domingo, 17 de novembro de 2013

De Volta às Aulas com os Taliban (parte 2)


(....continuando)

(Viagem com a música e leiam a 1a parte para melhor perceberem o contexto)





A vida é um conjunto de vitórias e derrotas, e no terreno, as vivências são todas exponenciais, derrotas duras e pesadas, e vitórias que nos enchem a alma, fazem tudo valer a pena e levam-nos a pensar que ainda há esperança. Se os Médicos Sem Fronteiras lá estão, há esperança.... Esperança essa que no caso da Somália, para mim foi fortemente abalada, aquando da saída dos MSF (por vários motivos), deste pais, em permanente estado de catástrofe.... escusado será dizer que gostava de lá ir.... mas isso é outra história.

Estava eu a viver a minha super vitória, no Noroeste do Paquistão, após uma formação muito bem sucedida, sentia que estava no bom caminho....e isso naquele momento era tudo o que eu tinha...... e era tudo para mim.

Sentir a dimensão do problema, sentir o sofrimento daquele povo e sentir que estava a fazer alguma “coisinha”.... é maravilhoso, é essa a minha gasolina para andar para a frente, trabalhar motivado, passar dias e noites a trabalhar a fio, sem olhar para o relógio e com um sorriso na cara.... sem muito mais para me aquecer a alma, são estas pequenas grandes coisas no dia-a-dia, que nos inspiram. E a sensação que conseguia passar a minha mensagem, limpa-me as dúvidas da cabeça e fazem tudo valer a pena....

E essa esperança era tudo o que me restava , para amenizar uma realidade tão forte....

Quando me propus escrever um blogue com histórias, queria contar a história, com histórias, queria transparecer o que eu vivi, na vivência extrema do povo que conheci, contando a sua história, as suas histórias, para que a personificação do problema vos fizesse aproximar das pessoas que me passaram nas mãos....

Mas aqui estava-me a faltar qualquer coisa.....as histórias!! Eu não tenho histórias do Paquistão, não tenho as histórias que queria contar.... As histórias não chegam até mim, pelo menos as que queria que chegassem..... as das mulheres! As mulheres não falam.... não sei quem são ou o que sentem.... Sinto por elas, mas não as sinto...... “Fotos com histórias”...... ora não tenho fotos e não tenho histórias!! E agora??, como vos conto o que se passa neste cantinho do mundo..... que me absorvia, que me envolvia, que me abraçava e estrangulava....

Não ouço as mulheres, não sei o que elas pensam..... pelo menos em primeira mão, como sempre conto as minhas histórias..... nem quando recebo no bloco operatório, uma mulher baleada, bastante desfigurada, por uma caçadeira... Sei que foi violência de um homem, .... mas não sei como, nem porquê..... os enfermeiros que trabalham comigo, parecem sentir que não devem saber...... que não há história....é tabu! As perguntas são mal vistas, o querer saber parece que não está ao meu alcance.

(Patrícia e Anne preparadas para mais um dia de trabalho)
A Patrícia (médica obstetra) e outras companheiras dos MSF mulheres, contavam-me o que sentiam ao falar com elas, pois elas chegavam, onde eu não chegava...... falavam com as mulheres.....e eu nunca! Diziam-me que eram afáveis e guerreiras, carinhosas e de personalidade forte.... Se para mim, era difícil trabalhar naquele pais, cheio de restrições e com poucos motivos para sorrir, preso e amordaçado....... sentia e sabia que para as minhas companheiras era muito pior.... Passavam o dia de véu alfinetado de forma a que apenas um frincha dos olhos ficasse à vista, e assim viviam asfixiadas, numa sociedade repressora, vitimas também elas da posição da mulher naquele mundo, inferior e muito abaixo do homem em qualquer circunstância...... Admirava a sua coragem e adorava que me contassem sobre TUDO o que absorviam da personalidade, dos sentimentos das mulheres Paquistanesas, das mulheres Pashtun.... Imagino que nunca a divisão dos sexos foi tão grande no nosso HOJE, como é ali.....


Dedicava horas e horas do meu suor, noites intensas a salvar as suas vidas..... mas sem saber quem elas são..... nem como chegar a elas, como lhes fazer passar algo de humano, quando não havia comunicação......

A maternidade era um edifício do hospital, à parte, separado de tudo o resto, um edifício exclusivo de mulheres, onde os homens eram proibidos de entrar, mulheres médicas, enfermeiras, auxiliares, e até as guardas na porta eram mulheres..... Quem lá trabalhava não entrava no meu mundo (à excepção da Patrícia nas muitas vezes que ia ao bloco).... e eu não entrava no mundo delas..... Portas cerradas por uma cultura intransponível, trancadas por uma clivagem entre os sexos, e revestidas por proibições .... Pensar abrir essas portas, era impossível....

Uma noite estava eu ainda a trabalhar, para lá das horas de jantar, quando recebo um telefonema da Patrícia : “ Vem rápido, vem rápido à maternidade , temos uma mulher a morrer !!” ..... e eu saí do bloco operatório a correr, com o alerta que o pedido me exigia, .... mas rapidamente me saltou à cabeça ........”Eu não posso entrar lá!! Porque é que ela me ligou?” ...... Há muitas regras que são mais importantes que as vidas, e essa era uma delas..... Nem pensar em entrar na Maternidade.....cheia de mulheres de pernas abertas em trabalho de parto...... Mas pelos vistos a minha fama como homem que salvava vidas, espalhou-se como pólvora....e a Patrícia chamou-me ....e eu fui! Cheguei à porta e sem surpresa foi me barrada a entrada pelas mulheres-guardas.....e eu ouvia as vozes nervosas de muitas mulheres, ouvia o pânico de quem lutava para salvar uma vida.... e ouvia a voz da Patrícia. “Patrícia, estou cá fora, mas não posso entrar !” Aquelas portas deixavam-me enraivecido, e a vontade de as arrombar era imensa.... mas não podia. De dentro ouvia a Patrícia gritar “Deixem-no entrar!”...... “Cubram as mulheres todas e deixem-no entrar.....ela está a morrer!” .....e após muitos gritos e vozes de comando em Pashtun.....abrem-se as portas! Vejo mulheres por todos os lados, e vou como uma flecha atrás da voz da Patrícia, ........ fechando os olhos ao resto da sala, aproximo-me da mulher moribunda.... Vejo enfermeiras, altamente profissionais, em manobras de ressuscitação, com movimentos finos e coordenados, dedicadas e com a total entrega que o momento exigia..... Preocupadas, a darem toda a sua vida por aquela vida...... Estão nervosas, pois têm morrido muitas mulheres nas suas mãos..... e na sua dedicação eu vi que elas sentiam essas mortes.... seres humanos fantásticos no recorte fotográfico que eu fiz em dois segundos, enquanto me inteirava da situação médica daquela mulher.....

Não há nenhuma forma bonita de dizer isto..... Passados 2 minutos de lá ter entrado, não vou em rodeios e entro, neste caso mesmo a matar, e digo..... “Podem parar, está morta!!” ...... Mais uma, mais uma morte, mais uma hemorragia peri-parto....... Não tinha dúvidas, demasiado grave, demasiado tarde.... Vi muita desilusão, nos muitos olhos que estavam virados para mim, tinham esperança que o médico, que tão bem falou de ressuscitação pudesse fazer magia.... mas não ..... ali só lhes fui tirar o peso da responsabilidade e assumir a decisão, o que ninguém gosta de fazer...... dizer que não há nada a fazer.....

Abriram-se as portas para nada..... E tinha que sair rapidamente dali, não deu tempo para as tentar reconfortar, com a frustração de uma fantástica entrega em vão..... à saída ainda , timidamente constatei o que estava presente na sala...... um grupo de muitas mulheres em trabalho de parto, assustadas por se terem apercebido de tudo o que se passou, ......num momento já de si de grande stress, .... a morte de mais uma das suas, não vinha trazer muito ânimo..... o ar era pesado, mas de coragem...... mulheres valentes, que não choram e não gritam .... eram muito senhoras de si, todas aquelas que via a passar de burqas..... mas não conhecia.....


No dia seguinte fui surpreendido pela proposta da Patrícia : “Não queres fazer a mesma formação só para mulheres ?” Uffff...... “Patrícia, não posso, tu sabes melhor que eu que não permitido!”....... “Gustavo, elas pediram, querem saber mais, querem aprender contigo a salvar vidas....”
Fomos perguntar ao nosso chefe, falamos com o responsável pela segurança da missão, e após algumas discussões, concluímos que era possível..... Uma sala, sempre com as portas abertas, para não haver diz-que-disse, apenas e só com mulheres e eu ....

Bem, o meu entusiasmo explodiu!! Era ali que eu queria chegar. Palpei o terreno, falei com a Patrícia, para tentar perceber o que é que elas sabiam.... muito pouco, a educação quase não chega às mulheres.... e o pouco que sabem é porque apenas as mulheres podem participar no tratamento das mulheres.... e o Inglês...... muito fraco ou inexistente, tinha que ser feito com uma tradutora, bem mais difícil, mas era o possível.....
Refiz, a minha apresentação, tinha que falar de menos coisas, e com menos pormenor, e tentei-me centrar naquilo que era mais importante para salvar as mulheres com hemorragia peri-parto, no que à ressuscitação diz respeito....

Que dia! Estava nervoso, queria muito dar o meu melhor, passar o máximo de informação de uma forma assertiva ..... e dar-lhes o conhecimento para a mão, que reforçasse a sua esperança.... que responsabilidade , que lição de vida, em todos os sentidos da palavra.

A sala estava cheia, quase todas as enfermeiras do hospital lá estavam..... a maioria da maternidade e as restantes da urgência e do internamento, todas queriam saber mais sobre salvar vidas ..... e eu queria tanto ensinar-lhes..... O silêncio era constrangedor, e quietas como pedras, apenas sentia os seus olhares dirigidos para os slides que apresentava, enquanto apresentava o tema...... Pedi-lhes que me interrompessem sempre que necessário, se tivessem dúvidas ou questões, mas nunca o fizeram...... mudas e imóveis ..... alinhadas ao tom de um medo comum.....o da sociedade que as envolvia. Muitas eram de outras zonas menos fechadas do Paquistão, e por um emprego, lutavam para não cair nas malhas de quem lhes podia fazer mal, tentavam também elas se adaptar a uma envolvência toda ela castradora..... E muitas outras, sabiam bem de onde vinham e para onde iam, conhecidas, amigas , filhas, mulheres, de Taliban ou da Alqaeda......nascidas e criadas naquela zona, esquecidas pela evolução, educadas a não terem educação,.......... mas todas sentiam na pele, as mortes de tantas mulheres nas suas mãos, vitimas da pobreza, da ignorância, do azar de viver numa zona do planeta onde o acesso a cuidados de saúde é escasso, longínquo, corrupto e incapaz.... E era a estes olhos, que são tudo o que vejo, a quem eu falava, lentamente, para poder ser traduzido, com ideias claras e concisas de como fazer melhor para salvar vidas, ...... reconhecer sinais de gravidade, actuar precocemente, melhor perceber o coração, o cérebro e os pulmões..... e até da reanimação do recém-nascido..... E assim falei sozinho, traduzido, para uma sala completamente muda ......inerte. Enquanto me traduziam, observava as suas reacções...... mas nada.... não tirava nada, daqueles olhos..... simplesmente não conseguia lê-las..... Nada!

Cheguei ao fim, ultra-esperançoso e ansioso para ouvir as suas dúvidas..... mas nada, nem um som. Insisti para que fizessem perguntas.......e NADA!! E saíram tão tímidas como entraram, ordenadamente desapareceram..... Fui à minha vida........ triste, desapontado, frustrado..... derrotado pelo sistema. Com dificuldades em me concentrar nos doentes, levei o meu trabalho até ao fim.... Faltavam poucos dias para me vir embora, e parecia que estava mesmo na minha hora de voltar a casa.... Que merda!!!

Mas, e há sempre um MAS, quando cheguei a casa, encontrei a Patrícia super sorridente: “Gustavo, desculpa não ter ido à tua formação, mas tive que as substituir na maternidade para irem todas..... Elas ADORARAM..... não falavam de outra coisa, ficaram super agradecidas. Nunca as vi tão motivadas e tão dedicadas ao trabalho....não sei o que lhes fizeste!!” .....diz me ela a rir-se. Eu não sabia, se queria rir ou chorar........ naquele momento saiu-me o Euromilhões das emoções positivas, o meu coração rebentava de alegria.......

Há esperança, tem que haver esperança...... há sempre esperança..... porque há muito mais pessoas boas do que más !

Penso que consegui deixar uma semente ao ir .......


De Volta às Aulas com os Taliban !!!

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

De Volta às Aulas com os Taliban (parte 1)



Vejo e revejo, para  a frente e para trás, o filme da minhas memórias.... Algumas já enevoadas, fogem-me os pormenores...... e tanta coisa já vivi entretanto... Mas foi tanto e tão forte o que senti, que me custa largar as minhas recordações do Paquistão sem vos dizer mais algumas coisas....

Pergunto-me, muitas vezes, como se explica? Como se põe por palavras aquela realidade? O que posso fazer para vos transportar da cadeira até aquele ponto tão longínquo....

As incríveis montanhas do Noroeste do Paquistão
O Noroeste do Paquistão, é incrível para o bem e para o mal, extremamente montanhoso, entre a cordilheira do Hindu Cush e os picos mais agressivos dos Himalaias.... fica uma zona de uma complexidade estratégica, de difícil compreensão.... País “novo” que encontrou a seu identidade, no Islão, após a “libertação” por parte dos Britânicos, do sub-continente Indiano, houve a necessidade de dividir este brutal pedaço de terra, de forma a que os Muçulmanos ficassem com a sua própria terra (mas muitos ficaram na Índia), e assim se criou esta pais..... aquilo que conhecemos hoje como Paquistão, e ainda o Paquistão Oriental, que entretanto, também à custa de milhares e milhares de vidas, se emanciparam para se tornar o que é hoje o Bangladesh....  

A separação do grande Irmão Indiano, moderada pelos Britânicos, foi brutal, levantou, acordou e catapultou os ódios entre religiões e povos, e deixou profundas feridas nos irmãos, agora de costas voltadas, ficando esse ódio de estimação, com a sua representação no fantástico território de Kashmir, o conflito mais alto do mundo...  com posições militares acima dos 5000-6000 metros, com posicionamentos sazonais, mas que nunca dormem.... E talvez aqui esteja o conflito mais antigo do nosso presente desde a partição em 1947.... 




Do outro lado, a linha de Durand.... mais uma “fantástica” ideia, da então, grande potência mundial, o império Britânico que assim desenhava o que queria do sub-continente, não arriscando em tocar nos sempre bélicos Afegãos..... Mais tarde esta linha, daria os limites a um dos maiores confrontos de gigantes de sempre no “Great Game” entre Rússia e Império Britânico.... O problema é que aqui nasceria uma divisão artificial do povo Pashtun, cuja identidade é demasiado forte para que se abdique da unidade..... Etnia dominante no Afeganistão, em números e em poder politico, os Pashtun, sempre tiveram uma grande facilidade em saltar a fronteira que para eles, no fundo, no fundo .....não existe.

E assim cresce o Paquistão, centrado no Islão, ódio histórico com a Índia bem mais poderosa e numerosa , e a fronteira “dos Pashtun”, com o Afeganistão.....

Vida politica deste jovem pais, com grande instabilidade, corrupção e dificuldade em unir, várias culturas e várias línguas que este país grande e populoso continha..... Golpe de estado atrás de golpe de estado, levam à alternância entre democracias de fachada e regimes militares....... e duas famílias que alternaram o controlo do país, a mais famosa das quais os Bhuto .....pai e filha (Benazir) símbolos marcantes, envoltos em polémica e cuja história acaba sempre em mortes trágicas....

A relação com os USA, então é tanto fantástica como difícil de entender..... Melhores amigos que se odeiam!!! Difícil, eu sei.... mas é qualquer coisa assim.... Já muito li sobre o assunto e quanto mais leio, mais duvidas tenho..... O Paquistão precisava de um amigo mais forte, para que a super poderosa Índia, não lhes pusesse com facilidade a mão em cima, (o que fez p.e.  facilmente ao “libertar” o Bangladesh do poder de Islamabad), e os USA, precisam de travar os Russos nesta frente da guerra fria tão importante que era o Afeganistão..... E em troco de milhões e milhões de $$$$, os USA, podiam ajudar os Mujahiden do Afeganistão, através dos Serviços Secretos Paquistaneses, sem nunca saberem muito bem a quem estavam a passar cheques em branco..... Assim, o Paquistão é o 2o pais do mundo que recebe mais $$$ dos USA (depois de Israel), mas é também a maior fonte dos seus problemas..... O grande formador do Islão radical.... que serviu para combater a Índia e Kashmir, para alimentar a grande guerra Islâmica, que acordou o Islão politico a nível mundial, entre os Mujahideen e os Soviéticos, e para hoje ainda através das suas madrassas, reunir, militantes de todo o mundo, para lutar contra as grandes causas do Islão politico, sobre aquilo que muitas vezes gostamos de chamar Alqaeda....

         










E toda esta embrulhada, cada vez mais globalizada, em termos dos seus perigos, só podia claro florescer, numa zona pobre, inóspita e de difícil controlo.... O Noroeste do Paquistão.... envolto por montanhas e por um clima que impõe respeito, este canto de terra tão bonita perdido entre a estratégia dos grandes mundos..... é uma região muito pobre, perdida no tempo, e devido ao grande carácter guerreiro deste povo Pashtun, só foi possível controlo pela ambição sempre corrupta de Islamabad tirando-lhes os livros e Islamizando-os ao extremo como os vemos hoje.... E assim estamos.

A execução sumaria de Bin Laden, (felizmente para mim, 2 meses depois de ter de lá saído), em território deste pais soberano, (talvez com a conivência dos SSPaquistaneses, a troco sabe-se lá de quê), e a ocupação do Afeganistão desde 2001 pelos USA e Aliados, numa terra que a história já nos ensinou demasiadas vezes, que ninguém controlará, ..... tudo isto e muito mais tem contribuído para que os ódios aumentem, e a separação entre Islão e Ocidente se acentue ....
Zonas com influência da Alqaeda

Uma vez perguntei a um enfermeiro porque não gostava dos USA ..... Mustafa era o melhor enfermeiro com que já trabalhei, pouco mais novo que eu, muito inteligente e bem educado e calmamente me respondeu : “ Sir, they bomb our houses, they bomb our villages, they kill our kids, our wifes, our families.... if I could, I would kill them too ! “ ....... até quando??? Quando é que iremos perceber que violência só gera violência.... Que a magnifica obra estratégica, em que todo o mundo bateu palmas, do assassínio de Osama Bin Laden, mesmo sabendo o monstro que ele era, nada resolveu e apenas veio dar combustível para a máquina do ódio .......

Bem, suspiros e reflexões, de quem sabe pouco, mas viu e viveu nesta realidade tão forte e donde saí com muita esperança ....... chocado, mas com muita esperança...... porque conheci pessoas magnificas e um povo maravilhoso, afável e acolhedor..... e se nos sentarmos a beber um chá ao mesmo nível, faremos amigos para sempre..... adorei viver lá, e queria sugar aquela cultura o mais que podia, li os seus livros, vi os seus filmes, ouvi a sua música, e sentava-me com os empregados a ver o Mundial de Criquete, sem perceber muito..... claro que comia tudo o que comiam, bebia 20 vezes “Xai” por dia, e aproveitava todos os momentos livres para falar com os enfermeiros, guardas, cozinheiros, etc..... para melhor os entender..... O como já disse, adorei. Fiz amigos sentidos, e despedi-me de abraço apertado e lágrimas nos olhos...... mas metade daquele povo, eu não conheci! As mulheres! As mulheres só falam com mulheres..... E as poucas enfermeiras com quem eu trabalhava, eram apenas vultos, .....dentro do hospital, sem burqas , mas todas tapadas apenas com 2 cms que deixavam ver os olhos, bastante cumpridoras e profissionais, mas quando me dirigia a elas, as únicas respostas eram; “no, Sir”, “Yes, Sir”...... e mais nada...... e sentia que tinham medo de falar connosco..... pois tudo pode ser mal-visto, mal-interpretado, e fortemente condenado pela sociedade, altamente repressora..... em que tudo é proibido!

Os Mujahideen
Gosto de acreditar que deixo um legado...... e gosto de ensinar, acredito que são essas sementes que a todos os níveis, vão mudar o mundo...... E as vidas por mim salvas, são fantásticas para mim, mas dada a sua insignificância estatística...... o que eu acho que fica mesma é a formação, para que outros possam fazer o que eu sei e aproximar a sua medicina à melhor que se faz no mundo..... E assim salvarem o seu próprio povo...... Aprender, Fazer, Ensinar..... a medicina é isto! E assim procuro ver onde estão as falhas mais graves...... é difícil .... são tantas.... o conhecimento médico é paupérrimo, e todo o sistema é uma manta de retalhos, mas tem que se começar por algum lado.....
As Madrassas
Foi-me proposto pelo médico responsável pelo Serviço de Urgência, que desse uma formação sobre Suporte Avançado de Vida, ou o que se diz em linguagem mais leiga ressuscitação cardio-pulmonar.....salvar vidas! E assim fiz, com bastante experiência nessa área, adaptei-me à realidade local e às condições possíveis, preparei uma apresentação powerpoint, e reuni as tropas.... Médicos, Enfermeiros, da urgência, bloco operatório e internamento e mais não sei o quê ..... Custa-me preparar, mas depois adoro, o desafio de ensinar, de cativá-los, de lhes acender as luzes da ciência ..... de os pôr a pensar e ajudar a compreender..... E vejo naquela hora/hora e meia a grande oportunidade de deixar a minha marca, de fazer com que tudo valha a pena, de dar o meu contributo, para a resolução daquele Paquistão radical e do tão assustador Islão politico..... Vejo ali a minha oportunidade de deixar sementes de paz, para que vejam no meu empenho de quem veio de tão longe para salvar as vidas do seu povo, a inspiração de fazer mais e melhor, só porque sim.... Think Global Act Local..... são os meus 15 segundos de fama, é o meu momento ..... os holofotes de 3 ou 4 dezenas de locais, estão apontados para mim..... e eu vou usar a ciência para os cativar, e deixar em cada ensinamento médico a mensagem subliminar de quem quer chegar muito mais longe..... dizer-lhes que uma vida é uma vida e temos que dar tudo por todas..... Sabendo que sou apenas um médico, mas com um ser humano por trás que também quer falar.....

As Madrassas




Os Taliban
Cada vez gosto mais de andar de Shalwar Kameeze.... já me sinto super confortável, e assim me apresento todos os dias, é melhor do que andar de fato de treino J, .... é super espaçoso, e por cima o colete dos MSF que nos identifica e assim vamos nós.... por volta das 10:00 da manhã, numa pequena sala do hospital, que sem nada no seu interior, com o propósito de local de culto para as 5 rezas diárias dos muçulmanos, preparo eu a minha logística, com computador, projector, cadeiras, bancos corridos....e assim fica transformada a sala de orações, numa sala de formações J..... E o meu público vai entrando.... entusiasmados, pois para eles também é um dia especial..... é raro terem formações.... e a sala enche-se..... todos muito juntinhos, uns de cocaras como tanto gostam, e alguns de pé.... E eu apresento o meu “número”, ao bom estilo ocidental, com informação bem organizada, imagens didácticas e um “embrulho”, bem bonito..... Fármacos,   ventilação..... as mais frequentes causas de paragem cardíaca, como olhar para a clínica, como as identificar..... e como as tratar.... Não é fácil, transmitir-lhes o espírito de missão que a mim me envolve, todos já viram aldeias a serem bombardeadas, ataques suicidas, e muito mais..... Todos os dias saem de casa sem saber se o exercito os deixará vir trabalhar..... dormem sempre preparados para fugir..... vivem o seu dia-a-dia, como se fosse normal...... mas não é! É uma zona de guerra, onde por cada bomba que chega aos canais noticiosos internacionais rebentam 100!! É inquietante, desconcertante.... a vida desta gente..... e é a estes a quem eu me proponho falar de ciência...... Ufffff..... muitas vezes leio o que lhes vai na mente : “Consegues fazer parar as bombas de cair!?!?” ...... 
Mas faço tudo, para puxar os seus pensamentos para o homem, a máquina do ser humano, no seu sentido puramente funcional..... E chega a parte das dúvidas. O seu Inglês é razoável, mas a dicção é quase imperceptível..... Ficamos numa boa conversa...... O sua ignorância assusta-me, a forma como construíram o seu pensamento médico é assustadora, e estão carregados de falsas-verdades, que custam a desmistificar...... Ideias da idade da pedra, que lhes foram cravadas pelo Professor não sei das quantas..... e que me custam a mim, muito do meu latim, para lhes reconstruir o raciocínio com “tijolos” de ciência.... Missão cumprida.... foi um sucesso..... uma formação, não dá para nada.... mas acendi umas luzes, libertei-os de falsos pressupostos e pu-los a pensar.....  consciente ou inconscientemente, gosto de acreditar que deixo uma semente de esperança, de ligação entre povos, e de paz...... Ali está um médico, dos MSF, da Europa, de Portugal..... do Ocidente...... que se importa..... que tudo fez para salvar as vidas das suas gentes.... e ali estou, sem dúvida alguma a falar com conhecidos, amigos, familiares, dos Taliban e da Al-qaeda.... 


O meu coração está cheio, missão cumprida..... e com muitos sorrisos e cumprimentos sou parabenizado por toda a gente..... E é neste calor humano, que para mim tudo vale a pena...... Viver numa prisão, reprimido, absolutamente controlado, a sentir-me um alvo na cabeça de muitos dos que me rodeiam.... mostro que salvo vidas, que ensino a salvar vidas, que me preocupo, e quero que eles se preocupem....

Inspiro-me, inspirando-os !!

E é aqui que eu acho que os MSF são :

Formação no Hospital de Timergara
O elo mais forte !!!

Na formação, na educação, na esperança, na ligação entre os extremos.... sendo um dos elos mais fortes a tentar aproximar esta distancia brutal de duas “placas tectónicas” ..... O Ocidente e o Islão Radical.....

E quando tantos elos se partem ! Este é:

O elo mais forte !!

De Volta às aulas com os Taliban !!



(continua......)





































sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Women with no names - (part 3)


(continuando….)

(música em cima se quiserem viajar, e fotos que ajudam a melhor compreender nas 1as partes desta história)

Agora já sabem, que nós médicos estavam francamente condicionados por “regras” culturais, que nos custam a engolir, que se sobrepõem, às nossas regras básicas de humanismo.... alimentadas pela ignorância, falta de acesso a qualquer espécie de formação básica (zona do mundo com a menor taxa de literacia no sexo feminino), e lavagem cerebral de certos lideres de opinião. Mas a ética, será sempre, quase que por definição (digo eu), muito polémica.... E aqui talvez conheça um dos seus extremos..... O problema é que não há 1 Islão, não há uma lei Sharia, não há uma hierarquia definida e organizada, a quem se possa apontar o dedo a quem comete atrocidades em nome de uma religião que tem tanta coisa de bom, como todos as outras.... A interpretação que o homem lhe quer dar para seu belo proveito é que tem uma complexidade extrema, e em cada canto do mundo, tem um contexto diferente que leva a que uma sociedade se organize deste ou daquela maneira.... O que há sem dúvida é falta de informação, falta de escolha, falta de civismo..... A pobreza na pior das suas formas.... num povo bélico, em quem é impossível pôr as rédeas... e como já disse com 95 % da população que é capaz do melhor que já vi, e 5 % do pior que este planeta já pôs os olhos em cima..... mas como sempre é difícil transparecer vivências, sem que as vivam, experiências sem que as sintam ...... mas humildemente faço um esforço, para que vos possa transportar até este recanto perdido do mundo, para que percebam a importância da compreensão, da tolerância..... e dos perigos da indiferença !

Tenho muito cuidado, para não ser demasiado politico, mas torna-se difícil..... Os USA, acabam de matar o Líder dos Taliban paquistaneses, com um drone, bem perto de onde eu estava.... para quê ?????? Alimentam o ódio do dois lados, matam inocentes mulheres e crianças inclusive, aprofundam o fosso entre o ocidente e o Islão, reforçam a militância dos Taliban, e a motivação da Al-Qaeda..... enquanto o já encontrado susbtituto ao que se diz, é muito mais duro, cruel, e impiedoso..... Vamos pagar durante gerações estes erros históricos em que todos temos culpa deste lado da barricada, nem que seja pela nossa inacção......

Mas da forma como eu vejo as coisas, os Médicos Sem Fronteiras, de quem eu me orgulho de ser apenas um soldado raso, luta para que a diplomacia, a aproximação, a colaboração e o contacto entre os extremos aconteça de uma forma suave, e lenta certamente, mas que promove a paz, quando há tanta gente a quer fazer guerra, e em todos os cantos do planeta presta cuidados de saúde, de graça, nas zonas onde este é mais preciso..... graças à boa vontade das contribuições dos particulares que acham que vale a pena tentar evitar que este nossa planeta azul se torne simplesmente, um teatro de guerra.....

E mim, calhou-me encontrar este lugar, esta realidade, tão forte, tão intensa..... que me esticou as emoções aos extremos e com a minha simples vivência, de quem é apenas um médico, ...... mas que gosta de acreditar utopicamente, que pelo menos, a minha família, os meus amigos, a minha cidade...... e gostava eu, de dizer o meu país...... terá um atitude mais sensata, mais compreensiva, mais tolerante e menos indiferente, para com as grandes questões da nossa “casinha” azul e redonda de onde até prova em contrario, teremos que viver juntos para sempre.


Ufffff.....que grande introdução....mas não consigo evitar.

De volta ao Inverno de 2011, para mim rigorosíssimo, e aquela prisão em que nós vivíamos, em que nos restava a motivação para trabalhar, e representar da melhor maneira as nossas inspirações.... fossem quais fossem....

Deixe-me vos apresentar a Patrícia, médica, ginecologista/obstetra, espanhola, madrilena, com raízes alemãs, com 30 e poucos, baixa, loira, olhos bonitos, e cheiiiaaaaa de garra e energia. É um furacão aquela mulher..... Dedicação ao trabalho como nunca vi, muita carinhosa com as doentes, muito rápida a pensar e executar, com fantásticas mãos cirúrgicas ..... Surpreendente! Rapidamente nos tornamos amigos, pois trabalhamos muitas vezes até à exaustão juntos, inspirávamo-nos mutuamente, e partilhamos muitas das histórias que vos vou contar...... Eu nunca trabalhei tanto na vida, estive perto de colapsar em 2 ou 3 momentos, eu literalmente dormia quando podia, e trabalhava quando a vida de alguém dependesse disso..... o que era grande parte do tempo..... e eu e a Patrícia, perdemos a conta à quantidade de vezes que éramos chamados de madrugada, para a imensidão de patologias obstétricas que florescem nesta parte do mundo....

E esta era apenas mais uma noite...... mas nunca mais me esquecerei do que senti.... Eram 2 ou 3 da manhã, e toca o meu telefone..... Acordo, pedrado de sono e era a Patrícia : “Estás pronto? “ diz ela a rir-se!! “Sempre. Vamos lá embora !” contagiado pelo seu bom humor.... Ao sair da cama levo com um choque térmico, que me acorda logo, ..... estão para ai menos 10 graus, numa casa sem aquecimento..... Água na cara, visto o meu Shalwar Kameeze (túnica e calças largas)...... respiro fundo e vamos embora.... Encontro-me com a Patrícia, e vamos juntos para o carro dos MSF..... A Patrícia neste momento já tem a cara tapada com o véu, onde apenas os olhos podiam ficar à vista..... Se para mim não era fácil lá estar, para uma mulher estrangeira, era muito mais complicado com estas condicionantes e muitas outras.... trabalhar todo o dia de cara tapada.....é asfixiante! E vamo-nos a rir de coisas estúpidas na pequena viagem de uma prisão para a outra.... casa-hospital.... A Patrícia entretanto diz-me que temos uma cesariana, urgente, não emergente.... o bebé está vivo mas atravessado no útero.... Mais uma cesariana, são tantas!! Cerca de 60-70 % das cirurgias em cenários de guerra são cesarianas..... a vida continua! E chegamos ao hospital, mudamos de comportamento..... não há piadas porque as mulheres não podem rir, falamos bem afastados e nunca lado a lado..... e vamos à nossa vida, a Patrícia, entra na Maternidade para com as enfermeiras parteiras, confirmar o que se passa, enquanto eu vou pôr as tropas a funcionar no bloco operatório..... Todos os enfermeiros do bloco e auxiliares estão ensonados e cansados, mas sou sempre recebido com sorrisos e propostas de “Xai !!!” .....

Entretanto chega a Patrícia, com a doente, deitada numa maca, com as dores intensas das contracções do trabalho de parto...... que entre gritos e suspiros regularmente solta um “Alllaaaaahhhhh !” que já nem me estranhava... A Patrícia confirma-me o diagnóstico e para nós é apenas mais uma de tantas.... é o nosso trabalho. A doente entra numa ante-camera do bloco operatório a tremer de frio e cheia de dores..... e está tudo pronto para avançarmos: o bebé está vivo, e a mãe, medicamente falando está tudo bem.... Falta um pequeno pormenor...... o consentimento do marido....que entretanto tinha sido chamado.....

A rapariga tinha 23 anos, e claro já com 3 filhos, já sem burqa apenas de véu, uma vez que nos preparávamos para a operação,..... olhos escuros, traços finos com personalidade, e olhar assustado..... mãos e pés pintados de “ena”, com desenhos labirínticos..... Não a acho bonita, mas gosto de olhar para ela, talvez pela curiosidade de assimilar os traços femininos , que estariam por de baixo de todas aquelas burqas..... e dou-lhe duas pancadinhas na mão tentando passar a mensagem que vai correr tudo bem.....

E alguns minutos depois chega o marido..... Nos seus 50 anos, estatura baixa, mas ar altivo, cara alongada, barba grisalha comprida, chapéu Taliban, e coberto com a manta traçada pelos ombros.... Os Pashtun, dão-se ao respeito, transparecem aquele ar de “antes quebrar do que torcer”..... eu admiro-os.

Chamo o Gohar Ali, enfermeiro chefe do bloco, para servir de tradutor, e assumo o papel da Patrícia, de falar com o marido, pois eles raramente ouvem uma mulher, principalmente estrangeira e infiel.... Resumidamente, em Inglês, digo ao Gohar Ali, o que ele tem de dizer em Pashtun: “A sua mulher vai ter que ser operada porque o bebé está atravessado” e .......ouço um “ Não” ..... “Sir , he sais NO”, diz me o Gohar Ali..... Levei um grande soco no estômago.... mas não cai..... sabia que esta luta era “minha”........ Repeti-me, e dissequei os motivos “O bebé vai morrer, o seu filho vai morrer, e a sua mulher vai morrer, se não operarmos, TEMOS que a operar, será que compreendeu??”........ “ Sir, he understands and he sais NO !”  Eu olho-o nos olhos, e ele não tem expressão..... não vacila.... não hesita, não abana..... Dirijo os meu olhar para a Patrícia, que a metros de distancia ouve a conversa..... em silêncio, tem os olhos lavados em lágrimas da a única parte da sua cara que o véu me permite ver..... vejo o fim do mundo nos seus olhos húmidos, de quem sabe que com as suas mãozinhas, em 15 minutos facilmente resolvia esta questão, como já resolveu tantas outras...... Sofro em silêncio, e como sempre mantenho-me calmo nas situações em que o meu corpo liberta mais adrenalina.... e depois de 2 socos frontais, brutais, que me esmagam e quase não me deixam respirar, vou buscar as minhas últimas forças para tentar ganhar esta luta que jamais podia dar como perdida.... “Gohar, pede-lhe por favor, pede-lhe para nos deixar salvar a vida a esta mulher e ao seu filho..... pede-lhe por favor.....que nos deixe fazer com que as 3 crianças que ele tem em casa não fiquem sem mãe.......pede-lhe por favor!! “Sir, he sais NO, he doesnt want his wife to be touched inside, he sais he can buy another one ......”

E perdi por KO, uma luta que nunca pensei que existisse, e que jamais pensei ter perdido......  “Gohar, ele percebeu, estás a traduzir bem???? “Só podia ser um problema de comunicação..... não podia ser verdade. “Sir, he understands, he sais NO!” ...... e ela ali à minha frente com um bebé na barriga..... dois corações batentes com o tempo contado.... e uma morte que será num sofrimento atroz , ......  e eu não podia fazer nada......

23 anos..... e ouviu toda a conversa, e nunca disse nada..... tremia e sofria com as contracções... e na maca em que entrou saiu..... para morrer não sei onde e não sei como...... Foi certamente uma morte em dores, durante horas....... já vi muita coisa, e não consigo imaginar....

Voltamos para casa, em silêncio, sem dizer uma palavra....... na ânsia de quem quer esquecer...... não dissemos, uma palavra....... não havia nada a dizer. Dois jovens médicos, cheios de força, afogados em frustração....

Não se pode ganhar todas.....

Deitei-me na cama....... e chorei desalmadamente até adormecer!

Não podia ir abaixo...... pois não havia ali mais ninguém que soubesse fazer o que faço, e muitas vidas dependiam de mim....

Chorei.........., não esqueci.........., mas andei para a frente !!

Mas esta é apenas uma história, textualmente contada como aconteceu, que representado algo que não é a regra, ma acontece muitas e muitas vezes naquele e em muitos lugares deste mundo.....

“Women with no names !”

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Women with no names - (part 2)



(se quiserem sentir a música dos Pashtun, carreguem no play, acima)


Matosinhos, 31 de Outubro de 2013,


São os meus anos, não trabalho, e está uma magnífica manhã de Outono. Tenho a sorte de poder dar a mim próprio o presente que eu quero. E acordo de manhã, numa longa conversa comigo próprio na tentativa de responder da melhor forma : O que é queres fazer, Gustavo ? O que é que gostas de fazer, Gustavo ?
Não é fácil, gosto de tanta coisa, há tanta coisa que me apaixona.... Mas como vêem, decido escrever . Sento-me em frente ao mar, a grande janela do meu mundo, o meu carregador universal de baterias, o sítio onde tudo começou, o início de todas as minhas histórias , este mar que me viu crescer a quem eu peço que um dia me veja partir.....e penso, vivo e revivo, lanço a corda para dentro das minhas memorias de forma a resgatar os acontecimentos que vos quero contar hoje e para sempre.

Um dia magnífico, no conforto do meu mar, viajo no tempo e no espaço, para Março de 2011, Timergara, Província do Noroeste, Paquistão.

......

Interrompo a minha escrita, não tinha a paz de espírito necessária no meu dia de anos, para voar na minha mente.....continuo 4 dias depois a minha viagem ao meu passado....

Aqui vamos nós......

O ar é pesado, há uma pressão no ar, as proibições sufocam-me, e o sentimento de o que é ser um prisioneiro cresce dentro de mim. A motivação é grande, pois os MSF, não desiludem, se lá estamos é porque é mesmo preciso..... A região é pobre, pobre, pobre.... o inverno é rigoroso e as condições de vida são miseráveis....

Entenda-se que quando me refiro ao Paquistão, falo apenas desta zona, pois é um pais imenso muito heterogéneo e com realidades muito dispares.... Pois, o Paquistão que eu vivi é hardcore, é forte, é perigoso e intenso, faz-nos amar e odiar o mundo no mesmo dia, mas apesar de ter levado das maiores pancadas emocionais da minha vida, saí de lá com a alma quente e cheia de esperança num mundo melhor....


A Província do Noroeste, é brutal, a beleza das montanhas que a rodeia, esconde um dos maiores problemas que certamente o Séc. XXI enfrentará.... O Islão radical. Esta zona do planeta, parece esquecida, a sensação é que a Terra, não é redonda e que aqui é o fim do mundo... Pois ninguém chega aqui e muito pouco de aqui sai....

Dos povos mais afáveis que eu já conheci, pelo menos no que aos homens diz respeito, pois as mulheres ...... não as conheci. Todos os dias, à medida que ia criando laços de amizade e confiança e por que não dizê-lo admiração mutua, o cumprimento local fazia mais sentido. Explicaram-me muita coisa nos briefings culturais, mas esta foi uma surpresa para o tereno.... Vinham de braços abertos, eu pensava que era um abraço, mas surpreendiam-me com um "quase abraço", em que descoordenadamente não percebia, em que a sua mão direita vinha ao meu peito e esquerda ao meu ombro direito.... Os guardas, os cozinheiros, os enfermeiros e os médicos, não são indiferentes ao nosso esforço, às noites sem dormir, ao trabalho até à exaustão, ao prazer de dar o exemplo e liderar pela inspiração..... E assim eu começava a perceber o que significava......., o toque , a energia, o olhar fraterno e agradecido.... ao aproximarem-se de braços abertos para mostrar que vêem em paz, sem armas, e o primeiro contacto é a mão direita directa ao nosso coração, furando a nossa guarda, tocam, sentem e avaliam, como está a nossa saudade e os nossos sentimentos, deixando que este rápido momento, este manómetro de vida, preceda um “Asalam aleikum” ( que a paz esteja contigo).... ao mesmo tempo que completam o cumprimento com um firme aperto de mão.... E isto sente-se, não se explica, é boa gente, o povo mais hospitaleiro que já conheci... Era com muita honra que nos convidavam para suas casas, onde tristemente não podíamos ir, os convites para “Xai” eram horários e as perguntas pela nossa saúde, pelas nossas famílias eram genuínas, nunca um pro-forma.... Quando me perguntaram se precisava de alguma coisa, pedi uma bola de futebol, para que pudesse descontrair e esticar as pernas no pátio da minha prisão.... provavelmente no único pais onde já estive, onde o futebol não existe !!! e a minha apresentação como português cai na insignificância, pois nunca tinham ouvido falar do Cristiano Ronaldo..... lá me conseguiram arranjar uma bola num Bazar.... era uma boa bola e sei que não foi barata.... mas não me deixaram pagar, e tinha eu nesta altura apenas acabado de chegar..... Adorei o gesto...... Adorei este povo, ou metade dele, pois a outra metade como vos disse.... não conheci..... As mulheres são sombras, não existem..... vi as suas dores, salvei algumas vidas, reanimei os seus recém-nascidos..... mas não as conheci..... Não sei quem são, ou o que pensam...... Eram seres, dentro de burqas impenetráveis, que não deveriam existir aos meus olhos, e não existiram mesmo! 
A pressão de que vos escrevo, sente-se no ar... o ar é pesado, as proibições são de quase tudo, e vivemos num estado permanente de observação por parte da comunidade, que nos avalia de uma forma desconfiada, este grupo de “estrangeiros e infiéis” que aparece nesta  terra perdida..... E as mulheres transparecem essa prisão interior, transparecem na sua conduta, toda uma sociedade repressora em que a burqa é muito mais que uma capa, é uma amarra a toda uma série de acções que para nós nos parecem inatas.... Uma mulher, não ri, não fala alto, não olha um homem nos olhos, não corre, não salta, não fuma, não fala com um homem, não lê, não escreve, não nada !!! Nada !!! Casa aos 12-14 anos, com quem tiver dinheiro para este “amor”, e depois fica em casa, fechada, toma conta dos filhos e fala com as outras mulheres da família..... larga a sua família após o casamento para nunca mais voltar.... Corta o seu cordão umbilical biológico, para nunca mais voltar, e passa a ser propriedade do seu marido, em que este faz o que bem entender que esta sua posse, e se for um homem bem sucedido, terá certamente as mulheres que o dinheiro lhe der para pagar....

A mulher legalmente vale 50% do que vale um homem, por exemplo, no que trata a uma indemnização ou uma opinião em tribunal..... Mas na prática, sabemos que nem isso..... uma mulher vale muito menos..... vale o que o homem que a comprou quiser que ela valha..... e por mais que eu saiba que, não me cabe a mim julgar uma cultura, o impacto das histórias que tenho para vos contar marcaram em mim, como pessoa e como médico um ponto sem retorno....

Há certos momentos da nossa vida, em que um dito juramento de Hipócrates, transcende a nossa pessoa, pois ser médico, vai crescendo dentro de nós, e em certos momentos é muito mais de que uma profissão, um ganha-pão, é a essência do nosso ser, e fui obrigado a aceitar certas regras que contrariam a minha própria razão de existir.... mas como qualquer peão no seu xadrez, eu sabia os meus movimentos, até onde podia ir e onde nunca podia ir ...... Nunca, mas nuna...... NUNCA, NUNCA, NUNCA...... discutir as regras do jogo. E as regras são, as mulheres valem o que os homens quiserem, e se o marido não está é o irmão do marido, ou a mãe do marido, ou o pai do marido..... que decidirá o que eu posso fazer ou não como médico.... e elas as mulheres, sabem disso..... a sua vida, não é delas..... a sua vida é de quem o pai delas quis que ela fosse.....

Eu, como qualquer médico, dependo em tudo, do consentimento do marido, no que diz respeito aos mais simples actos médicos, relativos à saúde de uma mulher.... e se ele ou um legitimo substituto, não estiver, nada faremos, nem que a consequência, seja a vida dessa mulher..... E assim foi , mais vezes do que me gostaria de lembrar.....

À minha frente, sabendo o que tinha que fazer, mas sem autorização para tal..... várias vidas vi eu se perderem..... Não me lembro de todas, mas lembro-me de algumas e é isso que vos vou contar !

Women with no names !!!!

(continua....)

Women with no names - (part 1)


(written 6 months after the end of my mission , already back in Portugal )


(if you want to travel to Pashtunland, press play on the music bar above )

I never really had a plan. I just felt, after my journey in Eastern Congo, a huge desire to share with as many as I could, the tough reality that some people are facing and that the world´s news don’t even care to cover… There would be a million more things to say about Congo, but for sure, by many others that know much more than me….but I can say that I am glad that my insignificant voice is trying to be one more pointing to the world, that there is much to be done about some crucial issues, as war, sexual violence, hunger and diseases….
Showing some pictures , and telling some parts of very true stories felt like a good way of making people to open their eyes, in order to ……. Make our world a better world.


And now Pakistan…. I have tried to write when I arrived there, but for many reasons, I stopped until now…. Lack of time  would be probably my better excuse, but there are many others… While I was there, once again, (it happened in Congo as well), the emotions were just too strong, too tough to handle….one tries to focus on the life saving “business” and tries to leave the feelings on a stand by to deal with them latter…. Very busy days , with a lot of work sometimes all day and all night… And just to finish my list of excuses not to write, is the MSF policy that discourage us to share in blogs, facebook, etc ….everything that might touch the very sensitive religious , cultural or political issues of that part of Pakistan…. And as  you will probably understand it’s a bit impossible to say a word, without going into those subjects…. And I totally understand and respect that policy, and while I am working for MSF, any word I say will be representative in a way of MSF….

But here I am, trying to do what I feel like, the right thing to do, telling what I felt about one of the most controversial parts of the planet for the last 10 years…. A lot to say, and I don’t even know where to start…

Short summary about the place where I was living and working. Pakistan is like many other countries in the world, a country with a very recent, unstable and polemic national identity…. Totally different cultures, totally different languages, and one can say 1 religion (with some small minorities)….Islam. So its not difficult to understand Pakistani main marks of its young life to understand that it’s a diverse and complex country. I was working in the NorthWest provence or KPK, north of Peshawar, and quite close to the border of Afghanistan, in the land of big ethnic group, the Pashtun, with a long and rich individuality as a language and a culture, a history to be proud of… “Their” land is divided by the border of Pakistan-Afghanistan, once made by the British Empire and like many times in the history , the Europeans created fake divisions, and fake unifications as they pleased with historical consequences.
To make a long story short, that area is controlled by the Pakistani government but officially a war zone due to the many acts/attacks against the Pakistani government.  It’s a very conservative area where its said to be the biggest garden of Islamic extremism in the world….


I want to go into the medical issues as soon as possible, but I need to share my position concerning these complicated issues…just because I think its extremely important that everybody should think twice before having an easy made opinion about a problem that its dividing the world, and killing so many on a daily basis….I was raised catholic , but since many years now “transformed” atheist…. So I look at every religion with the same spirit . Islam is not the problem ! It seams so obvious that almost shouldnt be commented, but because so many still think otherwise, I think its important to stress it! Islam fundaments its actions in peace and respect for the human being, and we westerns, are making a  huge mistake if we judge the Muslims or the Arabs by the horrible inhuman acts that a very very small minority is making, they say in name of Islam…. Just remember that the media, just cover the horrible things that sell….they never (almost) cover the normal people, who just want to live in peace and love their family and live their lives like all of us….in Pakistan, Afghanistan, Iraq, etc….and hate their own compatriots who are using the name of their country and their god to justify horrible violence.

So the way I see it…. It’s a cultural issue, a political issue , with a religious excuse…. In that area of Pakistan, it helped the Pakistani leaders, of the recent decades to use fundamental believes to control a remote part of the country that they had problems in controlling, and by brain washing people about extreme ideas of Islam, and then naming themselves the voice of Islam it was easier to control the population and doing whatever they wanted, no questions asked… Solution ? Tolerance, respect…..and above all…. Education!! Books and teachers , would solve the problem in an area where the education rates are on the lowest levels of the world, mainly women…. Once again….its not Islam that discriminates the women, its certain cultures that believe that the women shouldn’t be educated, shouldn’t be seen as human being on the same level of the men…


And its here and about women that my field stories starts……

Women with no names to me, names I don't remember, names I couldn't even pronounce, but that would change my life forever..... Women with no names !!!

Forbidden to talk



(releio e publico palavras soltas numa tentativa falhada em escrever quando estava em Timergara, Paquistão )

A fantástica e inquietante história de Malala, que tanto me inspira  e me reforça a motivação para voltar a escrever


It has been a bit more than a week.....

Once again my plans of writing often, fail….. for many reasons I guess: Too much work…. Some days/nights have been crazy…. The need for team building, by trying to know them and make life easier for all of us….. And something else that I never really thought about: I have to be very careful about sharing all my thoughts in an open blog…. Some of my “western” opinions could make things more difficult for our mission….if they were to be read and understood in a wrong way….

I know that I am a nobody but we never know…. And what I say or do will always be seen as statement of this amazing organization that works all over this country….

My motivation to scream to the world about some issues that really shock me is huge….but I am here to work as a doctor, and not to try to change their cultural behavior….

…. But I will try to share some facts in a politically correct way, about somethings that I have come to understand…

Almost...... Forbidden to talk !
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