todos que gostam de mim sentem um friozinho na barriga, pelos perigos que se sentem ao ligar a televisão.... e sei que não foi justo eu magoar tanto a minha ex, com o egoísmo do meu sonho humanitário.... mas eu fui! E por isso dedico todos os meus esforços, todas as minhas palavras, na proporção exacta às pessoas que magoei por querer tanto ir..... para uma guerra que não é minha, salvar gente que nunca vi, dar uma palavra a quem a quiser ouvir, que este é o caminho.... que em consciência, dou a minha vida por qualquer outra.... porque quando respiro fundo e fecho os olhos.... nos momentos em que gosto mais de mim, é nisso que acredito! E por isso eu vou....

Foi um Natal, especial, em que todos os momentos são mais “intensos”, sou muito optimista, mas a cada desejo de “Bom Natal”, está implícito no meu subconsciente que poderá ser o último.... Estou mais sensível, e gosto. Gosto desse medo do que aí vem, que faz sentir cada toque ainda mais especial... Valorizo mais os “momentos”, congelo o pensamento em lugares comuns, fotografo situações no meu pensamento, de família, amigos, de amor.... para levar comigo.... Despeço-me de cada canto da minha cidade... .o como ao Porto, eu digo tudo sem vergonha.... Só lhe digo: “Espero que não seja a última vez que nos vemos!”.... Há muitas situações de lágrimas nos olhos, que guardo para mim.... Eu tenho medo, mas adoro esse medo.... que simboliza o amor que tenho à vida, e adoro ainda mais a força que me faz ultrapassar esse medo....

E o que dizer da passagem de ano! Aquele marco inventado por nós que nos leva incontornavelmente a pensar nos antes e nos depois..... Em que cada vez que num abraço eu ouço “Bom Ano”....o meu cérebro traduz de imediato para “Eu vou para o Afeganistão!”

E logo depois começa a viagem....

Porto-Bruxelas-Dubai-Kabul-Lashkar Gah .


A saída do Porto é sempre a que custa mais.... nesta altura já não dá para aguentar... a experiência ajuda, mas o coração quase que explode.... Mochila às costas, cachecol do FCPorto, a representar todo o meu mundo.... e entro no aeroporto num turbilhão de emoções.... sozinho, bem sozinho contra o mundo, e cheio de vontade de viver.... Limpo as lágrimas que ninguém viu, e sinto que começa a “missão”. Há muito trabalho a fazer.... muitos documentos a ler e reler, sobre tudo o que vou ver, viver e fazer.... Ultra motivado e cheio de vontade de começar a trabalhar, na única coisa que sei fazer... mas já a morrer de saudades.

Adoro ir ao “headquarter” dos Médicos Sem Fronteiras, em Bruxelas.... cheira a mundo! Sente-se um bocadinho de todos os pontos longínquos do planeta onde os MSF estão a trabalhar, para que o mundo seja um bocado mais justo... Sou metralhado de informação sobre o projecto em que vou trabalhar, o stress aumenta, mas é banalizado..... porque há tanta gente ali que já foi, veio, e voltou ali e a tantos outros lugares, que relativizam toda aquela carga emotiva de quem vai entrar num dos locais mais perigosos do planeta...

Conheci o Tom, um rapaz belga, engenheiro, que iria fazer a viagem até Kabul comigo.... é fantástico ter companhia.... porque nas outras vezes fiz tudo muito sozinho.... Juntos vamos à embaixada Afegã em Bruxelas tratar de papelada.... provavelmente é preconceito, mas ao falar com as autoridades Afegãs já parece que estamos em guerra.... e aquela ingenuidade de quem acha que é obvio que vamos lá para ajudar é desfeita numa série de olhares e perguntas desconfiadas e desconcertantes.

E com uma fantástica cerveja belga e um bom conjunto de pessoas improváveis, me despeço do mundo dito civilizado, e faço os últimos telefonemas aos que me fazem querer tanto voltar inteiro, não sabendo quando e como iria poder voltar a falar com o meu mundo....

Ao chegar ao aeroporto de Bruxelas, revisito intensas memorias da minha partida para o Congo em 2009..... acho graça me lembrar tão bem de certos lugares do aeroporto e de emoções tão ou mais fortes das que ali sentia 2,5 anos antes.... viagens dentro da viagem. Sento-me exactamente no mesmo banco no exterior do aeroporto, que me tinha sentado antes de ir para o Congo, e vivo e revivo, aquele presente e o passado, antevendo o futuro que estava quase a chegar.... Momentos de reflexão, de uma solidão intensa, que eu não me canso de amar sentir. Avisto a chegada do Tom, com o seu pai, observo aquele filme de despedida “agarrado ao ecrã”, imaginando e transpondo o que aquele pai estaria a sentir ao abraçar o seu querido filho antes de ele partir para esta guerra destruidora, que assusta só de ouvir falar.... Adorei ver aquele momento que para mim era de uma enorme intensidade emotiva, e mais ninguém da multidão incógnita se apercebia do que se estava a passar.... Mais tarde o Tom, disse-me que a sua mãe, nem aguentava ir ao aeroporto.....é muito forte! Acho que nem eu sei muito bem explicar....


E ai fomos nós rumo a Kabul.... de coração aberto, medos e motivações na equação certa.... com um nervosismo saudável, cheios de sonhos e vontade de ser felizes....
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