terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Hormonas Descontroladas - Parte 2

.......continuando.....


Duros golpes sofri eu, nesta minha missão do Paquistão..... nestas montanhas perdidas no nosso planeta, com uma população encurralada por uma problemática local, mas com contornos mundiais... Um povo politicamente muito activo que não hesita, em mostrar o que pensa. Muitas vezes, das formas mais horrendas que a humanidade já testemunhou, com ataques suicidas frequentes, com razões por vezes difíceis de entender mesmo para os mais atentos... O que é que é guerra? O que é que é terrorismo? Não sei..... Sei que ouvi na primeira pessoa histórias muito tristes de ataques cobardes, com drones telecomandados, matando imensos cíveis, mulheres e crianças sem se saber muito bem porquê!

Enquanto lá estava um americano, que pertencia a uma força secreta dos USA, os “Black Water” , daqueles que fazem o que querem sem ninguém lhes apontar o dedo, matou uma mulher paquistanesa, em circunstâncias duvidosas, em Lahore, uma cidade paquistanesa linda de morrer, que eu adorava visitar um dia... Preso pelas autoridades paquistanesas, este americano enfrentava, a mesma pena que qualquer assassino neste pais enfrentaria.....a morte. Mas, e porque manda quem pode, os USA secretamente, a custo sabe-se lá do quê, conseguiram extraditá-lo impune para os USA.....resultado? O esperado..... revolta popular, manifestações intensas em todas as cidades do país, por esta subversão ao poder dos $$$$$, os mesmos que entram o matam quem querem, sem fazer perguntas..... E nós, MSF e muitos outros certamente, ficamos “presos” em casa por razões de segurança, para evitar a fúria do povo contestatário..... 2 dias em casa... sem poder ir ao hospital..... onde apenas nos restava a esperança que a nossa ausência não fosse demasiado trágica para este povo que sofre....

Sempre me questionei: e se eu tivesse nascido do outro lado do planeta, como seria? Como pensaria? Quais seriam os meus valores? Os meus ideais?...... E ali a ver o mundo “do lado contrário”, as mesmas perguntas são feitas vezes sem conta ao vivo e cores..... Uma vida é uma vida! Será que os quase 3.000 mortos nas Torres Gémeas explicam os 200.000 mortos (....and counting) no Afeganistão?
Porque será que não há filmes Holliwoodescos destas infinitas histórias? Mas, o que é que eu sei???? Sou apenas um médico.

Mas é importante dissecar um bocadinho, o que é trabalhar numa zona de conflito..... Os MSF, estão presentes...... em TODO o lado onde é preciso.... e se estão em inúmeros países em guerra, não é para tratar os feridos de guerra..... Claro que tratamos, e muitos, feridos de guerra, mas são sempre uma minoria, diluída no grosso das nossas actuações.... Numa zona de conflicto há um colapso do normal funcionamento de uma sociedade.... os que podem fogem, mas a maioria não tem como, nem para onde...... e fica, e vive a sua vida, contornando os perigos da forma que pode...... resiste na esperança que um dia as bombas parem de cair do céu..... e os problemas de saúde, são os mesmo que todos temos..... mas sem meios básicos para serem tratados..... porque as estradas estão cortadas, os médicos fugiram, a electricidade é cortada..... e a sociedade retrocede 200 anos...... mas a vida continua..... sendo que a factura a pagar pelo isolamento cultural, sociológico, geopolítico é demasiado caro para os 99% que não tem culpa nenhuma das atrocidades que alguns fazem em nome do Islão..... O Noroeste do Paquistão é oficialmente uma zona de guerra pela quantidade de ataques às autoridades que decorrem numa base quase diária..... E nós lá estamos a tentar minimizar os estragos..... Acrescentando uma grande melhoria à qualidade de serviços médicos, prestados a este povo...... e deixando uma marca, em nome de todos os que fazem o nosso trabalho possível..... a marca de que “Nós preocupamo-nos!!” ....... nós achamos que uma vida é uma vida..... nós achamos que os seres humanos são todos iguais, nós acreditamos num mundo melhor..... Trabalhar numa zona de conflicto é abraçar a população...... e dizer-lhes “nós não vos deixamos sozinhos.....” nós vamos trabalhar como se tivéssemos uma motivação milionária, e vamos dar tudo para salvar as vossas vidas, as vossas crianças, as vossas mulheres....... todos, todos sem excepção...... e não queremos nada em troca ..... “facturamos” em obrigados, e tudo o que pedimos é de lá sair com o coração cheio de sensações de missão cumprida.... Salvamos vidas, ensinamos a salvar vidas...... e gosto de acreditar que deixamos sementes de esperança, de tolerância, de respeito pela vida humana....... e nunca, mas nunca nos resignamos com a indiferença......

E se fosses tu? E se fosses tu a nascer do outro lado do planeta?

E assim estávamos a lutar contra os ódios, a lutar contra a natureza, e a lutar contra a ignorância dos que abusivamente usavam da Oxitocina, com consequências trágicas para imensas mulheres que morreram nas minhas mãos e da Patrícia..... e foram no mínimo, demasiadas.....

Lembro-me bem de uma delas.... fomos chamados de madrugada, ainda não tinha amanhecido.... e lá vou eu e a Patrícia a correr para o hospital..... já era “quase” normal esta tragédia..... mais uma vida no limite.... mais uma mulher entre a linha da vida e da morte..... Sabemos o que temos que fazer...... ”é mais uma!”...... mas não conseguimos esconder uma certa ansiedade..... são poucas as situações na medicina em que um minuto conta tanto...... os 2 ou 3 minutos..... em que vamos de carro de casa para o hospital, são traduzidos em mililitros de sangue que esta mulher está a perder...... e cada minuto que passa as probabilidades de lhe salvar a vida, vão diminuindo exponencialmente..... e enquanto rapidamente recapitulamos os passos, que sabemos que temos que fazer...... olhamos um para o outro..... e silenciosamente concordamos reciprocamente; “Esta não!”..... O motorista, não fala inglês, mas sabe e sente o que vai nas nossas almas..... nas nossas cabeça..... temos pressa! “Emergency!”...... e ele sabe que as vidas da sua gente estão nas nossas mãos..... e sabe bem a sua parte nesta missão...... pôr-nos rápido no hospital...... Não há trânsito..... a cidade ainda não acordou...... chegamos a voar ao hospital..... saltamos do carro, e vai cada um para seu lado. A Patrícia, sempre limitada pelas regras culturais, não pode correr, e vai em passo acelerado para a Maternidade, ver como está a mulher..... e eu corro para o bloco operatório, pôr as coisas a andar..... preparar mais um campo de batalha..... uma batalha pela vida. Entre soros, seringas, e medicamentos nas mãos..... toca o meu telefone; “Mais uma! Vamos rápido!” diz-me a Patrícia....... os enfermeiros do bloco, correm de um lado para o outro para preparar tudo para a cirurgia....

Passados segundos chega a Patrícia com a doente envolta em lençóis encharcados em sangue...... mais uma rotura uterina..... mais uma mulher a minutos de morrer nas nossas mãos. Não há tempo para nada, “atiramo-la” para cima da mesa de operações...... está inconsciente, respiração profunda e muito rápida, mal lhe sinto o pulso..... não há tempo sequer para pensar..... é tudo, muito, muito rápido..... Apetece-me chorar..... mas respiro fundo e engulo em seco! Com a ajuda de uma enfermeiro às minhas ordens, em segundos anestesio a doente, entubo-lhe a traqueia e ligo-a ao ventilador...... não lhe sinto o pulso! Apetece-me chorar..... estou cansado, e sinto-me a lutar contra algo muito mais forte do que eu..... Peço silêncio, para ver se o coração parou.......... não parou, está viva!...... as tensões estão, muito, muito baixas, mas o coração ainda bate...... A minha esperança, não estava a viver um grande momento...... mas prometo a mim próprio que vou dar tudo, tudo, tudo até ao fim..... Digo à Patrícia para começar a cirurgia, que atira-se para cima da doente com o bisturi como se a sua própria vida depende-se disso.... não há gritos, não há pânico..... há uma comunicação expressa e eficaz de uma máquina pelas piores razões já bem oleada..... eu não tenho um segundo para ver a cirurgia...... ponho uma perfusão de adrenalina a conta gotas e "pico" a doente em todos os sítios que encontro para os fluidos correrem nas veias o mais rápido possível...... espero ansiosamente pela chegada de sangue para a transfundir...... que chega entretanto e eu rapidamente, ponho a correr na doente..... Tenho 5 ou 6 Litros de soros a correr, sangue a correr e a perfusão de adrenalina....... Sai o bebé morto..... ainda lhe ponho a mão no cordão umbilical (para lhe sentir o pulso) numa esperança quase ingénua que o pudesse reanimar....... mas já estava morto há muito....... nada a fazer...... já quase não sentimos esta perda..... São tantos, nado-mortos, que a grande prioridade nestas situações ultra-críticas é a mãe...... pois tem outros filhos em casa certamente.... “Patrícia, como é que estamos?”...... pergunto à cabeça da doente no meio das minhas múltiplas tarefas.......”Tinha uma rotura uterina de um lado ao outro, mas já lhe parei a hemorragia”............ ufffff....... ela é muito rápida a operar...... Respiro pela primeira vez fundo passados uns minutos...... A situação é grave, é muito grave...... mas já não sangra..... tento fazer um ponto da situação para mim próprio.... “E agora?”........ recebo a trágica notícia que não há mais sangue disponível.... Finalmente tenho tempo para lhe ver a hemoglobina..... Tem 3 ( o normal é de 13 a 18 num adulto normal) de hemoglobina..... Sinto uma raiva interior enorme: Que MERDA! Logo agora, não temos mais sangue...... estas coisas, não vêem nos livros, mas se eu achava que ela ia morrer há 20 minutos atrás...... agora tinha poucas dúvidas..... e dizia para mim “Não tem hipótese.... vai morrer..... mais uma!” A Patrícia, termina a histerectomia (retira-lhe o Útero)...... e acaba a cirurgia...... cumpriu a sua parte do nosso “pacto mudo”....... E agora é comigo.....e eu estou na merda!

Tenho uma doente que se esvaiu em sangue, já recebeu duas unidades de sangue, e agora tem 3 de hemoglobina, tem os pulmões “encharcados” em água pelos fluidos que eu tive que dar, e precisa da perfusão de adrenalina para manter a tensão arterial em valores compatíveis com a vida......”E agora?”...... mesmo com a medicina de primeiro mundo não sei se o cérebro não sofreu já danos irreversíveis, não sei se ela sobreviria num qualquer dos melhores hospitais do mundo..... e ali estava eu, seguro, mas cheio de dúvidas....... Precisava de Cuidados Intensivos...... e daqueles a sério! E eu estava sozinho, ninguém a quem passar a responsabilidade, no que à Anestesia e Intensivismo diz respeito, e tinha condições muito limitadas...... bem eu tentava.....

A situação estava agora nas minhas mãos, razoavelmente estável.... mas extremamente critica...... ufffff....... Perguntei a um enfermeiro, porque muita coisa me escapava quando falavam em Pashtun; “Qual é o grupo sanguíneo da doente?”......”A negativo!”....... bem aquilo atingiu-me como uma flecha no coração...... é o meu....... e ai vem a pergunta e “E agora?”...... E que tal este dilema? A partir daquele momento sou o único que pode aspirar ter os conhecimentos médicos que lhe eventualmente poderiam salvar a vida......... e sou o único dos presentes que tem um grupo sanguíneo compatível com o desta jovem rapariga com a sua vida presa por arames...... Várias vezes prometi a mim mesmo, não fazer nada de estúpido...... E bastante cansado, com muitas horas de trabalho com esta doente, pela frente, retirar 500 mL do meu sangue podia não ser boa ideia.... Não estava propriamente no meu estado normal, e nunca dei sangue na vida, porque os médicos não podem...... não sei como iria reagir o meu corpo...... Mas, se eu não desse o meu sangue era impossível, que ela sobrevivesse ...... Também sabia que era contra as regras dos MSF.... mas eu tinha que fazer, o meu compromisso é com a vida, e era uma rapariga nova, nos seus 20 e tal anos.....

Dou instruções a um enfermeiro para gerir a perfusão de adrenalina de difícil controlo a conta gotas, consoante a tensão arterial, e peço a alguém para me levar para o Laboratório, para dar o meu sangue..... estava cheio de dúvidas..... e isto podia correr muito mal, ........ e se eu não conseguisse trabalhar com a força toda neste dia depois de dar sangue?..... Foi há quase 3 anos e lembro-me como se fosse hoje, sento-me na cadeira confortável de dador, e apercebo-me como o meu corpo está cansado, a pedir descanso...... Apertam-me o garrote e saltam-me as veias..... tiram-me uma amostra para fazer o cross-match do sangue com a rapariga..... e fico sozinho 2 ou 3 minutos na sala..... Passou-me a vida toda à frente...... Não estou assim à tanto tempo fora de casa..... mas estou tão longe que morro de saudades..... as barreiras culturais, os mundos diferentes, tudo, tudo é tão diferente que sinto que não foi só uma viagem de Portugal para o Paquistão..... foi uma viagem no tempo..... Penso se não estarei demasiado envolvido, se não estarei a fazer algo de muito estúpido...... mas já me tinha morrido tanta gente nas mãos por esta altura..... que tinha que tentar tudo...... nunca soube viver pela metade...... e já paguei muito por isso..... E estava a ver tudo isso e muito mais, ao olhar para o meu braço garrotado...... quando vem o técnico de laboratório e me diz; “Sir, you are not compatible..... you are A negative!!”...... ”O quê???? Mas a doente também A negativo!” .....”No sir, she is B negative!”....... que balde de água fria..... a pronúncia de Inglês dos Paquistaneses é medonha..... e eu várias vezes perguntei se ela era A neg, e eles confirmaram..... mas foi um erro algures na comunicação...... pois os enfermeiros sabiam que ela era B neg........uffff....... ”E agora?”...... sentia as minhas possibilidades de lhe salvar a vida, a irem por água a baixo....... mais uma batalha perdida..... mas quando vou a sair do laboratório, vejo muita gente à espera à porta do laboratório..... Tinham respondido às chamadas de pedido de sangue que surgiu entretanto (sem eu me aperceber), e marcavam agora a sua presença, com o acordar da cidade..... Fiquei emocionado, por ver aqueles homens, de barba longa manta cruzada aos ombros e chapéu Taliban, a descongelar do frio que se fazia sentir lá fora...... completamente comprometidos com a tentativa de salvar a vida desta rapariga..... Qualquer um deles seria parado em qualquer aeroporto do mundo e tido como terrorista..... mas acreditem no que vos digo..... é boa gente como nunca vi..... um povo fantástico, com uma alma que me transcendia.....

Preocupado, volto para o bloco, a correr...... com a esperança que o sangue estava provavelmente “encontrado”.... A aproximar-me da doente, avalio que está tudo mais ou menos como deixei..... estável, mas muito, muito grave e dependente do ventilador, de cuidados muito específicos, e de mim.... A partir daqui vai ser a doente que me vai ter de dar algumas respostas; será que vai acordar? Será que vai ter força para respirar sem o ventilador? Será que vai deixar de precisar de adrenalina? Será que o rim vai funcionar? Se falhar a alguma destas perguntas, é o final da história, para esta mulher, e mesmo que consiga ultrapassar todas estas questões ainda estaria demasiado longe de estar a salvo.....

Chegam, 1, 2, 3 unidades de sangue, a cada meia hora, e vamos transfundindo a doente, e com sucesso vamos medindo e vendo a hemoglobina a subir para perto dos 9, mais do que aceitável, para um doente critico...... com isto o sol começa a entrar, no bloco operatório e recebo energias renovadas...... A Patrícia, já há muito tinha voltado para a maternidade, pois o trabalho continua, e os enfermeiros da noite trocam o turno, com os enfermeiros do novo dia..... mas eu fico.

Quando finalmente tenho tempo vou, com um enfermeiro para traduzir, à porta do bloco operatório falar com o marido..... A indumentária não muda muito, shalwar kameeze, um Patu (manta) traçada aos ombros e chapéu estilo Taliban, e sandálias abertas, barba comprida. Tinha cerca de 30 e poucos anos, quando me aproximo vejo pânico na cara dele..... Eu ainda não tinha tido tempo para pensar na família da doente...... Explico ao marido, o que se passou até agora..... e vejo-lhe as lágrimas.... respiro fundo e tento conter as minhas. Mas como qualquer pessoa que ouve um médico a dizer blá, blá, blá....... traz rapidamente a conversa ao básico; “Doutor, ela vai morrer?”....... era nem mais, nem menos a pergunta que me fazia a mim mesmo desde que sai de casa, há cerca de 3 horas, e respondo......”Estou a fazer tudo o que posso, mas acho que ela tem poucas hipóteses de sobreviver!”..... Depois de sair a tradução da boca do enfermeiro, o homem olha-me nos olhos..... encharcado em lágrimas e diz-me; “Doutor, em nome de Allah, salve a vida à minha mulher, por favor, e eu prometo-lhe que Allah guardará um lugar para si!!”.... enquanto ouço gritos de desespero dos restantes membros da família que também ouviam a conversa.... É impossível, não sentir o peso destes momentos, mas fazem parte do meu trabalho..... e ainda era cedo para deixar entrar os meus sentimentos.....

Em histórias anteriores, contei-vos histórias que mostravam uma parte muito negra desta cultura, um desrespeito pela vida humana, em especial pela mulher..... mas felizmente são minorias...... a maioria do povo que conheci, sente como nós, como qualquer ser humano,..... ama, chora, sofre, ri, sente...... e uma vida é uma vida! E no meio de tudo isto, foi bonito ver o amor deste marido pela sua mulher.

Volto para junto da doente..... na esperança que não seja chamado para outro doente urgente, e à espera que esta mulher me responde-se às perguntas, que iriam dizer se ela vive ou morre..... O organismo dela sofreu uma agressão brutal, e a resposta a todo este processo nunca acontece em horas..... mas eu estava disposto a tentar o impossível.... e como escrevi no início desta história, já tinha no meu currículo algumas situações semelhantes, sempre sem sucesso, embora na medicina, nunca há 2 casos iguais....

Aos poucos a doente começa a dar sinais que o seu diafragma funciona e que quer respirar, ainda completamente inconsciente..... Os pulmões tão cheios de fluidos e nunca serei capaz de a tornar independente do ventilador se tiver tanta água nos pulmões...... mas para isso o rim precisava de dar um ar da sua graça, o que ainda não tinha acontecido.... Estimulo a diurese com diuréticos..... e o rim começa a ajudar a “secar” os pulmões..... E aos poucos ...... muito lentamente...... ela vai respirando com mais força.... E desconecto-a do ventilador, ainda com o tudo na traqueia, vou ventilando-a com o Ambu à mão..... para testar a sua autonomia ventilatória..... que aos poucos vai se tornando mais exuberante...... “E agora? Tiro ou não tiro o tubo?”...... é uma pergunta fatal! E isto é um processo muito lento, a ver as horas a passar.... Mas à medida que ela vai ficando mais reactiva, torna-se uma dor de alma, assistir a este “espectáculo”...... Não tem força para respirar, mas tenta reagir contra o tubo, e com grande esforço mexe os ombros e os braços a tentar respirar..... é horrível sentir este sofrimento...... mas não há outra forma de o fazer..... Vou ganhando coragem para resolver a minha dúvida vital e decido tirar-lhe o tubo..... Sinto que ela já tem força para respirar, mas terá tonicidade muscular suficiente, para manter a via aérea patente...... língua, faringe? Respiro fundo e tiro-lhe o tubo....... uffff....... ela perde algum vigor ao respirar, porque a reactividade ao tubo na traqueia estimulava-a bastante...... A saturação de oxigénio começa a descer rapidamente..... e um agarro-me ao Ambu e à mascara de ventilação, e fico colado à doente, com as mãos quase em tetania de tanta força fazer ao ventilá-la...... mas na minha cabeça ouço a minha voz; “ela vai morrer, ela vai morrer...... mais uma que vou perder nas minhas mãos!”..... mas vou aguentando-a..... e a saturação de oxigénio começa a subir lentamente.... vou coordenando o esforço respiratório dela, com as minha ventilações..... durante cerca de uma hora fico neste “jogo”, até que ela com a tronco e a cabeça bem levantados consegue respirar sem a minha ajuda...... uma vez mais um terror para os olhos, a percepção do esforço que ela fazia para respirar..... e totalmente inconsciente......

E com isto já passaram muitas horas..... já estamos a meio da tarde..... começo agora a pensar na difícil tarefa de a passar para o recobro, para finalmente libertar o bloco operatório..... a maca de transporte, não permite a elevação do tronco, nem o oxigénio é portátil, nestes escassos minutos que ia precisar de a passar de um lado para o outro..... bem..... a situação é tão tão complicada, que esta simples horizontalização a acrescer à falta de oxigénio..... são quase suficientes, para deitar tudo a perder... a doente abafou e quase que teve paragem cardíaca..... mas eu e os enfermeiros conseguimos reverter este quase colapso..... quase que morro de susto.....

Vou novamente falar com o marido..... quando finalmente tinha alguma coisa para lhe dizer.....”Doutor, ela vai morrer?” diz ele numa ansiedade brutal.......”Já passou uma fase que eu tinha dúvidas que ela sobrevivesse, mas ainda tudo pode acontecer....” ..... nada disto está escrito nos livros..... não há forma de responder a estas perguntas de uma forma objectiva.....

“E agora?” suspiro..... a doente está inconsciente, respira com muita dificuldade e com grande necessidade de oxigénio...... e a maldita e perigosa perfusão de adrenalina, que nestas condições, tanto me assusta..... mas eu agora começava a sentir que ia cumprir a minha parte do pacto mudo com a Patrícia; “esta não”..... mas e se eu tivesse a salvar a vida a uma mulher com danos cerebrais irreversíveis..... sentia um aperto no estômago......

Com a adrenalina, muito bem controladinha, e explicadinha a um enfermeiro a quem “obrigo” a vigiar a doente com monitorização clínica constante......volto para o bloco operatório, pois tínhamos alguns doentes para operar..... que tinham ficado em stand-by.... pois eram urgentes, mas não emergentes...... e assim anestesio 3 ou 4 doentes, em permanente entra e sai do bloco operatório (ao lado do recobro), para ver como estava a doente no recobro......igual!!! E isso para mim já era uma vitória nesta fase..... e assim entramos pela noite dentro..... doí-me o corpo todo, mas a pequena possibilidade das coisas correrem bem enche-me de energia..... Está na altura de mudar a doente para o internamento...... ufffff...... mais uma aventura...... ela está ligeiramente mais estável...... mas ainda tão perto de passar para o lado de lá da linha da vida..... Mais uma aventura de cortar a respiração, pela noite gelada, ao ar livre levá-la a correr na horizontal e sem oxigénio...... são dois minutos que parecem horas..... a doente quase que abafa novamente, mas quase nem me assusto, pois não foi tão grave como a primeira passagem.... Dou instruções ultra-precisas sobre os soros, a medicação..... e claro, a maldita adrenalina que a mantém vida, a conta gotas..... se por algum motivo deixa de entrar a doente morre, e se perfunde demasiado rápido morre também...... é muito, muito arriscado, e os enfermeiros são muito dedicados, mas nunca tinham visto nada assim, e há coisas que por mais que tentemos explicar..... não podemos condensar anos de estudo e treino, em minutos de conversa..... Dou ordens, em que os “obrigo” a repetir várias vezes, sobre a frequência dos sinais vitais, e os limites a partir dos quais tinham que me ligar para o telemóvel..... uma folha A4 de instruções.... não sei mais o que devo fazer...... estou exausto, sinto-me bem..... mas quase morto...... tenho medo de ter esperança, pois sei que as probabilidades de correr mal, são gigantes...... não sei se devo ou não ir para casa..... mas meu grande amigo Yaroslav e a Patrícia, quase me obrigam...... e reconfortam-me, com eventual boa vigilância dos enfermeiros.....

Vou para casa, devem ser 9 ou 10 da noite..... já não como há mais de 24 horas...... e por isso devoro a comida fria..... não consigo parar de olhar para o telemóvel, à espera de ser chamado! Deito-me na cama...... parece que me bateram no corpo todo..... são muitas noites mal dormidas..... e muitas horas a trabalhar muito intensamente...... Tento dormir..... mas não consigo, vejo e revejo o filme da doente, toda a ciência que tenho na cabeça passa-me à frente dos olhos......”e agora? E agora??”..... o que vai acontecer? Será que ela vai sobreviver? Se sim será que vai “acordar”?...... o que é que eu estou a fazer?? Bem.....não consigo..... já está tudo a dormir, mas eu não consigo...... parece-me impossível que ela não tenho passado dos limites por mim definidos para me chamarem..... entre oxigenação, frequência respiratória, frequência cardíaca, tensão arterial, diurese, etc..... algum tinha que estar a falhar ....era impossível! Salto da cama e vou para o hospital..... o marido vê-me a entrar e fica em pânico..... deve estar morto de cansaço, foi o único que dormiu menos que eu...... mas solto das poucas coisas que sabia em Pashtun “ Mushkil Nista”—“Não há problema”....... para o reconfortar...... O profissionalismo dos enfermeiros impressiona-me... está tudo super bem registado, e vê-se que cumpriram à risca as minhas complexas ordens..... a doente está igual ao que eu a deixei..... o que para mim, neste momento é o melhor que posso esperar...... volto para casa, ligeiramente mais tranquilo.....

Nestes momentos até nos esquecemos que estamos numa zona de guerra e que rebentam bombas todos os dias..... volto para casa para dormir, num sono algo em sobressalto, não fosse o telefone tocar e eu não ouvir.... Ao acordar de manhã, a minha ansiedade o meu nervosismo é como o de uma criança na manhã de Natal que já não aguenta mais e tem de ver o presente pelo qual espera à muito..... Partilho as minhas dúvidas médicas, com os meus colegas e só quero ir para o hospital rápido..... Nem consigo acreditar que não me ligaram....como é que é possível???

Ao chegar ao hospital corro para o internamento feminino, para ver a doente..... Avalio-a rapidamente analiso como um computador a evolução dos sinais vitais, dos soros, da medicação, da diurese...... e da maldita adrenalina..... Parece estar tudo a melhorar..... e a perfusão da adrenalina, já está a uma velocidade cada vez mais baixa....... uffff....... ainda tenho medo de acreditar!!! Será que é possível que ela vai sobreviver??? Tento parar a adrenalina, e a tensão arterial aguenta-se no limite..... e assim fica...... é menos um prego no meu coração..... Mas a doente continua inconsciente, practicamente não responde sequer à dor.....

Continuo o meu trabalho, há muita coisa para fazer..... mas entre cada cirurgia, corro para o internamento, para ver como ela está..... melhorias muito, muito discretas, mas parece-me a melhorar..... A meio da tarde, quando estou no bloco, com o Yaroslav..... liga-me a Patrícia: “Ela falou, ela falou”....... mal posso vou a correr confirmar...... está muito mal ainda, mas responde a perguntas simples e diz umas palavras....... Sinto o corpo todo a tremer..... quase que expludo de alegria.... está viva..... e o cérebro também...... Explico ao marido o ponto da situação, mas contenho-me na esperança, pois ainda muita coisa podia acontecer..... deixo o hospital ao fim do dia, com muitas promessas reforçadas e multiplicadas por parte do marido, das coisas fantásticas que Allah, ia fazer por mim.... Claro que as instruções aos enfermeiros são as mesmas, e até os obrigo a testar a ligação para não haver dúvidas, estou super contente..... mas cheio, cheio de medo de ter falsas esperanças..... eu não ia aguentar, mais uma morte nas minhas mãos....

Acordo de manhã com a sensação, que o meu sono foi profundo de mais..... em sobressalto olho para o telemóvel, que não revela actividade nenhuma...... nem consigo comer, corro para o hospital...... e para meu espanto, quando estou a chegar ao pavilhão do internamento, o marido agarra-se a mim, e abraça-me com toda a força..... não percebo nada do que me diz, mas a linguagem verbal e corporal, não deixam dúvidas...... naquele abraço, vejo o meu esforço compensado,........ não controlo, e começo a chorar..... já era altura de soltar as emoções..... Entro e vejo a doente ainda prostrada, mas completamente desperta, com discurso fluente, e beber chá devagarinho...... Avalio-a e os registos dos enfermeiros, que me enchem de sorrisos, ao me entregarem o processo da doente...... está tudo, muito, muito, melhor....... está viva, e está fora de perigo: “yyyyyuuuuuppppiiiiieeeeeeeeeeeeee!!!” ....... passados 3 dias teve alta do hospital como se fosse outra doente qualquer a andar pelo próprio pé... Eu olhava para ela como se fosse o centro do mundo....... e ela nem sabia quem eu era!

Foram 8 mulheres que nos morreram no bloco operatório, nas mãos!.... em apenas 1 mês, nas minhas e da Patrícia, sangue esse que eu ainda vejo quando olho para as minhas mãos.... e muitas mais morreram que nem chegaram ao bloco operatório..... mas foram muitas, muitas as vidas que salvamos..... muitas no limite, com contornos quase surreais, como a que vos acabo de contar...... e ai tudo vale a pena! As lágrimas, os riscos da guerra, as mágoas que deixamos no aeroporto.... tudo vale a pena, porque há muito mais pessoas boas do que pessoas más em qualquer lado do mundo.... E este povo deu-me lições para a vida, inspiraram-me e reforçaram a minha esperança por um mundo melhor!

Patrícia.......desta vez cumpri a minha parte do nosso pacto mudo; “Esta não!”

Na província do Noroeste do Paquistão, várias vezes senti ódio e raiva, mas muitas, muitas mais, senti amor e amizade por esta gente Pashtun fantástica..... que me fizeram tantas vezes acreditar num mundo melhor, numa das zonas mais conturbadas do planeta.....

“Esta não!!”......”Este mundo Não!!!”..... é o único que temos e temos que lutar e acreditar por um mundo melhor até ao fim.... mesmo sabendo da dificuldade da batalha, desta dura batalha contra as.......




........ Hormonas Descontroladas !!!!! (parte 2)




terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Hormonas Descontroladas - Parte 1




No limite, para mim a minha missão no Paquistão foi no limite....... no limite da minha resistência física e psicológica, e claro está as duas inter-relacionadas. O volume de trabalho era imenso e estava 24 horas, sobre 24 horas de urgência, 7 dias por semana, tive momentos em que pensei que não aguentava mais, mas o peso da responsabilidade, a motivação causada pela envolvência levavam-me a não fraquejar..... por vezes gosto de viver no limite, mas foi sem dúvida alguma, demasiado. 

À semelhança de todas as minha missões além fronteiras, a riqueza dos casos clínicos era imensa, vi coisas interessantíssimas, e muitos foram os desafios intelectuais, que me agarravam aos livros de medicina, na tentativa de ser útil, mas como já toquei aqui e ali, em histórias anteriores..... foi na Obstetrícia, que surgiram os meus maiores desafios, as minhas grandes vitórias, e pesadíssimas derrotas. Para um Médico Anestesista, aquilo que eu vi não se vê no nosso mundo, e para mim o extremo quase que se tornou normal, mas à custa de muito suor e lágrimas. A riqueza da patologia obstétrica, para o mal daquelas mulheres, era incrível.... Um médico aprende a gostar de doenças e eu não sou excepção.... se não existissem, se fosse fácil..... eu não estava ali. Adorava não ser preciso, mas infelizmente aquele hospital, era tudo menos monótono.

Zonas como a província do Noroeste no Paquistão, quase que juntam o pior de vários mundos. Por um lado, estamos a falar de uma das zonas mais pobres do planeta, miséria profunda como o pior que se vê nas piores zonas de África.... Pobreza, ignorância, falta de formação transversal a quase todos, péssimas condições de higiene e de vida, e de tudo o que tem de mau uma zona extremamente sub-desenvolvida. Por outro lado, mesmo numa zona de conflicto como aquela, há uma certa proximidade à civilização, sendo que o Paquistão tem grande desenvolvimento em certas áreas, grandes cidades tecnologicamente evoluídas.... e têm mesmo “A Bomba”.... atómica. Há um gigante contraste dentro do mesmo país, o que faz com que aquela zona, una numa simbiose maléfica o pior da pobreza e do desenvolvimento..... Medicamentos, pois...... Medicamentos! No mercado negro podia-se comprar todo o tipo de medicamentos, muitos claro, de contrabando e imitações vindas sei lá de onde (da Índia ao que se diz).... e para meu espanto até medicamentos de elevadíssima responsabilidade e difícil manuseio, só paras mãos de um anestesista eram vendidos no Bazar, de qualquer cidade. E agora, muitos destes medicamentos caiam nas mãos daquilo que eu chamaria uma evolução de curandeiros e bruxaria, mas agora com muito mais “armas” para tratamentos fatais.

E quem são as vítimas? As principais vitimas? As mulheres, claro. E a história que tenho para vos contar, está directamente ligada às mulheres em trabalho de parto e à Oxitocina. A Oxitocina é uma hormona feminina, produzida e libertada em grandes quantidades pelo corpo de uma mulher durante o parto. Promove as contracções uterinas e assim a saída do futuro recém-nascido, para este mundo. Mas a Oxitocina, é também utilizada como um medicamento, por parte dos médicos obstetras, sobre indicações especificas e controlo apertado, para induzir/acelerar o trabalho de parto... E perante isto, penso que começam já a imaginar..... Noroeste do Paquistão, terra longínqua, relevo muito montanhoso, e clima muito hostil, fazia com que as distancias fossem vincadas, numa grande dificuldade de chegar ao hospital, misturado com crenças locais de que estes ou estas praticantes de uma medicina, ignorante, negligente e até criminosa.... utilizassem a Oxitocina injectável, sem grande critério como “remédio santo”, para acelerar o parto.....

Parteiras, curandeiras, ou qualquer coisa do género eram uma epidemia, e as histórias das suas prácticas que nos chegavam ao hospital, assustadoras.... O Útero é um órgão cuja a compreensão biológica é fantástica, tem uma “ginástica” absolutamente incrível, e a sua transformação, na gravidez, durante o parto e logo após, é espectacular..... Altamente irrigado por uma enorme quantidade de sangue no seu apogeu, aquando do parto, para alimentar toda esta ginástica e ainda, a placenta-cordão umbilical-feto! E a Oxitocina, esta fantástica hormona a “controlar” todo este processo.... O que é que acontece então no meio daquelas inóspitas e geladas montanhas? Estas raparigas, quando o parto está demorado, recebem este “estímulo” extra, para dar mais força ao Útero, mas se por algum motivo o feto, não pode sair por via vaginal, as dores são horríveis e o músculo potente do Útero sofre uma rotura, e com quase certeza, se esta parturiente não tiver acesso a um hospital com médicos a sério, vai se esvair em sangue até à morte.....

E esta hormona da vida, rapidamente quando usada por quem não devia, se torna num empurrão para a morte!
Uma das muitas razões para o mulher morrer durante o parto.... mas não a única. Numa terra com uma elevadíssima taxa de natalidade, todas as outras causas, para nós raríssimas, lá são muito frequentes..... Placenta Increta, e Acreta, Abruptio, Atonia Uterina, Pré-Eclampsia e Eclampsia, etc ...... todas elas com apresentações gravíssimas e tardias.....faziam o meu dia-a-dia, um prato cheio de adrenalina a salvar mulheres, e quando possível a reanimar os recém-nascidos que vinham ao mundo em grandes dificuldades, na luta pela sobrevivência.

Foi duro, foi intenso..... muitas vezes no limite.... mas levei daqui uma lição para toda a vida. Eu, a Patrícia, e os enfermeiros do bloco Paquistaneses que eram fantásticos, e nos apoiavam até à exaustão.

Eu nunca tinha visto, a Patrícia também não e os enfermeiros estavam incrédulos com o nosso “azar”! Morreram-nos 8 mulheres, num mês, no bloco operatório.....literalmente nas nossas mãos! E a estas acrescem as muitas que nunca vimos, aquelas que morreram antes de chegar ao bloco, e as poucas que morreram depois da cirurgia. De Bruxelas (Centro dos MSF-Bélgica) pediram-nos “explicações”..... para estes gritantes dados estatísticos.... Que para nós eram dor, suor e lágrimas. Confrontados com este pedido, vieram-nos as lágrimas aos olhos.... apetecia-nos dizer “Venham aqui ver!!!”..... mas sabíamos que o pedido era legítimo e educadamente respondemos detalhadamente num relatório sobre todas as vidas que nos fugiram neste mês.... e foi duro pôr no papel as nossas lágrimas..... assim como eu faço agora. 8 mulheres.....jovens......mortas.....nas nossas mãos!

Eu não gosto falar do que não sei, e não sou de elogios fáceis... Mas a Patrícia, não deixava ninguém indiferente..... Médica Obstetra, raça latina, frieza alemã.... Rápida a pensar e ainda mais a operar! Um furacão de energia que levava tudo à frente, apesar da sua aparência frágil.... Nunca vi nada assim. Extremamente rápida...... e abraçava a causa como poucos. Funcionava às 4am como se fosse normal....
E eu? Bem....não sei....deixo para os outros a minha “avaliação”! Mas dei tudo, TUDO....o que tinha.

E eu e a Patrícia, bem auxiliados pelos enfermeiros, com as mãos ensanguentadas, deixávamos o corpo e a alma, para que estas mulheres não fossem para a estatística. Não sei se me lembro de todas, mas vejo ainda a cara de muitas, estas sim, sem burqa, no bloco operatório! Ora de dia, ora de noite, ligavam à Patrícia, que me ligava a mim..... “mais uma!”...... Hemorragia Peri-Parto.....no limite! Eu corria para o bloco para preparar tudo e a Patrícia, apressava-se a trazer a doente da Maternidade para o bloco, sem poder correr, pelas regras culturais, vinha com uma enfermeira, em passo acelerado.... para lutar contra a natureza e os desastres da Oxitocina! Chegavam em muito mau estado..... extremamente hipovolémicas após perderem muito sangue e geladas..... Níveis de hemoglobina que nem dá para acreditar.... 4... 3... 2... de hemoglobina.... muito, muito baixo..... Contam-se histórias daqueles que já viram isto uma vez na vida..... e nós vimos....... demasiadas!

Às vezes olhavamo-nos nos olhos e pensávamos mutuamente em silêncio: “Esta não!”.....”Esta não nos vai morrer, esta vamos salvar”.....”já chega!”...... ”Eu e Tu.....vamos salvá-la!”......... E eu “atirava-me” para cima dela, e em segundos, fazia tudo para pensar rápido e agir imediatamente, e tudo fazia..... para “aguentá-la” viva enquanto a Patrícia se prepara para lhe parar a hemorragia..... E dava tudo o que tinha para cumprir a minha parte do nosso pacto mudo......”esta não!”..... Fluidos, pedidos de sangue, fármacos para lhe manter o coração a funcionar, ventilação artificial, e tudo mais que é da minha responsabilidade..... E a Patrícia, super rápida, abria a mulher tirava o bebé morto, a placenta e o que tinha que fazer para parar a hemorragia.... suturava a parede do Útero quando podia ou retirava-o quando esta era a solução.... E no meio deste passos morreram-nos 8 mulheres..... OITO nas nossas mãos ensanguentadas! Ou na indução anestésica, ou a meio da cirurgia ou já depois de ter acabado a cirurgia...... Todas custam, todas nos causam muita dor..... mas penso que é normal que aquelas em que estamos mais envolvidos e durante mais tempo nos custam muito mais..... E se imagino que para a Patrícia aquelas que morreram antes ou durante a cirurgia foram as mais dolorosas...... para mim, as que morreram depois da cirurgia, depois de muito tentar para as manter vivas, partiram-me o coração aos pedaços...... e com o cansaço, algumas vezes quase cai no desespero....

Lembro-me de uma noite em que fomos chamados por volta da meia noite..... e era “mais uma!”...... no limite. Já estava cansado de um dia longo, e com um certo fantasma de morte a pairar nas nossas cabeças pelos múltiplos “traumas” recentes de mortes nas nossas mãos! Mas respiramos fundo, o ar frio das montanhas longínquas do Noroeste do Paquistão, e ai vamos nós, a correr para o hospital, a correr para o bloco. A doente tinha uma rotura uterina enorme, e a história repetia-se...... choque hipovolémico muito grave por hemorragia peri-parto. A doente anestesiada, ligada ao ventilador, e enquanto a Patrícia evitava que ela se esvai-se em sangue eu compensava pelo outro lado com fluidos e transfusões de sangue.... e chegou a níveis de hemoglobina extremamente baixos..... eu lutava contra o tempo.... com as mãos ensanguentadas, procurava pôr mais acessos venosos para lhe transfundir mais e mais rápido o sangue..... Enquanto isso a Patrícia “cumpre” o seu lado da “luta”..... Retira-lhe o Útero, e pára-lhe a hemorragia..... E agora é comigo.... Começo a acalmar, a adrenalina atinge o plateau e começa a baixar lentamente..... E é ai que surge a eterna pergunta; “ E agora?” Tinha passado uma hora, hora e meia, nesta “tourada”..... olho à volta e está o chão cheio de sangue, e uma confusão geral no bloco operatório..... A pior fase já passou, mas tenho uma doente extremamente critica nas mãos.... Foi transfundida com muitas unidades de sangue, precisa do ventilador para respirar, tem certamente um distúrbio da coagulação marcado, hipotérmica, e só com perfusão de adrenalina à moda antiga com um conta gotas, é que lhe consigo normalizar a tensão arterial...... bem, uma doente que no “nosso” mundo teria certamente direito a vários dias nos cuidados intensivos e com prognóstico reservado..... Mas eu não tinha nada disso.... Digo à Patrícia  e a um dos enfermeiros para irem descansar..... Fico eu, um enfermeiro para me ajudar..... e esta rapariga nova a lutar pela vida....”E agora?”...... Tenho que a “pôr” a respirar sem o ventilador, certificar-me que recupera a consciência , certificar-me que não precisa de adrenalina para lhe manter a tensão arterial...... e tenho umas horas para o fazer ..... pois aquele bloco terá que salvar mais vidas no dia a seguir. Ou seja, ela está viva.... mas eu acho que não lhe consigo salvar a vida, naquelas condições relativamente básicas..... mas tento..... Vejo passar as horas, enquanto busco no fundo da minha cabeça os conhecimentos médicos que me possam ajudar a salvar esta vida.... pois tinha a minha parte do pacto mudo a cumprir; “esta não!”..... a doente começa a respirar, mas ainda com muito pouca força.... mexe o diafragma, mas não totalmente eficaz, retiro-lhe o ventilador, mas fico à cabeça dela a “ajudá-la” a ventilar com um Ambu..... e aquele tubo traqueal que a mantém viva..... Eu sei o que tenho de fazer, para a manter viva..... mas não sei como posso fazer ali e naquelas condições..... estou exausto, mas bem acordado..... o meu cérebro não pára; “o que é que faço? O que é que faço??” Partilho as minhas dúvidas, os meus pensamentos com o jovem enfermeiro que ficou comigo..... que me ouve e se prontifica para ajudar no que for preciso.... Também eles já estavam no limite da tolerância para mortes no bloco operatório... A doente não acorda, tenha as pupilas dilatadas (possível sinal de sofrimento cerebral irreversível) e não urina (muito mau sinal)..... Mas está viva e aos poucos vai respirando melhor..... e a reagir ao tubo traqueal.... o que é positivo...... Bem, este tubo tem que sair..... e isto é fazer “intensivismo GT” (demasiado rápido).... mas não tenho opção, ela não pode ficar ali ...... se não vou deixar de salvar outras vidas, amanhã...... que entretanto já é hoje, à medida que avança a madrugada. Tiro-lhe o tubo, mas claro..... ela ainda não consegue respirar sozinha.... o estado dela é muito, muito grave e fico “agarrado” a ela a ajudá-la a respirar..... mas não é a mesma coisa sem o tubo e passados uns minutos, ela começa a piorar e a piorar muito rapidamente, e eu peço ao enfermeiro para rapidamente me ir buscar os medicamentos para a entubar outra vez; “Rápido!!” enquanto a ventilo com o Ambu e a máscara.... ”rápido prepara os medicamentos!”..... eu não podia largar as mãos da doente.... a saturação de oxigénio estava a baixar muito rapidamente.... e nestes segundos, quando ele me diz que já tem os medicamentos prontos...... o coração pára..... e eu desisto..... morreu!  Mais uma para a estatística..... Sento-me no canto da sala, exausto..... são 6 da manhã..... com as lágrimas nos olhos, mãos na cabeça e cotovelos nos joelhos..... derrotado..... outra vez! Será que ela sobrevivia se estivesse no meu país? Será que ela sobrevivia se eu tivesse feito alguma coisa diferente? Será que ela sobrevivia se eu fosse melhor médico? ...... Não sei.

O enfermeiro muito humildemente, vem ter comigo, perante o meu desespero silencioso e diz-me: “I am very sorry Sir, if I did something wrong.” Eu normalmente tento esconder as minhas emoções à frente das pessoas, mas não aguento..... o cansaço leva-nos a um estado de quase embriaguez..... e desato a chorar, sem conseguir parar e digo-lhe: “You did a great job, it was not your fault.... I am the one who maybe could have done something better!” ...... e ele prontamente me responde; “No Sir, you are a great doctor!”....... e eu saio da sala num pranto de choro, a chorar baba e ranho..... com demasiadas coisas acumuladas..... precisava de limpar a alma.

Depois de acalmar, volto a casa para descansar um bocado.... mas ainda faltava um pequeno pormenor, mas muito difícil..... dizer à Patrícia, o desfecho desta rapariga. Por tudo o que esta lutadora fazia por estas mulheres do Paquistão longínquo, tinha vergonha de lhe dizer que não consegui cumprir a minha parte do nosso pacto mudo.... escrevo-lhe uma mensagem, pois ela estava a dormir e certamente iria saber quando chegasse ao hospital nesse dia..... e tinha de o saber por mim: “Patrícia, dei tudo o que tinha, dei o meu melhor, mas não consegui. A rapariga morreu. Desculpa”

Lutamos com todas as armas que tínhamos até à exaustão, mas não conseguimos vencer as......

Hormonas Descontroladas


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