domingo, 21 de dezembro de 2014

A Partida...para a Guerra.

De volta ao Afeganistão….. fecho os olhos e regresso ao Afeganistão... ou talvez um bocado antes.... à Partida, à preparação, literalmente para a Guerra.

Neste momento tenho imensa vontade de escrever, fico na dúvida se tenho vontade de ser lido (que é sempre um ânimo), ou se simplesmente preciso de escrever e reviver vivências que são tão importantes para mim....

É difícil de explicar, sendo muito honesto comigo e com a minha escrita, encontro verdades diferentes, ou se calhar uma verdade que se complementa..... na tentativa de (me) explicar o porquê de ir para um cenário de guerra.... outra vez.... a 3a vez!

É tão egoísta! É tão egoísta esta vontade de ir.... vontade de viajar, vontade de conhecer, vontade de compreender o mundo, vontade de ver a história com os meus próprios olhos, vontade de salvar vidas, vontade de incandescer a minha vida, vontade de sentir o coração a bater mais forte, vontade de sentir o medo outra vez, vontade de me desafiar, vontade de orgulhar os que gostam de mim, vontade de gostar de mim, vontade de dar um sentido mais nobre à minha vida, vontade de sentir que sou parte da solução..... vontade de ir! Vontade de voltar a morrer de saudades para voltar....

E foi há 3 anos, que o meu Natal, ficou marcado, pela viagem iminente para o sul do Afeganistão. A consciência de que magoo muita gente ao satisfazer este egoísmo, faz me também a mim sofrer.... mas a minha motivação egoistamente ultrapassa tudo. Sei que nenhuma mãe merece aquilo que eu fiz passar a minha, sei que todos que gostam de mim sentem um friozinho na barriga, pelos perigos que se sentem ao ligar a televisão.... e sei que não foi justo eu magoar tanto a minha ex, com o egoísmo do meu sonho humanitário.... mas eu fui! E por isso dedico todos os meus esforços, todas as minhas palavras, na proporção exacta às pessoas que magoei por querer tanto ir..... para uma guerra que não é minha, salvar gente que nunca vi, dar uma palavra a quem a quiser ouvir, que este é o caminho.... que em consciência, dou a minha vida por qualquer outra.... porque quando respiro fundo e fecho os olhos.... nos momentos em que gosto mais de mim, é nisso que acredito! E por isso eu vou....

Foi um Natal, especial, em que todos os momentos são mais “intensos”, sou muito optimista, mas a cada desejo de “Bom Natal”, está implícito no meu subconsciente que poderá ser o último.... Estou mais sensível, e gosto. Gosto desse medo do que aí vem, que faz sentir cada toque ainda mais especial... Valorizo mais os “momentos”, congelo o pensamento em lugares comuns, fotografo situações no meu pensamento, de família, amigos, de amor.... para levar comigo.... Despeço-me de cada canto da minha cidade... .o como ao Porto, eu digo tudo sem vergonha.... Só lhe digo: “Espero que não seja a última vez que nos vemos!”.... Há muitas situações de lágrimas nos olhos, que guardo para mim.... Eu tenho medo, mas adoro esse medo.... que simboliza o amor que tenho à vida, e adoro ainda mais a força que me faz ultrapassar esse medo....

E o que dizer da passagem de ano! Aquele marco inventado por nós que nos leva incontornavelmente a pensar nos antes e nos depois..... Em que cada vez que num abraço eu ouço “Bom Ano”....o meu cérebro traduz de imediato para “Eu vou para o Afeganistão!”

E logo depois começa a viagem....

Porto-Bruxelas-Dubai-Kabul-Lashkar Gah .


A saída do Porto é sempre a que custa mais.... nesta altura já não dá para aguentar... a experiência ajuda, mas o coração quase que explode.... Mochila às costas, cachecol do FCPorto, a representar todo o meu mundo.... e entro no aeroporto num turbilhão de emoções.... sozinho, bem sozinho contra o mundo, e cheio de vontade de viver.... Limpo as lágrimas que ninguém viu, e sinto que começa a “missão”. Há muito trabalho a fazer.... muitos documentos a ler e reler, sobre tudo o que vou ver, viver e fazer.... Ultra motivado e cheio de vontade de começar a trabalhar, na única coisa que sei fazer... mas já a morrer de saudades.

Adoro ir ao “headquarter” dos Médicos Sem Fronteiras, em Bruxelas.... cheira a mundo! Sente-se um bocadinho de todos os pontos longínquos do planeta onde os MSF estão a trabalhar, para que o mundo seja um bocado mais justo... Sou metralhado de informação sobre o projecto em que vou trabalhar, o stress aumenta, mas é banalizado..... porque há tanta gente ali que já foi, veio, e voltou ali e a tantos outros lugares, que relativizam toda aquela carga emotiva de quem vai entrar num dos locais mais perigosos do planeta...

Conheci o Tom, um rapaz belga, engenheiro, que iria fazer a viagem até Kabul comigo.... é fantástico ter companhia.... porque nas outras vezes fiz tudo muito sozinho.... Juntos vamos à embaixada Afegã em Bruxelas tratar de papelada.... provavelmente é preconceito, mas ao falar com as autoridades Afegãs já parece que estamos em guerra.... e aquela ingenuidade de quem acha que é obvio que vamos lá para ajudar é desfeita numa série de olhares e perguntas desconfiadas e desconcertantes.

E com uma fantástica cerveja belga e um bom conjunto de pessoas improváveis, me despeço do mundo dito civilizado, e faço os últimos telefonemas aos que me fazem querer tanto voltar inteiro, não sabendo quando e como iria poder voltar a falar com o meu mundo....

Ao chegar ao aeroporto de Bruxelas, revisito intensas memorias da minha partida para o Congo em 2009..... acho graça me lembrar tão bem de certos lugares do aeroporto e de emoções tão ou mais fortes das que ali sentia 2,5 anos antes.... viagens dentro da viagem. Sento-me exactamente no mesmo banco no exterior do aeroporto, que me tinha sentado antes de ir para o Congo, e vivo e revivo, aquele presente e o passado, antevendo o futuro que estava quase a chegar.... Momentos de reflexão, de uma solidão intensa, que eu não me canso de amar sentir. Avisto a chegada do Tom, com o seu pai, observo aquele filme de despedida “agarrado ao ecrã”, imaginando e transpondo o que aquele pai estaria a sentir ao abraçar o seu querido filho antes de ele partir para esta guerra destruidora, que assusta só de ouvir falar.... Adorei ver aquele momento que para mim era de uma enorme intensidade emotiva, e mais ninguém da multidão incógnita se apercebia do que se estava a passar.... Mais tarde o Tom, disse-me que a sua mãe, nem aguentava ir ao aeroporto.....é muito forte! Acho que nem eu sei muito bem explicar....


E ai fomos nós rumo a Kabul.... de coração aberto, medos e motivações na equação certa.... com um nervosismo saudável, cheios de sonhos e vontade de ser felizes....

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Quem é que não se lembra onde estava no 11/9/2001?


Quem é que não se lembra onde estava no 11/9/2001?


Eu lembro-me como se fosse hoje...

Um dia que só não marcou a vida dos mais desatentos...

Tinha 20 anos, estava numa casa temporária, pois o apartamento dos meus pais estava em obras. Estava numa fase fantástica da minha vida, como sempre fui um rapaz muito lutador e cumpridor, tinha feito todos os exames direitinho do 3º ano da Faculdade de Medicina, sem nunca deixar nada para a época de Setembro, desfrutava dumas férias fantásticas, de muita festa, muito surf, muito desporto e poucas chatices ou responsabilidades...

Era por volta das 2 das tarde em Portugal, estava um dia de sol magnífico, e eu acordei tarde e “cansado” da noite anterior... A minha irmã chamou-me quando estava a ver televisão e anunciaram o embate do 1º avião na primeira torre.... e eu fui a correr para a sala, e aconteceu-me aquilo que muitos de nós bem se lembram..... Assistir em directo pela tv, ao embate do 2º avião na segunda torre... quando achávamos que era a repetição do 1º....... Chocante, Impressionante, Cativante... Era impossível, largar a televisão.... Fiquei boquiaberto, “atraído” pelo “espectáculo”, como quem fica maravilhado pela espectacularidade dos grandes desastres naturais.... Triste, desesperante, assolador, o espectáculo de fogo e destruição que se viu e reviu na televisão enquanto as Torres Gémeas caiam perante a impotência da nação mais poderosa do mundo...

Quem foi? Lembro-me bem dos dedos acusadores, terem corrido várias caras, vários países, vários grupos, num curtíssimo espaço de tempo...

É triste, mas festejava-se em algumas partes do mundo, lembro-me por exemplo da Palestina, onde milhares saíram à rua, por verem de joelhos, aquele país que tanto mal lhes fazia.... mas nada tinham a ver com a história dos ataques.

De repente, o nome Alqaeda, era como sempre tivesse existido nas nossas cabeças..... Quem são? O que querem? Porque fizeram isto? Onde estão? Quem é o Líder? Osaba Bin Laden.... Onde está este Saudita/Iemeni? No Afeganistão! Então vamos lá!

Poucas vozes, ou pouco audíveis do mundo ocidental se mostraram contra... Parecia tão óbvio e legítimo, aos olhos de todos uma “Guerra Justa”, embora se saiba lá o que isso quer dizer....

Antes até das Nações Unidas se pronunciarem já as forças especiais dos EUA, entravam no território do Afeganistão....

E claro, os Taliban..... esses estudantes do Islão, que controlam quase todo o pais desde 1996 à custa de barbáries, faziam parecer ainda mais óbvio o interesse mundial!!!!! da invasão deste pais....

Ficamos a saber pouco mais sobre este fantástico e maravilhoso pais, ainda menos sobre o seu povo que tem tanto para nos contar, mas muito ficamos a saber sobre Alqaeda e Taliban, ao ponto de que muita gente ainda acha que é mais ou menos a mesma coisa..... mas não tem nada a ver.

E foi assim que eu tomei conhecimento deste pais..... GUERRA, e mais guerra e mais guerra. Penso que posso dizer que é o maior espectáculo bélico, desde que eu sou gente, aquele que fez correr mais tinta, fotos e filmes....

Afeganistão=Guerra . Dias, meses e anos, a falar da guerra do Afeganistão, em que era bastante óbvio para toda a gente que havia bons e maus.... Quase que aplaudíamos as explosões, bombas, etc.... O Afeganistão era guerra, sangue, burqas, sofrimento, miséria, extremismo Islâmico e pouco mais....

E eu nunca mais me esqueço de como a nossa vida mudou a partir do 11/9, da mesma forma que, 10 anos depois, nunca me esquecerei do momento em que disse à minha mãe: “Mãe, gostava de ir trabalhar para o Afeganistão!”

Ão, ão, ão.... Afeganistão.... o nome assusta, porque nos fizeram ficar assustados com este nome... e pouco tempo fica para verdadeiramente saber o que se passa no terreno, pouco tempo fica para se saber o que é o Afeganistão e os Afegãos, e ainda menos tempo fica para a verdade.....

Na minha estadia apaixonante no Paquistão, em que muito já foi escrito, o meu estudo, compreensão sobre o local onde estava, cruzava-se muito com a história do Afeganistão, a compreensão da guerra, e a compreensão destes bichos papões que co-habitam nestes países, a Alqaeda e os Taliban.... e como tal, 10 anos depois do 11/9, já muito sabia sobre o Afeganistão e o seu povo.... e muito mais queria saber...

Guerra injusta, país interessantíssimo, povo paupérrimo, e um sofrimento transversal a todo o país, com uma carência de cuidados de saúde abismal, levou-me a ficar super motivado quando os Médicos Sem Fronteiras, me propuseram ir trabalhar para o Afeganistão, os meus olhos brilhavam e o meu coração encheu-se de alegria.... mas as minhas pernas tremiam quando vi, o meu nome no bilhete de avião para Kabul, depois de ter visto tanta guerra e tanto sofrimento associados a estes nomes, aos quais eu ia agora ao encontro.....

Foi há 13 anos o 9/11, e foi há 3 anos quando me preparava para correr atrás de um sonho, mas que ao mesmo tempo era um monstro assustador.... salvar vidas no Afeganistão e perceber quem é esta gente que vive neste bicho-papão...

E por isso gostava de vos contar umas histórias, desta viagem que me mudou para sempre....


domingo, 22 de junho de 2014

Querido Porto

Querido Porto, 

Há muito que te queria escrever. 
Gostava que soubesses o que sinto por ti.
Tenho para ti palavras muito simples para um sentimento tão complexo.

Ficarias surpreendido com o sem número de vezes que penso em ti. Passo horas no silêncio a reviver as tuas memorias. Gosto tanto de te sentir como de sentir a tua falta. Devo-te tudo e cobardemente nunca tu disse.

Gostava que soubesses o que sinto por ti.

Se não fosses tu, Porto, o que seria de mim? Quem seria eu, sem a tua inspiração, sem a tua força, sem a tua valentia? Preferia não viver a viver sem ti. Gosto de mim quando te sinto por perto. Enches-me a alma. Fazes-me bem. Desde há muito que sinto por ti uma atracção invisível, inquebrável, à prova de fogo, de bala, de dor, de lágrimas, de tudo!

Gostava que soubesses o que sinto por ti.

Adoro a forma como me contas a tua história, arrepia-me a cadência com que falas comigo. Quando me sento na tua igreja de São Francisco, perco-me na grandiosidade com que me contas, um dos períodos mais fascinantes da tua história, da nossa história. Nunca me canso de olhar para ti, pelo que foste, pelo que és, e pelo que ainda vais ser.

Gostava que soubesses o que sinto por ti.

Sei que falas comigo, e eu ouço-te com atenção. Raros são os dias que não sinto o teu toque, e por vezes queria-te só para mim. Nunca me esqueço dos teus conselhos, naqueles dias em que tudo parecia perdido. Quantas já não foram as lágrimas que me limpaste só porque existes? Lembraste? Agora diz-me, como é que queres que não seja, hoje e sempre, apaixonado por ti? Lembro-me de tantas e tantas vezes, em que te fitava por horas na praça do cubo, e pensava para mim, naquele bom português que me ensinaste: “F####, és lindo e adoro estar dentro de ti!”

Gostava que soubesses o que sinto por ti.

Se calhar não me levas a sério, ou ainda não percebeste porquê. Todas as vezes que vou à tua Sé, pasmo-me como se fosse a primeira vez. É mesmo verdade que tem 900 anos? Como é possível? Tão fresca, tão sólida, tão imponente, tão bonita esta tua Sé! Dai espreito sempre para o rio, e fotografo-te outra vez com os meus olhos, antes de começar a descer-te. E logo a seguir, mesmo sabendo, parece que sou sempre surpreendido...com a magistral Igreja dos Grilos. Talvez as vertigens da descida que a antecedem, ceguem as minhas memórias e tornem este meu espanto sempre virgem. E daí, faço questão de me perder na gravidade que me leva por ti, até ao rio. Todos os recantos me encantam, as varandas, as flores à janela, a roupa a secar nos estendais, o perfume da vida das tuas ruas, as tuas linhas brutas e caóticas, pouco pensadas que te dão tanto charme e carácter.

Gostava que soubesses o que sinto por ti.

Quanto mais te conheço, mais te quero conhecer. Eu sei que não tens culpa das vezes que te virei as costas, fui eu que te deixei, mas quero que saibas que já sofri horrores de saudades tuas, tive momentos em que ao pensar em ti e no quanto sentia a tua falta, quase parava de respirar. Espero que saibas, que gosto muito de ver o mundo, mas nunca te traí, sempre foste tu, Porto, o dono do meu coração. Já fui feliz sem ti, mas nunca fui tão feliz como contigo, e só queria que estivesses lá para ver como eu me sinto quando estou a voltar no avião depois de algum tempo sem te ver e sem ouvir a tua voz. O meu coração quase arrebenta, quando sinto que estou perto de te voltar a tocar. Colo o nariz à janela do avião, e tento registar todas as formas de como te vejo, e choro! Choro literalmente baba e ranho, choro como um arrependido, choro de saudades, choro ao antecipar o iminente abraço que te vou dar, choro porque ainda estás ai, choro por gostar tanto de ti, choro por ser tão bom sentir a tua falta.

Gostava que soubesses o que sinto por ti.

E o Adeus? Como me dói dizer-te adeus. Olho para ti, sem vergonha. Olho-te nos olhos, e faço questão de observar com atenção o máximo de linhas do teu corpo. Quero levar-te comigo, e tento compensar a falta que me vais fazer, as saudades que sei que vou ter sugando-te o quanto posso. Sento-me a olhar para o teu rio, e penso o que seria de mim se nunca mais te voltar a ver, faço-te promessas de amor, que espero que tenhas ouvido, recolho pedaços de ti para levar na minha mochila e faço questão que saibas que se não voltar, tudo o que eu fiz é pelo meu amor por ti. Mas claro, tu sabes que apesar do difícil que é escolher o que mais é que gosto em ti, é no teu mar, no teu oceano, que mais gosto de perder o meu tempo, perder no tempo e perder no teu tempo. Adoro olhar para o teu mar, fascina-me a forma como me inspira, a facilidade com que me molda a personalidade. É ao teu mar, que peço conselhos, é ao teu mar que peço tantas vezes o amparo para me manter de pé, e é ao teu mar que mais me custa virar as costas quando te deixo. Parece que só volto a respirar quando vejo o teu mar de novo. É o teu todo que me faz amar-te tanto, mas não te escondo, que do teu corpo o que eu amo mais é esta massa de água que me hipnotiza.

Gostava que soubesses o que sinto por ti.

E se eu te disser que ainda não te disse nada. E se eu te disser que quase não comecei a fazer-te entender porque gosto tanto de ti. Porque me falta dizer-te qual é a tua pedra mais preciosa. Adoro a tua história, o teu centro, o teu peixe, o teu recorte sinuoso, da tua vista da Serra do Pilar, da forma como o teu rio chega ao teu mar e deste monstro musculado que é o teu Oceano Atlântico. Mas nada disto se compara ao quanto eu gosto da tua gente. Adoro a forma como moldaste o teu povo, a beleza da sua personalidade. Bonitas por fora há outras cidades no mundo, embora nenhuma chegue aos teus pés. Mas o que tu conseguiste fazer ao longo de toda a tua história, da pessoa que te habita, torna-te único, impar, imbatível e incomparável. Adoro sentir a tua gente, é mágica a simplicidade do seu puro sangue. Este sangue azul que ferve em pouca água, que vai sempre atrás das emoções, que não se esconde, que se orgulha do que é, e que transborda orgulho em ti. Este teu povo, de pura raça é o melhor que tu tens, é a tua faceta mais difícil de descobrir, mas de longe a mais bonita. Gente boa, gente nobre, gente que dava a vida para defender a tua honra. Pessoas que sem que tu saibas, tudo fazem para que tenhas orgulho nelas. Genuinamente fortes, cheias de vida, cheias da tua vida. Que bonita é esta tua gente. Orgulha-te muito disso, Porto! Não há alma como a alma das tuas gentes.

Gostava que soubesses o que sinto por ti. Gostava que soubesses que te amo, que te adoro, que não sei viver sem ti. Gostava que soubesses que dava a vida por ti, porque me deste tudo o que eu tenho. Gostava que soubesses que tudo o que queria era ser como tu.

Por todas estas palavras e por muito mais....

Gostava que soubesses o que sinto por ti..... PORTO!


http://porto.lecool.com/inspirations/querido-porto/

terça-feira, 3 de junho de 2014

Escrita Criativa 5)

Foi quando acordei e não saí do escuro.
Dizem que foi mentira, e eu sei lá! A rotura com a vida como ela era, deturpa-me o discernimento.
Abri, fechei, abri, fechei os olhos, e nada mudava... Perdido no espaço e no tempo.

Vítima de um passaporte apetecível, levaram-me na esperança que lhes valesse o meu peso em ouro. Mas o meu fado, não era para ser assim. Quis a teimosia da convicção de quem nada deu por mim, que a minha dor se perpetuasse no esquecimento, e fosse exemplar. E nada deram a quem faz do mal a sua vida.

Já não sei o que é não ter dor, mas a maior tortura é alimentarem-me e manterem-me vivo.

A alucinante solidão, mostra-me o caminho para a loucura que é, a minha mais doce companhia. Mergulho na completa insanidade, e dou aos braços em correntes e torrentes de pensamentos fantasticamente desprovidos de nexo.

Toda a construção de um ser, desmembrada, amputada, lobectomizada, pela retirada dos mais básicos pontos de sustentação de um humano.

Sofro, mas não choro.

Quase, me divirto na loucura. Quase, fascinado pela descoberta de caminhos labirínticos na mente que me fazem andar, sem me levar a destino nenhum. Quase, perco o sentido da vida. Quase, morro! Quase, perco a alma!

Mas agarro-me com fortes amarras a este “quase”, sabendo que disso depende a minha vida, ou pelo menos uma vida que ainda interessa.

E fujo, fujo, fujo dentro da labirinto da minha loucura, ouço de ecos de “quase” a pulsar no meu crânio, e corro, corro, corro... Mas tenho tanto de determinação, como de desnorte, e quando “quase” perco o folgo, sinto o teu toque.

Rodo-me para o ombro, que me tocaste, e volto a olhar a vida. Vejo a tua cara e sinto-me humano. E nas tuas rugas, nas nossas rugas, sinto o pulso das nossas vidas. Vejo as fotos dos nossos momentos, embalo na música da tua conversa, e grudo no ecrã com os vídeos dos nossos momentos de paixão.

Depois do que terão sido anos, sem te ver, pego na conversa, que nunca se interrompeu, e relembro o quanto gosto de te ouvir pensar, o quanto me inspiras, o quanto de amo.

Sinto-me feliz!


E ao abraçar essa felicidade, sozinho e na escuridão total, aprendo a mais importante lição de uma vida: “Aconteça o que acontecer, a felicidade depende apenas e só da nossa cabeça!”

domingo, 1 de junho de 2014

É isto que me motiva. É isto que me faz acreditar!



Achei que era importante partilhar, porque acho que é importante que percebam, aquilo que também agora, volto a perceber.
“Porque é q vais? Porque é q foste? Porquê? Porquê? Porquê?”Perguntas que me fazem e que eu próprio faço a mim mesmo, com alguma frequência.

O triste incidente, 2 ou 3 dias depois de ter passado a fronteira de regresso, só reforçou este exercício de auto-questão: “Porquê?”

Os perigos bem reais e conhecidos, talvez tenham até sido subestimados….e com essa constatação, o isolamento do resto do mundo cada vez é maior. Uma onda de raptos sem paralelo, leva a que cada vez mais não existam olhos que nos digam o que se está passar, e mãos que ajudem os que sofrem.

Esta carta ajuda-me muito, e espero que vos ajude também, a responder a algumas perguntas.

Acho que ainda é cedo para escrever sobre a Síria, mas vou aqui abrir uma curtíssima excepção porque recebi esta carta que abanou aqui a minha estructura.

É importante que nunca nos esqueçamos, que são estas as pessoas que aparecem nas estatísticas …..gente boa, seres humanos….como nós.

Na Síria, conheci e vivi, com pessoas fantásticas. As histórias de vida, desta Guerra contadas na primeira pessoa foi sem dúvida o que mais me marcou em toda esta experiência, muito mais do que as muitas bombas que caiam perto de nós. Em todas e como nunca eu sentia: “podia ser eu”, “isto podia me acontecer a mim”, “ e se fosse a minha família?”, “ninguém está livre que um dia o seu mundo vire de pernas para baixo e venha dar a algo parecido com isto!!” Estas histórias (que eu dia vos contarei), batiam-me muito forte, contadas por gente que aprendi a admirar e a respeitar à medida que nos íamos conhecendo melhor. Eles sabiam porque é que nós lá estávamos, e sentia que muitos davam a vida por nós e pelo que nós representamos…..e aconteceu, porem-se às frente de uma arma apontada a um de nós….entre muita outra coisa.

No dia 2 de Janeiro, grupos de gente mal intencionada, levaram 5 elementos internacionais dos Médicos Sem Fronteiras, …. E com eles levaram muito mais do que isso…..levaram ao encerramento de muitos hospitais dos MSF na Síria, levaram a que milhares de pessoas ficassem sem qualquer acesso a cuidados de saúde, e levaram a esperança. A esperança que algumas dezenas de pessoas carregam nas suas mochilas, ao deixarem os seus mais queridos a morrerem de preocupação, para que possam levaram a palavra de milhões, à Síria, ao vivo e a cores, para dizer “Nós estamos aqui!” “ Há muita gente no mundo que se preocupa convosco!” , apenas porque acreditamos que uma vida é uma vida, achamos que vale a pena levar cuidados de saúde de elevada qualidade, onde eles são mais precisos e onde ninguém quer estar. Eu não posso sequer imaginar, o que os meus 5 colegas e amigos passaram, e muito menos, a angústia das suas famílias, amigos e amores….do não saber….da incógnita…..das infinitas possibilidades de horrores que a nossa mente nos cria….. Terrível! Felizmente de volta a casa, mas com marcas profundas em muita gente, que não saiem com água e sabão, inclusive em mim.

Mas e há sempre um Mas. E os que lá ficaram. Os que ficaram sem amparo, este povo, cujos os adjectivos pecarão sempre por escassos, com famílias e famílias destroçadas. Uma nação ferida, um país a sangrar….Tantos e tantos!?!? E tão boa gente! E nós não vamos fazer nada? Depois de lerem isto ainda acham que é perigoso? Perigoso é deixarmos de dar valor à vida humana. Perigoso é perder e empatia pelos que sofrem. Perigoso é acharmos que as nossas vidas valem mais do que as deles….

Carta escrita aos MSF, de agradecimento da comunidade da cidade de Kafranjie, de onde vinha a maior parte do nosso staff, e muitos dos nossos doentes…


Façam click na imagem que vale a pena ler estas lindas e emocionares palavras!


É esta a minha resposta aos “Porquês?”

terça-feira, 27 de maio de 2014

Escrita Criativa - 4)



Esta é a história do Amor.
De amor? Não! Do Amor.

Quem me contou, viu tudo o que se passou.
Foi o Não. Sim, o João Não. E o Não não mente.

O Não viu o Amor nascer, na mais pura das pobrezas, com uma beleza ingénua de quem nada tem. As ruas moldaram o carácter do jovem Amor.

O Amor tinha aquela magia, de quem ri e faz sorrir. Tinha aquele encanto hipnotizante e contagiante, de quem brilha e faz brilhar. Nem o mais dos sisudos, resistia a anunciar a sua passagem com um: “Olá Amor!”.

Já na escola, o João Não seguiu de perto o brotar do Amor.  O Não não teria estado tão perto, não fosse a sua mais-que-tudo pequena Manuela, companheira de aventuras de meninos e meninas, na mesma sala de aulas do pequeno grande Amor.

Manuela de caracóis loiros, e olhos tímidos deliciava a classe docente. O seu também doce, saber estar, fazia prometer o fim da guerra no mundo, para as delícias do meu amigo Não orgulhoso.

O Amor cresce, a Manuela também, e o amor explode.

No antagonismo, se solidifica a cumplicidade. Crescem um no outro, impregnam-se mutuamente, por todas as linhas do corpo até às impressões digitais.

Mas calma! Desenganem-se! Esta é a história do Amor, não é uma história de amor.

Manuela Não, queria mais da vida, boa cabeça, muita ambição, foram os ingredientes suficientes, para voltar costas ao amor pelo Amor, e seguir sua vida para a capital estudar Direito.

Claro! O Amor escureceu de raiva... Com uma visão da vida mais curta, mais pura, mais intensa... O Amor sem amor perdeu o norte.

Diz o Não, que o Amor já não é humano.

O Amor misturou-se com o álcool, não se poupou às drogas, tornou-se agressivo. Uma besta, um monstro! Com os olhos raiados de sangue rosnava à vida, amedrontava as ruas.

Ocorreu um crime, nas ruas de toda a gente... Apesar de ninguém ter visto, os dedos foram todos na direcção deste horrível Amor.

Enjaularam-no como um animal, antes que a fúria popular desse a sentença antes do julgamento final.

Indiferente com o destino da sua alma, arrasta o barulho das pesadas correntes para dentro dum tribunal em fúria e diz o Amor: “Não fui eu!”

Já ninguém acredita no Amor. Mas a juíza, surpreendam-se, era a filha do João.

E, Manuela Não acreditava no Amor.



quarta-feira, 21 de maio de 2014

Africa Connections - A ideia era não escrever, para não lidar com as emoções.

(Já no Congo, província de Norte Kivu, Masisi. Algures ainda muito fresquinho, no início da minha temporada no Congo. Nesta altura era tão difícil, lidar com as emoções que tentava não o fazer. Escrever, era sinónimo de lágrimas, e esta foi das poucas vezes que o fiz, e apesar de quase não dizer NADA, custou-me imenso. A inexperiência que revelo, mostra uma ingenuidade da qual tenho muitas saudades.... Até mentia, para não dizer o que estava a sentir! Agora bem ao longe no tempo e no espaço, recordo com muito carinho, este email geral, que foi quase uma excepção à regra. Bons tempos. Saudades! Algures em Julho de 2009.)




Olá a todos

Escrevo-vos pq sei q mtos de vocês gostariam de saber algo sobre o q se passa comigo…Faço-o quase por obrigação e talvez perceberão porque com o decorrer do texto…

Cheguei a Kigali , na 4ª f e com o Genocídio de 1994 na cabeça, imagens do filme hotel Ruanda e com toda a carga emocional que este pais significava para mim … mas não , aparentemente estava bastante enganado ou desactualizado ….É um pais tranquilo aparentemente seguro onde as coisas funcionam relativamente bem para o padrão dos países africanos ….mas é África !! Tudo é diferente … Dormi uma noite num hotel bastante razoável …onde os empregados estavam “colados” no Michael Jackson memorial……fooodddaaaasssseeeee!! No dia seguinte acordei às 5.30 pq vinha um gajo buscar-me para atravessar a fronteira e levar-me até Goma (cidade logo após a fronteira)…Não posso dizer q tenha visto muito de Kigali mas é uma cidade altamente toda ela monte acima e monte abaixo….incrível mesmo foi a minha viagem até à fronteira. Foi incrível também …..o sol a nascer e paisagem de montes atrás de montes com vistas incríveis ! Estradas africanas….inexplicável  ….o q se vê a beira da estrada , por si só dava para escrever um livro….mas neste momento não estou muito virado para o feeling descritivo …..Nada para comer ….porque isto é assim ….na estrada não há nada !! Foram 3 horas e pico de viagem onde me apercebi o quão incrível e diferente é estar nesta África …. Ainda há bem pouco tempo estive em Moçambique , mas a surpresa da realidade q nos envolve é qs como se fosse a 1ª vez ….apesar de ser bem diferente do q Moçambique há mta coisa em comum a esta África ….negra , pobre, cheia de cores e cheia de vida ….

Cheguei à fronteira ….confusão , aquela tensão policial , mas que representado pela bandeira dos médicos sem fronteiras tornou esta passagem bastante rápida e simples….é reconfortante ver o respeito unânime que todos têm por esta organização e pelo trabalho por ela desenvolvido….como vos disse no outro email ….é com muito orgulho q represento esta Bandeira da MSF !

Passagem para o lado do Congo !!!  Uuuuuuuu……mto diferente …há uma tensão no ar , mtos gajos de mota com ar de trabalharem para um Lord of the war qualquer …aparentemente é uma cidade muito perigosa com as ruas num estado inacreditável, com um vulcão bem perto, activo e tudo feito de pedras vulcânicas , onde há também imensas ONGs representadas e onde a MSF-Belgica tem uma casa q serve como base para as mtas missões que tem nesta zona leste do Congo ….esta zona será provavelmente a zona de África que teve/têm mais guerras/guerrilhas nos últimos tempos e que já teve várias guerras as quais chamaram Guerras Mundiais Africanas por envolverem vários exércitos de vários países na pior das quais morreram mais de 5 milhões de pessoas a mais mortífera desde a segunda guerra mundial …

A casa dos MSF em Goma é bastante sweet em cima do lago Kivu e de onde se vê também o tal vulcão ….ai estive umas horas com outras pessoas q estavam a chegar de algum sitio ou de partida para algum sitio (como eu) q estava então de partida para o meu destino final e actual …Masisi ! Fomos num Jeep “à séria”….um daqueles verdadeiros todo-o-terreno …e disseram me q a estrada estava bastante boa , querendo dizer q estava bastante melhor do q por vezes está….Eu já vi algumas estradas em África e NUNCA tinha vista nada assim ….uma estrada muito hardcore de terra , cheia de pó , por isso é q diziam q já esteve mto pior, porque quando chove o percurso q eu demorei pouco mais de 3 horas pode durar 12 hrs ou até ser mesmo impossível de ser feita por ter buracos/desabamentos de terra onde nenhum carro passa e nessa altura tem de se fazer o Car Kiss onde vem um carro de cada um dos pontos e as pessoas têm de sair de um, ir a pé com as malas e passar para o outro depois do tal ponto intransponível por veículos ….mais uma vez numa paisagem muito montanhosa e bastante bonita fizemos 87 km sempre a subir pela beira dos montes ….o condutor de 10 em 10 minutos comunicava por rádio para os diversos pontos de control dizendo q estávamos em passagem para q não haja duvidas q estamos num carro da MSF q não oferece ameaça para ninguém !! Foi uma viagem muito desconfortável e ficamos cheios de pó dentro do carro …mas q comparativamente com alguns nativos q faziam a viagem de mota e de pretos passavam a cor de terra …estávamos num grande conforto…e assim começamos a avistar Masisi , uma vila toda ela numa colina, num sitio que parece os Alpes africanos , montes e mais montanhas mas numa paisagem e natureza africana….muito , muito bonito …fica a cerca de 1700metros de altura mas o topo da colina onde a cidade/vila se encontra terá uns 2000 metros ….mas é Lindo ! Incomparável com o q quer q seja q eu já vi ate hoje …. Há vários campos de refugiados há volta da cidade e mtas cabanas por todo o lado …

Aqui a MSF tem um escritório e a casa onde vivemos , difícil de descrever por ser um misto de o mais roots possível imaginário, mas com algum conforto dada a situação onde estamos inseridos…Vivemos aqui cerca de 10 pessoas expatriadas de vários países e parece me ser tudo boa gente ….alguns q já andaram por várias partes deste mundo o q faz de mim um bébé q está a viver estas coisas pela primeira vez …. O chefe (field coordinator) é um Belga com muita experiência e muito, muito respeitado por todas as partes ….o q é q são as partes e o porque desde homem ser tão respeitado provavelmente só vos explicarei quando voltar …

O hospital é a 300 metros da nossa casa e basicamente será entre estes dois sítios q passarei os próximos 3 meses e meio….durante o dia podemos andar pela vila, mas q não tem nada , a não ser cabanas e congoleses….à noite não podemos sair de casa a não ser q seja para ir ao hospital se formos chamados…O hospital é mais uma vez inexplicável ….é África!! e os desafios são constantes e intermináveis … Já vi coisas impensáveis e já tive de fazer o q nunca fiz e em condições 1000 vezes piores do q as q eram normais para mim….mas o nosso pensamento acaba sempre na conclusão q não podemos salvar o mundo de uma vez só e que mais ninguém tem 1 centésimo dos conhecimentos na minha área e como tal o meu melhor já não é nada mau ….

Há tanto para dizer q torna-se difícil sequer estabelecer as prioridades para o q é o mais importante para vos transmitir ….
Tenho uma espécie de horário , em q há uma rotação para estar de chamada durante as noites ….mas os “enfermeiros” de Anestesia q já fazem as coisas mais simples ou frequentes sozinhos têm a minha ordem de me chamar a qq momento se for algo mais grave ….por isso estou basicamente 24hrs à chamada todos os dias se for preciso o q me asfixia um pouco ….

Estou a aprender francês qd tenho tempo com o meu já amigo Cirurgião russo com um professor congolês e levo sempre comigo um livrito para aprender francês visto ser essencial q rapidamente consiga me exprimir mais e mais.... visto que como já imaginava o meu principal objectivo é mais do q o meu trabalho , tentar ensinar os tais enfermeiros q fazem anestesia e conseguem fazer algumas coisas bem feitas mas de uma forma muito mecanizada e sem conhecimentos qs nenhuns sobre a forma como praticam esta ciência tão importante e interessante q é a Anestesia ! Vejo no meu amigo russo ainda mais desafios visto para ele ser ainda mais difícil aprender francês e pq cirurgicamente está a fazer o q sabe e o q não sabe …..e  confortamo-nos um ao outro com as gigantes dificuldades q nos deparamos todos os dias profissionalmente e pessoalmente …

Há 200 a 300 partos por mês no hospital (fora as q ficam em casa ) ….é inacreditável ….o q torna o numero de cesarianas bastante elevado ocupando bastante a vida do bloco operatório…mtas infecções graves e também muitos feridos com armas de fogo .

È um misto de alegria e dor escrever-vos assim como ler as vossas respostas …é bom estar a ver as vossas caras enquanto escrevo este curto resumo de tanta vivência q tive nos últimos dias ….mas também me dói muito pensar naquele q vocês sabem ser o meu mundo ….e por isso comecei por vos dizer q escrevo-vos mais por achar q devo do que propriamente aquilo q me apetece fazer ….é difícil retratar a mistura de emoções que vivo neste momento , mas há também a salvaguarda q estou ainda num período de habituação e com o tempo vamo-nos adaptando a realidade onde estamos….e por isso vos digo muito sinceramente q para mim é importante q saibam q estou bem ….mas que dificilmente vos escreverei mais vezes….

Para animar um bocado !! MUZUNGU !!! Quer dizer homem branco em Swahili….e nos 300 metros que faço até ao hospital ….há milhares de crianças q fazem questão de TODAS a TODAS as minhas passagens fazer saber q sou MUZUNGU !! Mas é incrível ver a vida e os sorrisos de todas as crianças …e todas eles gostam de dizer olá ….é uma vida, uma energia q jamais se sente no nosso mundo !

Mto mais há para dizer, mas acho q até já fui longe demais…mtos de vocês mereciam uma palavra pessoal , mas mais dificil ainda se torna e como se aperceberam não tenho assim mto tempo livre ….

Ahhh….nao me posso esquecer q ando de rádio !! Comunicamos entre nós via rádio q dá uma onda do caraças !! Roger !! Copy !! Over !! e coisas assim ….

Para terminar ….a internet e mega lenta e nem sempre funciona assim como o meu telemóvel Congolês (+243818611121) aqui e mais uma hora mas vivemos mto ao sabor da luz do sol; por isso acordamos cedo e deitamo-nos cedo….mas vou lendo os emails por vezes ….Mas qd tenho chamadas nao atendidas, nao sei de que sao pq aparece um numero congoles.

Estou bem !! Perdido no espaço e no tempo …..mas estou bem !!

Um forte , forte abraço bem apertado e muitos beijinhos



Escrita Criativa - 3)





O meu nome é Ahmed. Não desistir da minha cidade, que eu amo, Aleppo, tem sido uma escola de vida.
Dizer que estou habituado, em nada ameniza a minha dor.
Tinha 17 anos, quando o rastilho da primavera Árabe, nos deu forças para ir para a rua, na crença que estava também na nossa hora de ser livres...

Mas aqui, os sonhos pagam-se caro!

A minha juventude, aliou-se à minha rebeldia, na luta pela utopia, e fui atrás das palavras de ordem que ecoavam, nas ruas do meu bairro; “Democracia, Liberdade, Fim da Ditadura”, para me juntar à manifestação dos que respiram o meu sangue. A minha mãe chorava, enquanto agarrava os meus 3 irmãos, e eu sem pensar, disse-lhe o que me ia na alma; “Mãe, vou para a rua, pela Síria! Se eu não voltar, é porque fui com ela!” E foi a última vez que senti o calor da minha mãe. Na minha ausência, um MIG, bombardeou o meu prédio, e com ele desapareceu tudo o que tinha.

A viver na rua, sozinho com o mundo, a minha luta mais difícil, foi prometer a mim mesmo, que nunca levantaria uma arma. Mas luto com a coragem inigualável de quem já não tem nada a perder.

Escrevo.
Leio.
Faço escrever.
E faço ler.

Aleppo despiu-se da sua alegria milenar, e viu fugir as suas mães e seus filhos, para bem longe dos seus horizontes, para bem longe dos presentes explosivos que recebe dos céus.

Eu escrevo e leio por quem o não sabe fazer, e todos os dias luto contra as probabilidades de quem entra e sai da cidade, para que o amor, os carinhos, as saudades, e os manifestos de esperança se façam chegar, entre a cidade e parte das suas gentes fugidas, nos campos de refugiados que cresceram como cogumelos na fronteira.

Mas aprendi, que viver é perder.

Já há muito, que não temo pelas bombas, mas o peso das cartas que carrego, não pára de aumentar. Todos os dias, vejo a dor das mães que cavam fundo, a ferida de quem perdeu um amor, o desespero das mulheres, que nunca mais terão quem lhes alimente os filhos.

Aqui os sonhos pagam-se em lágrimas, em sangue, em vidas.

E todos os dias me pergunto, com quantas vidas se escrevem as palavras, “DEMOCRACIA, LIBERDADE, FIM DA DITADURA”, nas terras da minha amada Síria?


Desistir? Não, obrigado!

Escrita Criativa - 2)





         Acordei num Sábado, ressacado e chateado com a noite anterior e com a vida em geral. Era tarde de mais para me sentir saudável, e demasiado cedo para não sair de casa... Era o momento para assumir algumas rotinas, para não perder o norte da vida. Tomo um banho e visto uma roupa qualquer.... Tenho um plano, é dizer a mim próprio que “está tudo bem” e refazer esse plano, a cada meia hora.
Não sei bem o que fiz ontem, mas hoje vou fazer melhor. Entro no café de sempre, abro o jornal, para me distrair com as letras grandes, enquanto tento acordar para a vida, ainda demasiado intoxicado para fumar um cigarro. A funcionar por puro instinto, ao passar os olhos na chave do Euromilhões, meto a mão ao bolso se trás, e alcanço o papel do dito jogo que cria excêntricos, com a ponta dos dedos da mão, que entretanto ficou cheio de tabaco e pedaços de mortalhas....
Não! Não posso acreditar! Arrebento por dentro, mas não me desfaço. Aguento a cara séria enquanto sinto a energia do meu corpo a multiplicar-se de uma forma exponencial e a transbordar por todos os poros do meu corpo. Fujo do café para refazer o meu plano. Não “está tudo bem”, está tudo inacreditável e espectacularmente bem!
Ora bem, o meu plano: comprar aquele carro que não anda, desliza ou se calhar compro três. Vou comprar aquele palácio em cima do mar, e dar festas todos os dias, cheio de amigos e aviões de mulheres de todos os países eslavos que me lembrar do nome. Comprar um jacto e mergulhar em todas as ilhas do planeta. Nunca mais vou trabalhar, nem eu, nem os meus muitos filhos que vou ter de várias mulheres.
Desaceloro as ideias, e olho para o papel. Será isto que me vai fazer feliz? Qual o valor de um carro que nos caiu nas mãos sem esforço? De que vale o dinheiro, que não representa o nosso suor? Que amores são esses comprados á medida, alimentados a dinheiro sem história?

Foi preciso estar tão perto de tudo o que achava que queria, para saber que não era aquilo. Nunca vi o meu plano de vida tão claro. Rasgo o papel, e tomo a decisão de ir à luta, com a certeza que a felicidade é o caminho e nunca o destino final.

Escrita Criativa - 1)



Parado no trânsito, nem para a frente, nem para trás, no horizonte, apenas as piores das heranças da humanização, carros, asfalto, fumos e betão. Nada para fazer, nada para ver, e nenhum sítio para onde ir. ERRADO! Está na mente a melhor das viagens.
Posso ver tudo, fazer tudo e ir para onde me apetecer. Liberto-me do tempo e do espaço, e deixo que o meu rol de possibilidades esbarre no infinito. Vou ser feliz. Vou até àquela praia idílica de areia branca e fina, água azul turquesa, abraçada por uma falésia gigante, com golfinhos a brincar com as ondas. Não!
Vou subir o Evarest, vou tocar no céu, vou perder-me no tempo, rodeado de montanhas brancas, e vales de cortar a respiração. Vou alimentar a minha espiritualidade, enquanto passo dias a conversar com a montanha. Não!
Vou ao fundo do mar, e de olhos bem abertos, ver as cores, ver as formas, ver a vida, ver a história dos barcos naufragados, ver os corais, ver as plantas, ver os peixes. Não!
Vou voar, vou sobrevoar a Amazónia, a muralha da China, vou ver o Nilo da Etiópia ao Egipto, vou ver os glaciares no pólo Norte. Não!
Vou andar para trás, vou ver como era a vida no útero da minha mãe, voltar a sentir o que sentia quando recebia o seu sangue, o seu oxigénio, o seu calor e os seus alimentos. Não!
Vou falar com os meus avôs, pedir que me ensinem a viver, que me digam o que não fazer, que me libertem um bocadinho da sua sapiência, para que eu encontre sempre o meu caminho. Não!
Vou dar um beijinho às minhas avós, dizer-lhes que tenho muitas saudades delas, pedir-lhes desculpa por todas as asneiras que fiz, e dedicar-lhes tudo aquilo que fiz bem feito na vida. Não!
Vou mais atrás, quero ver a cara dos nossos descobridores, quando se lançavam ao mar, sem saber se iam voltar. Vou dobrar o cabo da Boa Esperança ao lado de Bartolomeu Dias, vou engolir o mundo na caravela de Fernão Magalhães. Não!
Vou viajar ao futuro, ver quando é que acabaram todas as guerras do nosso planeta e aprender como é que as pessoas conseguiram viver na tolerância, e vou, na volta, trazer comigo essa mensagem de esperança....

O momento está na nossa cabeça e a felicidade sempre nas nossas mãos. Adoro estar parado no trânsito!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Africa Connections - O bilhete por baixo da porta

(Lembro-me como se fosse hoje, foi muito forte, muito intenso. Apanhei o taxi mais cedo para o aeroporto, para poupar dinheiro e aproveitar o voucher de um que estava comigo na "pensão super rasca", e quando finalmente tive uns momentos para pensar sentei-me em frente a um computador no aeroporto de Bruxelas, e escrevi de rajada estas palavras que revivo hoje e vos deixo aqui, enquanto chorava baba e ranho..... Sempre foi esse o me estilo, gosto de dizer o que sinto, mas muitas vezes é divicil fazê-lo em pessoa, por muitos motivos e como tal, este email que escrevi à família e amigos, é como de quem sai sem querer acordar e deixa um bilhete por baixo da porta!)

(Início de Julho de 2009, Aeroporto de Bruxelas)

(desculpem, as gralhas, a falta de cedilhas, etc, mas o teclado não era dos nossos :) )



Ola

 Estou neste momemnto sozinho no Aeroporto de Bruxelas, e tenho finalmente tempo desde os ultimos dias para pensar e escrever um email. Ha mil e uma coisas q gostava de dizer. Sem duvida a principal razao pela qual faco questao de escrever este email e para vos agradecer . Tenho inumeros motivos para vos agradecer . Agradecer a todos os presentes na minha festinha de despedida, adorei ter vos tido la, agradecer aqueles q nao podendo ir me ligaram ou escreveram a manifestar a tristeza de nao poderem estar presentes, agradecer pelas mensagens de apoio e forca q fui recebendo ao longo dos ultimos dias ....agradeco mesmo muito por tudo isso ! Tudo o que estou a fazer , faco-o por mim , com a total certeza que nao na tentativa de embelezar a historia da minha vida ou tornar-me mais interessante para os outros q tomei a decisao q tomei, faco-o porque vou a procura do que todos procuramos na nossa vida .....da Felicidade , e esta e uma forma que eu penso que vai ajudar a construir a minha .....ou seja ha muito egoismo neste aparente autruismo....Nao quero mesmo romancear uma historia que ainda nem comecou .... Queria no entanto dizer-vos q vos levo no meu coracao ....E bom levar comigo tantas memorias tao boas de tanta gente q eu sei q esta a torcer por mim , mas ao mesmo tempo e o q torna esta partida tao dificil e tao penosa sabendo das saudades q vou ter do meu mundo .... Levo comigo a cachecol do FCPorto, q neste momento representa muito mais do q um clube de futebol ....representa a cidade que eu amo , onde estao as pessoas q eu amo ....representa o meu mundo q eu levo aqui bem perto de mim ....e bem a vista para q todos vejam o q eu levo comigo .....nao consigo evitar que me caiam as lagrimas nos olhos ....vou para mto longe !! 

Nao so em termos de distancia real , mas acima de tudo de distancia e diferenca de mundos .... Nao sei bem o q me espera , mas apesar de muito cansativo o meu dia de ontem onde fui metralhado com informacao toda ela muito importante, tive a oportunidade de falar com muita gente q esteve para onde eu vou e fez parecer a minha viagem mais "normal" e "banal" retirando alguma tensao e carga emotiva q eu tinha .....E espectacular o mundo dos Medicos Sem Fronteiras ....e realmente um orgulho ser um grao de areia nesta imensidao de gente que tens os olhos postos em practicamente todos os cantos do mundo esquecidos por vezes inocentemente pela maioria dos mortais ....e incrivel a quatidade de gente q la trabalha e a forma como a organizacao se processa .....penso q dificilmente terao a noçao da grandeza desta organizacao ....na sede (e atencao q apenas possa falar da delegacao Belga q apesar de ser uma das maiores ha mtas outras) fala se todas as linguas ve se gente de todas as cores e sente se uma atmosfera incrivel de gente comprometida a uma causa q nem por um momento deixam de transparecer a magia daquilo q fazem apesar de o fazerem todos os dias .....ve se q tem mto orgulho e prazer naquilo q fazem , mesmo q tenham um trabalho "de secretaria" para q outros como eu possam ir para o terreno....O sitio onde fiquei a dormir em Bruxelas 2 noites , nao era mais do q uma pensao super rasca onde partilhei o quarto com um desconhecido.... Mas esta pensao super rasca era de uma senhora italiana que so recebia pessoas q estavam de chegada ou de partida com os Medicos sem fronteiras e q via se q adorava a pequena parte q tambem ela tinha nos medicos sem fronteras e recebeu me ja depois da meia noite de camisa de noite com muito carinho e como se eu fosse especial apesar de ter tido milhares de pessoas como eu na casa dela .....e os rapazes q estavam tambem de partida para Sudao, Bangladesh, Sierra Leoa trabalham como Logisticos e muito boa gente .....foi bom sentir esse calor !!!
Como todas as minha viagens começam. Eu, sozinho no aeroporto de mochila às costas ,
e a representação do meu mundo para me proteger.

 Tive sorte e tenho voo directo para Kigali (capital do Ruanda), ja nao vou ter de fazer escala e pernoitar em Adis Abeba....fico uma noite em Kigali e amanha de manha vou para Goma, cidade ja no Congo depois da fronteira com o Ruanda ond passarei tambem uma noite e posteriormente irei para Masisi onde irei ficar .....trabalharei no hospital local e pelo q me foi dito terei de trabalhar mto ....ate aos meus limites, tendo em conta q sao milhares os doentes que precisam de assistencia Anestesico-cirurgica....feridos de guerra, outras cirurgias urgentes e centenas de cesarianas....Ha varios medicos Congoloses q fazem Cirurgias e um Russo ....e algumas pessoas q fazem Anestesia q foram ensinados por Anestesistas ao longo dos ultimos 3 anos vindos dos MSFronteiras e eu contiuarei esse trabalho ate q alguem me venha substituir ....


 Nunca e demais repeti-lo ...... MUITO OBRIGADO e MUITO OBRIGADO
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